segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Capitulo 19

 Pela terceira noite seguida estava tendo pesadelos constantes. Era só fechar os olhos que eu acordava passando mal, como se alguém estivesse vindo me buscar. Era estranha a sensação de quase morte, como se estivesse para acontecer algo, e eu estava sendo avisado.

Guardei esse sonho comigo, já era preocupações demais na minha cabeça, para fazer alarde sobre coisas bobas. Mas, o que me intrigava era que já havia sonhado isso antes, na época que ainda morava na casa de minha família.

No sonho, aparecia uma figura sem rosto, muito branca. Sua mão era gelada, segurava a minha com força. Aos poucos, ia me puxando para perto, e sentia que tudo ia parando. respiração, coração, meus pensamentos. Fazia tanta força para acordar, que acordava gritando, algumas vezes.

Lembro que depois das primeiras vezes que tive esse sonho, fui até o terreiro que ficava perto de casa, para saber o que estava acontecendo. Eu não acreditava muito em nenhuma religião, mas Dona Mariana era conhecida por curar a dor dos aflitos, e ajudar quem bate na sua porta.

Era quarta feira, quando resolvi ir até o barracão, que ficava aos fundos de um terreno, bem no finalzinho da rua. Dona Mariana era uma senhora baixinha, e provavelmente na casa dos setenta, mas parecia ter mais força e disposição do que qualquer um que estava ali.

Aquele cheiro doce, misturada as músicas tocadas, traziam uma paz que eu não saberia explicar. Só de estar ali, já me sentia curado. 

Antes mesmo de começar os atendimentos, uma moça bem nova veio em minha direção. Suas vestes brancas, e sua voz doce me convidavam a sentar ao lado da matriarca, pois ela mesmo estava chamando. Levantei timidamente, e fui até o centro do terreiro.

Com os pés descalços, e um cachimbo na mão, Dona Mariana falava baixinho, quase em tom de segredo. Ao notar a voz diferente, perguntei de maneira inocente:

-Dona Mariana, a senhora quer uma água?

-Aqui é dona Maria Redonda meu filho, e não se preocupe não, que não é de água que preciso.

Tomou numa cuia pequena, um gole grande de café fumegante. O fumo emanava um cheiro doce, que me deixava com o sentimento de paz. Dona Maria me puxou pra bem perto, e falou no pé do meu ouvido:

-Seu guia quer trabalhar, meu filho... mas você precisa ficar curado ainda, tem muita coisa ainda pra você arrumar aí dentro.

Meus olhos brilhavam, e as lagrimas aos poucos foram caindo. Ela continuava a falar:

-Meu filho ainda vai florescer muito, mas vai precisar deixar tudo pra trás... Vai ter que voar pra longe... Mas eu não vou te deixar sozinho não, vou colocar uns anjinhos pra cuidar de você. Você deixa a vovó lhe ajudar?

Balancei a cabeça que sim. Minha cabeça parecia mais leve, e aquela sensação se paz e segurança me faziam ter medo do que ia acontecer. Senti a mão repousando sobre minha testa, e um sussurro vindo da direção da senhora. Aos poucos o som ficava mais distante, e parecia estar flutuando no ar.

Aos poucos fui voltando, e recobrando meus sentidos. Dona Maria sorria e me olhava, tragava fundo seu cachimbo e soprava em minha direção. O ultimo sopro em meus pés.

-Vai pra casa agora, que teu caminho tá abençoado. Vou te esperar aqui pro nosso próximo encontro.

-É pra eu vir quando?

-Você vai saber!

Estava na hora de reencontrar meu destino.

Nenhum comentário:

Postar um comentário