quinta-feira, 29 de maio de 2014

(re)escrever cap. 2

- Uma semana?- é minha primeira pergunta depois de notar uma brecha do tamanho do mundo que atravessa minha cabeça.
- Calma joão! não foi nada tão grave, os médicos acharam melhor te apagar por um tempo, mas foi só pra arrumar tua cabeça. Na verdade devias estar aliviado de ter sido socorrido tão rápido.
Minha cabeça a mil e essa maluca vem me falar que eu tive sorte. Sorte eu teria se não tivesse sido atropelado por um maluco, que nem deve ter prestado socorro. Do nada ela entra, olheiras meio fundas, branca como a neve, nunca foi fã de Bukowski, mas se o velho safado tivesse encontrado ela em uma esquina qualquer, com toda certeza haveria poemas falando sobre ela.
Minha esposa chega com um ar de alivio e preocupação, com um ar de quem não conseguiu pregar o olho durante toda essa semana. Me olha acordado, e antes de sorrir ou pular de alegria (na verdade ela nunca fez esse tipo de mulher) lança um olhar meio de banda pra minha ex, que logo entende o recado e sai sem demorar.
-Seu retardado! ta ficando maluco!? sabe como foi te ver assim a semana inteira? como se já não fosse o bastante eu ter que fazer tudo só em casa, ainda tenho que me preocupar com o bêbado alegre que não olha por onde anda...
Sei que no fundo ela deve estar muito feliz em me ver acordado, e talvez só tenha usados outras palavras pra expressar isso. -estava com saudades também- retruquei sem saber se eram essas as palavras certas a se dizer - sabe que eu fico preocupada quando você fica gripado, imagina assim todo costurado e com essa cara de quem não faz a barba a seculos.
Depois de muitos dias e visitas, das quais nem todas eram desejadas, eu sai daquela bodega. -Uma cerveja gelada , um cigarro, é disso que eu preciso pra me recuperar.- desejava eu não ter saído de casa no dia do acidente, bendito ventilador. Mesmo depois de meses eu estava expressamente proibido de beber ou fumar, minha saúde deveria estar impecável, eu pensava toda vez que via alguém no bar tomando uma gelada.
Finalmente depois de 11 meses eu consegui voltar pra todas minhas atividades rotineiras, mas antes que eu pudesse chegar ao bar mais próximo meu celular toca,o sinal fecha, abre, fecha outra vez, minha esposa do outro lado da linha, minha vida se consumindo aos poucos, sinto a lagrima escorrer no meu rosto. Não lembro ao certo o que eu senti naquele momento, não lembro se foi medo, se foi saudades, não sei nem se consegui responder ao telefonema. Durante meses eu dizia ao meu velho, "porra pai, vai ver essas manchas no corpo, eu pago uma grana no seu plano, não custa nada", ele ria, dizia que quem ia primeiro era eu pela quantidade de cigarro que eu fumava. Ele estava errado, e antes mesmo que eu pudesse me sentir feliz por completo sou pego na calçada, não foi por nenhum carro dessa vez. certamente ele talvez quisesse me dar um conselho antes de morrer, mas a morte não espera conselhos não dados, ela não espera ninguém, ela simplesmente bate em sua porte e lhe da um abraço que só ela sabe dar.

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