segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Capitulo 19

 Pela terceira noite seguida estava tendo pesadelos constantes. Era só fechar os olhos que eu acordava passando mal, como se alguém estivesse vindo me buscar. Era estranha a sensação de quase morte, como se estivesse para acontecer algo, e eu estava sendo avisado.

Guardei esse sonho comigo, já era preocupações demais na minha cabeça, para fazer alarde sobre coisas bobas. Mas, o que me intrigava era que já havia sonhado isso antes, na época que ainda morava na casa de minha família.

No sonho, aparecia uma figura sem rosto, muito branca. Sua mão era gelada, segurava a minha com força. Aos poucos, ia me puxando para perto, e sentia que tudo ia parando. respiração, coração, meus pensamentos. Fazia tanta força para acordar, que acordava gritando, algumas vezes.

Lembro que depois das primeiras vezes que tive esse sonho, fui até o terreiro que ficava perto de casa, para saber o que estava acontecendo. Eu não acreditava muito em nenhuma religião, mas Dona Mariana era conhecida por curar a dor dos aflitos, e ajudar quem bate na sua porta.

Era quarta feira, quando resolvi ir até o barracão, que ficava aos fundos de um terreno, bem no finalzinho da rua. Dona Mariana era uma senhora baixinha, e provavelmente na casa dos setenta, mas parecia ter mais força e disposição do que qualquer um que estava ali.

Aquele cheiro doce, misturada as músicas tocadas, traziam uma paz que eu não saberia explicar. Só de estar ali, já me sentia curado. 

Antes mesmo de começar os atendimentos, uma moça bem nova veio em minha direção. Suas vestes brancas, e sua voz doce me convidavam a sentar ao lado da matriarca, pois ela mesmo estava chamando. Levantei timidamente, e fui até o centro do terreiro.

Com os pés descalços, e um cachimbo na mão, Dona Mariana falava baixinho, quase em tom de segredo. Ao notar a voz diferente, perguntei de maneira inocente:

-Dona Mariana, a senhora quer uma água?

-Aqui é dona Maria Redonda meu filho, e não se preocupe não, que não é de água que preciso.

Tomou numa cuia pequena, um gole grande de café fumegante. O fumo emanava um cheiro doce, que me deixava com o sentimento de paz. Dona Maria me puxou pra bem perto, e falou no pé do meu ouvido:

-Seu guia quer trabalhar, meu filho... mas você precisa ficar curado ainda, tem muita coisa ainda pra você arrumar aí dentro.

Meus olhos brilhavam, e as lagrimas aos poucos foram caindo. Ela continuava a falar:

-Meu filho ainda vai florescer muito, mas vai precisar deixar tudo pra trás... Vai ter que voar pra longe... Mas eu não vou te deixar sozinho não, vou colocar uns anjinhos pra cuidar de você. Você deixa a vovó lhe ajudar?

Balancei a cabeça que sim. Minha cabeça parecia mais leve, e aquela sensação se paz e segurança me faziam ter medo do que ia acontecer. Senti a mão repousando sobre minha testa, e um sussurro vindo da direção da senhora. Aos poucos o som ficava mais distante, e parecia estar flutuando no ar.

Aos poucos fui voltando, e recobrando meus sentidos. Dona Maria sorria e me olhava, tragava fundo seu cachimbo e soprava em minha direção. O ultimo sopro em meus pés.

-Vai pra casa agora, que teu caminho tá abençoado. Vou te esperar aqui pro nosso próximo encontro.

-É pra eu vir quando?

-Você vai saber!

Estava na hora de reencontrar meu destino.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Capítulo 18

 

De cabelos brancos e os olhos vermelhos, molhados ainda com as lagrimas da saudades, nós nos olhamos. Não era um sentimento que tínhamos experimentados antes, e como tudo que era novo, se misturava a sensação de estranheza. Olhei novamente aquela mulher. Minha mãe. Não existia mais o passado dentro de mim, e para ela o sentimento parecia ser o mesmo.

-Eu sempre quis teu abraço, mãe!

-Eu sei meu filho… eu to aqui agora.

Nossos abraços eram eternos, misturando choro e sorriso, e a euforia de reconhecer aquela mulher como minha mãe.

Ela sentou rápido na cedeira, e pediu um copo d’água. As mãos trêmulas seguravam o copo com dificuldade, e as respirações profundas mostravam a ansiedade que tomava conta do ambiente. Carol, mesmo emocionada com tudo que acontecia, olhou nos olhos de sua sogra, e falou:

-A senhora não vá me passar mal agora não, tem alguém que precisa muito do seu colo.

Minha mãe abriu um sorriso de orelha a orelha, respirou fundo, e balançou a cabeça como se sinalizasse que estava tudo bem.

Seu sorriso largo e feliz me remetia a saudade,a vontade de ver aquela mulher mais alegre mais vezes. Tinha um milhão de perguntas para fazer, mas aquele não era o momento. Estávamos prestes a começar uma nova história, e por bem decidi deixar o passado para outro momento. Éramos uma família, e esse pensamento tomava conda de minha cabeça agora.

Carol entrou em direção ao quarto, e minha mãe já estava em pé novamente. Nos olhávamos entre sorrisos, e aguardávamos para saber como seria aquele momento.

Alba saiu falante dentro do quarto, fazendo inúmeros sons e rindo até para o vento. Aquela energia se transformou ao ver minha mãe. Seus olhinhos pequenos miraram os olhos da avó, e reinou um silêncio. Minha mãe esticou os braços, e sem pensar duas vezes Alba estava no colo da avó. Ela olhava cada detalhe daquela mulher desconhecida, as mãozinhas se perdiam entre o rosto e cabelo, entre olhos e olhares, entre almas que se reencontravam.

Os dois sorrisos brotaram aos mesmo tempo, se fundindo num abraço apertado. Alba repousava sua cabeça no colo de minha mãe, e reconhecia sua avó. Era um nova historia, e agora podíamos seguir em frente.

Os olhares, as lágrimas, os novos amores. A conversa foi se desenrolando durante o dia, e aos poucos foi tomando os rumos do passado. Minha mãe parecia receosa com as perguntas, mas aceitou de coração aberto minhas questões e trouxe a tona muitas das coisas que não fazia ideia.

Ricardo não era filho do mesmo pai que eu. Minha mãe estava grávida quando conheceu meu pai. Aquela informação me chocou bastante, me dando novos olhares a todos os problemas que havia enfrentado na infância, e trazendo no meu coração, novos sentimentos. Era claro que havia uma predileção pelo meu irmão, por parte de minha mãe, e eu não conseguia entender o motivo. Mas depois de muita insistência, fomos para outro cômodo, e minha mãe começou a falar:

-Seu pai sabia que o Ricardo não era filho dele, eu havia engravidado de um namorado que tinha, e seu pai sempre quis ficar comigo. Quando esse meu namorado da época sumiu, eu fiquei muito abalada. Teu irmão nem sonha que isso aconteceu, e quero que você não fale nada também! Ta bom?

-Sim mãe, mas não entendi onde eu entro nessa história…

-Calma que eu vou chegar lá.

-Tudo bem.

Minha mãe continuou sua narrativa sobre aquele período, falou que pensou em tirar a criança, mas se surpreendeu quando meu pai bateu no portão dela. Falou que ele estava todo arrumado, e que pediu para falar um assunto sério.

-Olha, eu sei que tu tá gravida do Otávio, e ele não quer nada contigo, e sei também que tu não falou nada pra tua família. Se Você deixar eu entrar e assumir essa criança, prometo que tu nunca vai sofrer outra vez.

Minha mãe ficou parada na frente do portão, sem saber o que fazer. O coração dela dizia que não era aquilo que ela queria, mas a razão falou mais alto. Meu pai entrou de mãos dadas com ela, como se fossem namorados. Falou que já namoravam faz tempo e estava ali pra falar que ela estava grávida. Foi tudo um alvoroço. Muita briga, muito choro, e minha mãe saiu de mala e cuia para a casa do novo namorado.

Eu estava atordoado com aquela história, como tudo aquilo tinha acontecido, e como minha mãe nunca tinha esboçado que tinha passado por aquelas coisas. Por que ela não falou comigo antes? Por que não havia contado sobre todo sofrimento que tinha passado.

Continuando sua história, ela falou que demorou pra se adaptar a tudo, e que o começo foi bem difícil, mas que meu pai foi muito bom e que ela foi se apaixonando aos poucos. Depois que Ricardo nasceu, eles continuaram um tempo na casa do meu avô paterno, mas logo meu pai deu um jeito de conseguir um trabalho melhor e mudar, para onde seria nossa casa na futuro.

O tempo foi só melhorando a relação, até o dia que meu pai atendeu uma ligação. Era Otávio procurando minha mãe e o filho, ele sabia o endereço de casa, e estava indo pra lá. Minha mãe fala que naquele dia meu pai falou que se ele visse a criança ele mataria todo mundo, que aquilo não era justo com ele, depois de tudo que ele fez. Minha mãe ficou apavorada, já que até o momento nunca havia visto meu pai daquele jeito, tão transtornado.

Quando Otávio bateu na porta foi aquela briga generalizada, e todos os vizinhos foram pra rua tentar apartar a briga, e por pouco meu pai não mata o homem na porrada. Mesmo depois de muita conversa com minha mãe, aquela raiva não passava, e começou a piorar bastante quando ele descobriu que minha mãe estava grávida, dessa vez de mim.

A vida começou a se tornar um inferno, e as acusações que minha mãe tinha traído meu pai com aquele homem só pra ter mais um filho com ele, tomaram a cabeça do meu pai. Agora ele tinha dado pra beber bastante, e cada vez foi ficando mais violento. Minha mãe lutava para manter a gravidez, e mesmo afirmando que nunca faria aquilo com meu pai, se tornou impossível dele voltar ao normal.

Eu ficava em choque com cada palavra que saia da boca dela, pensando nas vezes que apanhei de graça, ou na forma que minha mãe deixou de me amar, para mostrar para meu pai que o importante era ele e não eu. Pensava nas inúmeras brigas que tinham acontecido dentro de casa. Uma mulher com medo, uma mãe, alguém dividida entre amar o filho e reconquistar a sanidade do homem que tanto amava. Eram muitas dentro de uma só.

-Preciso respirar um pouco. Mas saiba que eu não estou com raiva da senhora.

-Você tem o tempo que precisar, meu filho.

Fui até a geladeira e peguei uma cerveja. Minha mãe foi ficar mais tempo com a neta. Meu olhar agora revivia o meu passado inteiro. Mas como havia falado para mim, esse é um novo capítulo.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Capítulo 17

 Carol ficou surpresa com minha decisão, não imaginava o que havia mudado minha cabeça de uma hora pra outra, mas podia perceber que mesmo antes dela falar alguma coisa, ela já ma apoiava.

-Sei que você tomou a melhor decisão. O que você precisar de mim, vou estar aqui.

Era claro que meu semblante mostrava uma mistura de preocupação, ansiedade e alegria, mas no fundo eu parecia saber o que estava fazendo. A conversa com minha mãe rendeu bastantes reflexões sobre minha vida, e nossas escolhas. Ela perguntou tantas coisas, que eu me perdia nas respostas, tentando ser o mais objetivo possível, mas sendo afetuoso e respeitoso de certa forma. Foi preciso eu dar uma pausa na conversa, e marcar um dia antes do aniversário de um ano de Alba, para que pudéssemos colocar tudo em panos limpos.

Marcamos um almoço no sábado, e resolvi fazer um churrasco para recebê-la. Ao perguntar do meu pai, ela apenas falou que estava bem, mas falou que ele não iria, resolvi não insistir. 

Falei sobre as regras da casa para não causar nenhum tipo de constrangimento, falando sobre a importância do distanciamento, de trazer uma roupa para trocar e sobre o uso de máscaras. Ouvi minha mãe ser compreensiva, e dizer para que eu não me preocupasse, pois ela faria tudo certinho. Confesso que fiquei surpreso com a forma branda de falar, a voz calma e suave, nada parecia com o timbre agressivo que me acostumei a ouvir.

No sábado que antecedia, acordamos todos um pouco mais tarde, e percebi que no meu celular haviam algumas mensagens de minha mãe. Ao abrir a conversa, notei que eram fotos de roupas de criança, um conjuntinho todo branco. Fiquei sorrindo para o celular, pensando o quanto aquilo ia ser realmente bom, mas não me deixei levar pelos pensamentos ruins que começavam a surgir na minha mente.

No sábado a noite já estava tudo organizado. Algumas cervejas na geladeira, suco, pudim e salada de batata. No dia seguinte acordei madrugando, organizando tudo que estava ao meu alcance, e deixando a casa mais propícia para um reencontro. As dez, recebi uma mensagem, ela estava saindo de casa, e ia vir de ônibus. Ainda me ofereci para ir buscar, mas ela falou que não queria, falou ainda que se precisava ir  olhando o caminho e pensando. Achei sensato.

Era onze e quinze quando ouvi o barulho de alguém batendo no portão. Meu coração batia forte, meu corpo inteiro suava, e ao ouvir a voz de Dorna Marta, tinha a certeza que não tinha volta. Carol foi abrir o portão, e foi encaminhando minha mãe para o banheiro. Ao me ver, pude sentir a exitação e o medo que habitava nossos corações Ela me olhou e disse: "deixa só eu sair do banheiro que falo com você".

Carol veio me abraçar, me apertou forte e me disse que não precisava ter medo. Respirei fundo, fiquei parado do lado de fora, ouvindo o barulho do chuveiro. Não conseguia pensar em nada, apenas ecoavam os barulhos do local. Dona Roberta ligou o som, colocando um samba antigo, coisa que me fez acordar daquele transe e começar me mexer. Peguei uma cerveja na geladeira e tomei um copo num gole só. Enquanto o gelado ia tomando meu corpo, a calma parecia tomar conta de mim, me fazendo relaxar lentamente.

Ao sai do banheiro pude olhar de perto aquela mulher. Pele negra retinta, olhos fundos e cheios de dores, alta e esguia, não por opção, mas por nunca ter tido a oportunidade de parar para ter uma refeição tranquila. Minha mãe me olhou nos olhos, sorriu como nunca havia feito antes, abriu os braços e me tomou por inteiro. Virei filho pela primeira vez. Pude sentir as lágrimas pingando em minha camisa, se misturando as minhas, que corriam pelo meu rosto. Ao fim do abraço, ela olhou em meus olhos, e professou:

-Não houve um só dia depois que eu perdi você, que eu não tivesse me arrependido profundamente de não ter sido sua mãe. Ainda dá tempo de pedir perdão?



terça-feira, 13 de maio de 2025

Capítulo 16

Acordei as cinco da manhã, o chão frio tocando meus dedos dos pés. Andei em direção ao banheiro, me olhei no espelho, mas não me reconheci. Sentei por uns instantes no bidê, ruminando em minha mente tudo que tinha acontecido comigo nos últimos anos, e como minha vida deu tantas voltas até chegar naquele exato ponto. 

Lembrei das madrugadas acordado bebendo, lembrei dos dias de folia na rua. Lembrei dos vizinhos que me olhavam pelas frestas da janela, e sequer sabem por onde eu ando atualmente. Lembrei dos escritos que me trouxeram até aqui, e que revejo e releio para me lembrar de quem sou.

Levantei. Vesti uma camiseta vermelha, que estava amassada ao lado do travesseiro. O silêncio reinava ao meu redor. Andei descalço até a cozinha, fui até a terceira gaveta do armário, que ficava logo ao lado da geladeira e coloquei a mão bem lá no fundo. Passei pelo fogão, emprestando a caixa de fósforo que alí estava, tão só e desprevenida quanto meus pensamentos soltos.

Abri a porta que dava para o quintal, e o breu se rompia levemente, com os raios laranja forte, de um sol que girava, mas que ainda não se apresentava. o vento frio atravessava a pequena conha que fazia com as mãos, e apagava insistentemente o fósforo. Acendi o cigarro, e traguei fundo aquela fumaça quente, que ardia em minha garganta e me fazia adormecer as pontas dos dedos. 

A sensação de leveza e paz, a mente vazia, o breve suspirar após o primeiro e longo trago. Me deixava levar pela sensação, fazendo minha mente ir numa espécie de transe. Minhas mãos geladas. A culpa de estar ali, quase que escondido começava a chegar, e aumentava a cada respiração mais profunda.

O sol começava a aparecer, e me convidava a estar ali. Fiquei até sentir meu corpo começar a aquecer. Fui até a cozinha e tomei dois copos de água gelada. Ao me dirigir ao banheiro, tirei a roupa na sala e já coloquei na máquina de lavar. No banheiro, sentia a água atravessando meus cabelos e barba, o toque suave e firme me trazia uma sensação de paz e tranquilidade. Os pensamentos que a pouco haviam fugido de minha cabeça turva, começavam a eclodir, me fazendo respirar cada vez mais rápido. As lágrimas que sentia correr dos meus olhos tinham o peso do medo. Escovei os dentes e voltei para a cozinha para preparar o café.

Minha cabeça estava longe quando senti aquele abraço quente tomando conta de mim. Não me virei. Não precisava me virar para sentir que o amor estava ali, e que todas as preocupações, por mais fortes e angustiantes, eram vãs.

Carol. 

O abraço.

Eu já não precisava mais ter medo.

O dia foi melhorando aos poucos, e mesmo naquele silêncio que Carol decidiu preservar por mais tempo, as coisas floriam ao meu redor. Os sorrisos de quem morava em meu peito eram minha força encarnada.

Peguei o telefone, olhei o número de minha mãe, e liguei. A chamada que era apenas o barulho da espera, logo parou. Do outro lado ouvi:

-Alô?

-Mãe?

-....................

-Mãe? É o Ivan.

-....................

-Mãe? A senhora está me ouvindo?

-Oi filho.

A voz de minha mãe. A quanto tempo eu não ouvia a voz dela? Quanto tempo a gente passou sem pensar um no outro? Eram tantas perguntas que me tomavam, que eu não sabia o que pensar.

-Oi filho, a mãe tá aqui. Ta tudo bem?

-Oi mãe, to sim, tenho uma coisa pra te contar.

- O que é meu filho? A mãe tá com saudades de você. Vem me ver meu filho?

-Eu casei mãe, e agora eu sou pai também. Acho que preciso lhe ver.

O silêncio durou pouco. O choro que ouvia do outro lado da linha me deixava afito, e de alguma forma me emocionava também. Mesmo com todo o passado que havia me machucado, eu ainda sentia algo, me sentia filho.

Era um novo dia, um novo capítulo se formando naquele instante. Decidi que não precisava morar na dor do meu passado, e que podia seguir em frente. Era por mim, mas principalmente pela minha filha que fazia aquelas coisas. Era minha família, do meu jeito, com todas as coisas que me faziam sentir alegre que me impulsionava buscar curar as feridas. Era preciso recomeçar.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Capítulo 15

 Desde o encontro com meu irmão que eu não conseguia dormir direito. Mesmo com a conversa que tive com Carol, nada me tirava que aquilo alí não era uma boa ideia, mas eu não tinha como prever, não tinha como ter certeza, teria que pagar pra ver.

Nessa semana que seguiu a minha cabeça ficou atribulada, e os pensamentos do passado começaram a ganhar mais espaço na minha cabeça. Lembrei da primeira vez que fugi de casa. Tinha pouco mais de 13 anos quando resolvi que poderia viver fora daquele hospício, que poderia ter uma vida boa longe dali. Chamei meu amigo da rua, Flávio, mas todo mundo chamava ele de cabeça-de-caixa-dágua:

-Ei cabeça, chega aqui!- Flávio veio na minha direção, balançando os braços compridos. na mão ele carregava uma garrafa plástica pequena, cheia de cola. A bermuda maior que ele, caia o tempo todo, fazendo com que ele ficasse eternamente puxando ela pra cima. Cabeça era tão magro, que era possível contar suas costelas de longe. Era uma visão bizarra, mas eu já estava acostumado.

-Qual foi moleque? 

-Tô precisando de um favor teu. Quero sair fora de casa, e preciso de um lugar pra ficar, tu não sabe quem possa me dar abrigo por uns dias? Ou um lugar que tenha um serviço pra eu fazer?

-Olha, tem uns parceiros aí... Eles podem te dar uma força.

-Se for com droga eu não quero não. Tem que ser um serviço certo.

-Eu vou ver e te digo.- Flávio foi andando em direção a esquina, enquanto eu olhava para os lados tentando saber se alguém estava escutando a conversa. 

Passei a semana inteira indo para o mesmo lugar, na esperança de encontrar o cabeça, e finalmente ter uma notícia boa. Mas minha espera foi em vão, ele simplesmente sumiu. Acho que já tinha se passado quase duas semanas, quando ouvi um grito na rua, chamando o meu nome. A voz era da Priscila, uma colega de rua. Saí para ver o que era:

-Olha, o cabeça falou que conseguiu o que tu queria. Amanhã ele vai te encontrar lá no campinho da igreja. Ah, ele mandou tu ir pronto já.- Agradeci e entrei novamente pra casa.

Eu mal dormi de tanta ansiedade, pensava que tudo podia dar errado, que aquilo era uma cilada. Minha vida estava na mão de outra criança, que parecia não ter muita coisa na cabeça.

No dia seguinte eu fui até a quadra com uma mochila nas costas, e avistei Flávio de longe. Algo estava diferente, ele parecia ter tomado banho, e as roupas que ele usava eram boas e limpas. Fui me aproximando, e notei que ele não segurava a garrafa de cola, que parecia estar grudada para sempre nele.

-Flávio?

-E aí moleque, gostou da beca? 

-Pois é, quase não te reconheci, o que aconteceu que tu sumiu?

-O irmão do meu pai morreu, ele que me ajudava nos meus corres. Agora eu tô careta, mas não sei por quanto tempo. Bora logo que a gente vai pegar um ônibus.

Fui seguindo ele até a parada de ônibus. Minha cabeça havia pensado que seria algo mais perto, e que daria pra eu ir andando. Minha dor de barriga aumentava, e eu já não sabia o que queria fazer. Cabeça me olhou de canto, e percebeu minha cara de desespero. Olhou pra mim de frente e falou:

-Olha moleque, a parada é a seguinte. Se a gente entrar no ônibus não vai ter volta. Eu só vou te levar e tu nunca vai poder dizer que fui eu que te ajudei. Se tu não der certo, vai ter que se virar sozinho. Ta entendendo?- Só consegui a cabeça, dizendo sim.

Subimos no ônibus e sentamos nas poltronas da frente, próximo ao motorista. O ônibus estava vazio, e poucas pessoas subiram ou desceram durante todo o trajeto. Chegando no centro da cidade, Flávio chega no pé do meu ouvido e fala: "Corre junto comigo".

O frio foi descendo do centro da minha cabeça até os meus pés. o suor emanava pelo meu corpo, como se tivesse corrido uma maratona, acho que eu estava realmente passando mal, pois conseguia ver o meu reflexo no espelho, destacando meus lábios que estavam brancos. 

A porta se abriu e vi Flávio flutuando no ar, pulando quase que instantaneamente para fora do ônibus. Eu nem cheguei a pensar direito e tentei fazer a mesma coisa. Dei um pulo alto, jogando meu corpo pra fora o ônibus, mas meu pé engatou na beirada da porta, fazendo com que eu voasse direto pro asfalto quente. Daí em diante eu não sei o que aconteceu, lembro de poucas coisas, algumas vozes e gritos e daí em diante mais nada, só uma escuridão.

Acordei tempo depois, no colo de uma senhora. Eu estava com a cabeça apertada, e ao colocar a mão senti a faixa enrolando meu crânio.

-Quem é a senhora?

-Ah meu filho, que bom que você acordou. A gente está no hospital, você levou uma queda feia. Já tá quase de noite.

Levantei meio zonzo, e aos poucos tentava entender o que havia acontecido. Lembrei que estava no ônibus, mas o resto não estava claro.

-Você mora onde? Cadê seus pais?

-Olha dona, eu não poso voltar pra casa, deixa eu dormir na tua casa?

A senhora me olhava com um ar de mãe. Mesmo relutante ela aceitou, mas falou que ia me deixar em casa no outro dia. Pensei em como aquilo poderia gerar uma tremenda confusão, e que eu seria o pivô daquilo. Dona Graça me levou pra casa, me deu comida e me colocou no sofá da casa dela. Falou que eu dormisse e que no outro dia ela ia me ajudar.

Acordei ainda de madrugada. Peguei minha mochila e saí pela rua, em direção a parada de ônibus. Fiquei pensando na confusão e na surra que iria levar ao chegar em casa. Talvez a polícia estaria lá, só aguardando para me dar uma bronca. 

Quando passou o primeiro ônibus que servia, pedi pro motorista uma carona. Ele me olhou dos pés a cabeça, e talvez eu estivesse tão mal que ele aceitou. Fui refletindo a viagem inteira, me preparando pra surra que iria levar.

Chegeui na rua de casa, e vi as pessoas indo ao trabalho e me olhando. Ao entrar em casa, passei direto pro quarto e escondi a mochila. Fui ao banheiro e me lavei inteiro. Sentei no quarto e esperei o pior. Minhão mãe acordou gritando, pedindo pro meu pai não sair de casa. Fui até a cozinha pra fazer café. Lembro do olhar da minha mãe pra mim, e suas palavras:

-Que merda é essa na tua cabeça? Entrou na macumba foi? Tira isso que tá ridículo!

Eu já havia me sentido invisível antes, mas por um breve instante sonhei com um abraço de preocupação, um colo, ou até uma bronca, qualquer coisa que demonstrasse que ela se importava de alguma forma. Nada aconteceu. Eu não existia.




quarta-feira, 23 de abril de 2025

Capítulo 14

 Aquele encontro com Ricardo havia deixado uma brecha em meus pensamentos. por um lado eu me via no mesmo filme de antes, onde eu tentava ser amigavel e recebia uma facada no peito. por outro, eu pensava que as coisas poderiam mudar e Alba estivesse vindo para trazer um novo episódio na minha vida. Aquela com certeza não era uma tarefa facil, mas uma hora ou outra eu precisaria tomar uma decisão.

Falei sobre o ocorrido com meus amigos, e decidimos marcar uma reunião na casa de Paulo. Pensamos em nos encontrar depois do expediente, mas Carol falou que era melhor esperar o final de semana, onde teríamos mais tempo. Dei a sugestão para o grupo, e todos foram de comum acordo. Aguardamos aquela semana, adiantando alguns assuntos pelo computador, mas conversar presencialmente seria diferente. Carol falou que dessa vez não iria me acompanhar, Alba era bem agitada, e ela receava passar tanto tempo fora de casa com ela. Apesar de não concordar, precisava rever meus amigos.

Fui o primeiro a chegar na reunião, e depois de um banho de álcool em todas as suas formas, dei um abraço em Teresa e Paulo. Começamos adiantando alguns assuntos coletivos, atualizando de algumas coisas da vida. Os dois perguntavam sobre Carol e Alba, e só de ver a minha empolgação de falar sobre as duas, eles ficaram felizes. Logo depois Bia chegou com Ronaldo, e após o mesmo protocolo de higiene sentamos para conversar. Teresa começou:

-Irmãos e irmãs, estamos reunidos hoje para orar pelo nosso varão Ivan-Todos caímos na gargalhada.

-Obrigado pessoal, eu realmente precisava da ajuda de vocês- disse eu entre as risadas- Como ja tinha falado, rolou toda aquela situação com o meu irmão no passado, e  eu tinha dada por encerrada a minha tentativa de reaproximação. Pois bem, semana passada encontrei ele lá no supermercado, e ele viu que eu estava com a minha filha no colo, e daí por diante vocês já podem imaginar.

-Olha Ivan- Paulo respirou fundo antes de continuar- Eu acho que é uma situação delicada, porque vocês não se dão bem, e se tu ja ficou puto da ultima vez, dessa não vai ser diferente.

Ficou um silêncio entre o nosso grupo, foi então que Bia falou:

-Eu concordo com o Paulo, só que tem um porém, a gente mora na mesma cidade, e aos poucos as coisas vão voltar a acontecer. Tu vai sair pro parque, ou shopping ou qualquer outro lugar, e sempre vai ter a possibilidade de alguém da tua família aparecer. Tu mesmo já havia falado que tinha visto tua mãe varias vezes, e ficava se escondendo. Com uma criança, vai ser impossível isso acontecer. Não dá pra se esconder pra sempre.

Fiquei pensando no que Bia havia falado, e outro silêncio pairou no ar. Ronaldo falou que Bia tinha razão, e que uma hora ou outra era capaz de alguém bater lá em casa pra me procurar. A situação parecia ter ficado mais complicada, até Teresa falar novamente:

-Ivan, sei que o passado pode ter sido cruel com a gente, mas a gente está no presente. A Alba nunca sofreu nada, e estando com você e a Carol, eu tenho certeza que ela não vai sofrer. Nós fizemos nossas escolhas, e estamos sofrendo as consequências até hoje. Não tira a oportunidade da Alba ter avós e tio. Muitas vezes eu sonho com minha família, e mesmo no meio de tanta dor eu arrumo um jeito de rir, ou de me alegrar. Você não está mais sozinho.

As palavras de Teresa emocionaram o grupo inteiro, e por mais que todos esperássemos uma piada, ou algo parecido, isso não aconteceu. Todos concordaram com Teresa, e tentávamos pensar em qual momento isso poderia acontecer, em qual ambiente, de que maneira iríamos organizar aquele reencontro. Foram várias as sugestões, mas o assunto ficou em aberto.

Conversamos, lanchamos e mais uma vez tivemos que dar um até logo. Dessa vez não havia tristeza, e todos partimos para nossas casas. 

Cheguei para o meu banho de mangueira, e uma outra dose de álcool em gel. Após o banho de cachorro, Carol me chamou pra comer um bolo que havia feito, e fomos para o quarto conversar. Era quase a hora de jantar quando paramos nosso assunto. Por mais que o tema fosse pesado, Carol trazia leveza, com falas compreensivas, entre brincadeiras com nossa filha.

-Sei que pra você é muito difícil, mas acredito que tenho uma possível solução. Espera chegar o aniversário de Alba de um ano, e até lá pensamos no que fazer, e como podemos convidar sua família. A essa altura do campeonato eles devem saber da Alba, então é uma questão de tempo até a gente decidir dar o próximo passo.

Aquelas palavras ressoavam na minha cabeça, e agora o encontro tinha data certa para acontecer. Era uma contagem regressiva para um futuro incerto, e eu não sabia o que fazer.


terça-feira, 22 de abril de 2025

Capítulo 13

 Carol me acordou de madrugada, falou que havia escutado um barulho na cozinha como se alguém estivesse empurrando a janela. Levantei assustado, e ainda um pouco perdido. Abri o guarda roupa e peguei um cabide de madeira e fui na direção da porta. Carol me olhou sorrindo, e perguntou sussurrando:

-É sério que você vai la com um cabide?

-É de madeira.

-Amor, tu vai pendurar o ladrão no armário?

-Eu levo o que então? 

Fomos falando baixinho, procurando uma possível solução para aquela confusão que se formava. Decidi continuara com minha jornada, e seguir em frente com meu intento. Abri a porta bem devagar, enquanto Carol ia com Alba para o banheiro. Olhei em direção a janela, e vi aquela sombra esstranha, tentando forçar a entrada. Pensei comigo mesmo: "se eu chegar gritando, ele vai se assustar". Era eu que estava morrendo de medo.

-TE PEGUEEEEEEEEEEI!- Gritei o mais alto que pude. Vi que no mesmo instante a sombra sumiu e ouvi uns barulhos, como se tivesse caído uma caixa ou algo assim. Foi aí que veio a surpresa. Abri a porta da área, e pude ver a silhueta esbelta pulando o muro. Fiquei pensativo durante alguns momentos, até que olhei pra baixo e vi um volume próximo ao meu pé.

Dona Roberta e Carol começavam a ligar todas as luzes da casa, e aos poucos, percebendo a falta de perigo, se aproximavam perguntando o que estava acontecendo. Carol argumentava com ela que tinha ido ver se tinha alguém invadindo a casa.

-Conseguiu ver quem era amor?- perguntou Carol, me observando de longe. 

Me abaixei lentamente, e peguei no colo aquele pequenino ser, virando para que todos pudessem ver. Era um gatinho preto, que provavelmente estava na fase do desmame, já não era tão miudinho, mas também não era grande coisa. Dona Roberta se apressou e pegou ele do meu colo, falando que ia colocar numa caixa no quarto e que quando amanhecesse íamos pensar no que fazer. Eu e Carol nos olhamos, sabíamos que o sonho da sua tia era ter um gatinho pra cuidar. Consentimos e formos nos deitar.

Na cama conversamos mais um pouco, sobre como seria ter um bicho de estimação. Eu dizia que se a tia dela cuidasse, não teria problema nenhum da gente ficar, até porque isso ia ajudar ela a ter mais coisas pra ocupar o dia. Carol pensava em como aquele bicho, entrando e saindo de casa poderia ser um perigo, que teríamos que telar a casa inteira. A conversa ainda se arrastou por alguns minutos, mas se encerrou comigo pegando no sono.

Na manhã seguinte, acordei um pouco mais tarde, já que não teria que trabalhar. Quando me dei conta que estava só no quarto comecei minha rotina matinal. Ao chegar na sala, Dona Roberta estava toda arrumada, com uma bolsa bem grande debaixo do braço, como se estivesse pronta pra sair pra um evento importante.

-A senhora vai sair?- Perguntei para atiçara a resposta, que veio prontamente.

-Oh meu filho, tem que me levar com urgência no veterinário, não tem nada pra esse menino comer, e ainda tem que ver a vacina dele.

-Deixe só eu tomar meu café, que eu levo a senhora.- Carol se animou, falou pra esperar ela se arrumar e organizar as coisas enquanto eu tomava café. Queria passar no mercado pra comprar umas coisas pra ela. 

Tomei meu café com calma, e aos poucos, fomos organizando tudo que pudéssemos precisar. Talvez a inexperiência tivesse muito presente, pois o tamanho da sacola da criança era grande demais, e por pouco faltou espaço para levar tudo.

Saímos quase umas dez da manhã, e fomos primeiro ao mercado. Segurava Alba no colo enquanto Carol ia organizando as coisas que ela queria dentro do carrinho. Dona Roberta decidiu ficar no carro, com todas as janelas abertas. Falava que ia ficar de olho no gatinho.

Fomo em zigue-zague pelos corredores, procurando as coisas que Carol dizia precisar. Acho que ela nem sabia  muito bem o que queria, pois ficava olhando todas as prateleiras, como se procurasse algo que não estava ali. Aos poucos as pequenas coisas se tornaram muitas, e parecia que ela estava achando que precisava de tudo. Era engraçado ver ela tentando explicar pra que era cada objeto, principalmente quando ela dizia "era isso aqui que eu estava procurando".

Passamos pelo corredor de bebidas, mas como tinha prometido que só ia beber quando ela também pudesse, acabei ignorando aquele local. Mas fui surpreendido quando ouvi meu nome:

-Ivan?- Aquela voz era familiar, familiar até demais. Exitei em me virar, mas Carol ja havia visto quem era, e me olhava com um olhar de apreensão. Ouvi meu nome mais duas vezes, até que decidi me virar para constatar o que eu já sabia.

-Oi Ricardo.

Houve um silêncio que ficou pairando no ar. Nossos olhos mal se cruzaram quando ele viu minha filha no colo. Era a primeira vez que via os olhos de Ricardo marejados, e mesmo me sentido estranho, não deixei transparecer. Ricardo olhava incrédulo, como se não fosse real. Perguntou olhando para Alba:

-É sua filha?

-É.

-Qual o nome dela?

-Alba.

-Ela ta com quantos meses?

-Sete.

Minhas respostas secas não assustavam Ricardo, e nem faziam ele olhar para mim. Carol colava seu corpo no meu, como se tentasse me proteger de tudo aquilo.

-Amor, vamos pagar? Minha Tia está muito tempo esperando.

-Vamos sim. 

Olhei para Ricardo, e apenas acenei com a cabeça. Fomos direto para o caixa, sem dizer uma palavra, sem olhar para trás.

Ao chegar no carro, organizei as compras em silêncio, ouvindo as reclamações de dona Roberta. Entramos no carro, ainda em silêncio. Dirigi tranquilamente até o veterinário. Dona Roberta entrou com ele, e eu fiquei com Carol no corredor. 

-Você está bem?- Perguntou Carol calmamente.

-Ainda não sei como estou. Nunca me passou pela cabeça reencontrar ninguém da minha família, principalmente agora. Eu realmente não sei o que sentir.

Carol me abraçava tentando me dar paz, e eu tentava a todo custo esquecer aquele momento no supermercado. 

Dona Roberta saiu toda contente de dentro do consultório. Cheia de papéis e o documento do gato. Olhando em volta viu as coisas que iria precisar para alimentar, cuida e brincar com aquele pequeno felino.

No carro, bateu a curiosidade:

-E aí dona Roberta, qual o nome do seu filho?

-Ah meu filho, vai ser uma homenagem ao meu falecido pai. 

-Então vai ser Alfredo?

-Alfredo não, Alfredinho.

Caímos na gargalhada. 

E pensar que nunca em minha vida havia pensado em ter um animal de estimação.