quinta-feira, 24 de abril de 2025

Capítulo 15

 Desde o encontro com meu irmão que eu não conseguia dormir direito. Mesmo com a conversa que tive com Carol, nada me tirava que aquilo alí não era uma boa ideia, mas eu não tinha como prever, não tinha como ter certeza, teria que pagar pra ver.

Nessa semana que seguiu a minha cabeça ficou atribulada, e os pensamentos do passado começaram a ganhar mais espaço na minha cabeça. Lembrei da primeira vez que fugi de casa. Tinha pouco mais de 13 anos quando resolvi que poderia viver fora daquele hospício, que poderia ter uma vida boa longe dali. Chamei meu amigo da rua, Flávio, mas todo mundo chamava ele de cabeça-de-caixa-dágua:

-Ei cabeça, chega aqui!- Flávio veio na minha direção, balançando os braços compridos. na mão ele carregava uma garrafa plástica pequena, cheia de cola. A bermuda maior que ele, caia o tempo todo, fazendo com que ele ficasse eternamente puxando ela pra cima. Cabeça era tão magro, que era possível contar suas costelas de longe. Era uma visão bizarra, mas eu já estava acostumado.

-Qual foi moleque? 

-Tô precisando de um favor teu. Quero sair fora de casa, e preciso de um lugar pra ficar, tu não sabe quem possa me dar abrigo por uns dias? Ou um lugar que tenha um serviço pra eu fazer?

-Olha, tem uns parceiros aí... Eles podem te dar uma força.

-Se for com droga eu não quero não. Tem que ser um serviço certo.

-Eu vou ver e te digo.- Flávio foi andando em direção a esquina, enquanto eu olhava para os lados tentando saber se alguém estava escutando a conversa. 

Passei a semana inteira indo para o mesmo lugar, na esperança de encontrar o cabeça, e finalmente ter uma notícia boa. Mas minha espera foi em vão, ele simplesmente sumiu. Acho que já tinha se passado quase duas semanas, quando ouvi um grito na rua, chamando o meu nome. A voz era da Priscila, uma colega de rua. Saí para ver o que era:

-Olha, o cabeça falou que conseguiu o que tu queria. Amanhã ele vai te encontrar lá no campinho da igreja. Ah, ele mandou tu ir pronto já.- Agradeci e entrei novamente pra casa.

Eu mal dormi de tanta ansiedade, pensava que tudo podia dar errado, que aquilo era uma cilada. Minha vida estava na mão de outra criança, que parecia não ter muita coisa na cabeça.

No dia seguinte eu fui até a quadra com uma mochila nas costas, e avistei Flávio de longe. Algo estava diferente, ele parecia ter tomado banho, e as roupas que ele usava eram boas e limpas. Fui me aproximando, e notei que ele não segurava a garrafa de cola, que parecia estar grudada para sempre nele.

-Flávio?

-E aí moleque, gostou da beca? 

-Pois é, quase não te reconheci, o que aconteceu que tu sumiu?

-O irmão do meu pai morreu, ele que me ajudava nos meus corres. Agora eu tô careta, mas não sei por quanto tempo. Bora logo que a gente vai pegar um ônibus.

Fui seguindo ele até a parada de ônibus. Minha cabeça havia pensado que seria algo mais perto, e que daria pra eu ir andando. Minha dor de barriga aumentava, e eu já não sabia o que queria fazer. Cabeça me olhou de canto, e percebeu minha cara de desespero. Olhou pra mim de frente e falou:

-Olha moleque, a parada é a seguinte. Se a gente entrar no ônibus não vai ter volta. Eu só vou te levar e tu nunca vai poder dizer que fui eu que te ajudei. Se tu não der certo, vai ter que se virar sozinho. Ta entendendo?- Só consegui a cabeça, dizendo sim.

Subimos no ônibus e sentamos nas poltronas da frente, próximo ao motorista. O ônibus estava vazio, e poucas pessoas subiram ou desceram durante todo o trajeto. Chegando no centro da cidade, Flávio chega no pé do meu ouvido e fala: "Corre junto comigo".

O frio foi descendo do centro da minha cabeça até os meus pés. o suor emanava pelo meu corpo, como se tivesse corrido uma maratona, acho que eu estava realmente passando mal, pois conseguia ver o meu reflexo no espelho, destacando meus lábios que estavam brancos. 

A porta se abriu e vi Flávio flutuando no ar, pulando quase que instantaneamente para fora do ônibus. Eu nem cheguei a pensar direito e tentei fazer a mesma coisa. Dei um pulo alto, jogando meu corpo pra fora o ônibus, mas meu pé engatou na beirada da porta, fazendo com que eu voasse direto pro asfalto quente. Daí em diante eu não sei o que aconteceu, lembro de poucas coisas, algumas vozes e gritos e daí em diante mais nada, só uma escuridão.

Acordei tempo depois, no colo de uma senhora. Eu estava com a cabeça apertada, e ao colocar a mão senti a faixa enrolando meu crânio.

-Quem é a senhora?

-Ah meu filho, que bom que você acordou. A gente está no hospital, você levou uma queda feia. Já tá quase de noite.

Levantei meio zonzo, e aos poucos tentava entender o que havia acontecido. Lembrei que estava no ônibus, mas o resto não estava claro.

-Você mora onde? Cadê seus pais?

-Olha dona, eu não poso voltar pra casa, deixa eu dormir na tua casa?

A senhora me olhava com um ar de mãe. Mesmo relutante ela aceitou, mas falou que ia me deixar em casa no outro dia. Pensei em como aquilo poderia gerar uma tremenda confusão, e que eu seria o pivô daquilo. Dona Graça me levou pra casa, me deu comida e me colocou no sofá da casa dela. Falou que eu dormisse e que no outro dia ela ia me ajudar.

Acordei ainda de madrugada. Peguei minha mochila e saí pela rua, em direção a parada de ônibus. Fiquei pensando na confusão e na surra que iria levar ao chegar em casa. Talvez a polícia estaria lá, só aguardando para me dar uma bronca. 

Quando passou o primeiro ônibus que servia, pedi pro motorista uma carona. Ele me olhou dos pés a cabeça, e talvez eu estivesse tão mal que ele aceitou. Fui refletindo a viagem inteira, me preparando pra surra que iria levar.

Chegeui na rua de casa, e vi as pessoas indo ao trabalho e me olhando. Ao entrar em casa, passei direto pro quarto e escondi a mochila. Fui ao banheiro e me lavei inteiro. Sentei no quarto e esperei o pior. Minhão mãe acordou gritando, pedindo pro meu pai não sair de casa. Fui até a cozinha pra fazer café. Lembro do olhar da minha mãe pra mim, e suas palavras:

-Que merda é essa na tua cabeça? Entrou na macumba foi? Tira isso que tá ridículo!

Eu já havia me sentido invisível antes, mas por um breve instante sonhei com um abraço de preocupação, um colo, ou até uma bronca, qualquer coisa que demonstrasse que ela se importava de alguma forma. Nada aconteceu. Eu não existia.




quarta-feira, 23 de abril de 2025

Capítulo 14

 Aquele encontro com Ricardo havia deixado uma brecha em meus pensamentos. por um lado eu me via no mesmo filme de antes, onde eu tentava ser amigavel e recebia uma facada no peito. por outro, eu pensava que as coisas poderiam mudar e Alba estivesse vindo para trazer um novo episódio na minha vida. Aquela com certeza não era uma tarefa facil, mas uma hora ou outra eu precisaria tomar uma decisão.

Falei sobre o ocorrido com meus amigos, e decidimos marcar uma reunião na casa de Paulo. Pensamos em nos encontrar depois do expediente, mas Carol falou que era melhor esperar o final de semana, onde teríamos mais tempo. Dei a sugestão para o grupo, e todos foram de comum acordo. Aguardamos aquela semana, adiantando alguns assuntos pelo computador, mas conversar presencialmente seria diferente. Carol falou que dessa vez não iria me acompanhar, Alba era bem agitada, e ela receava passar tanto tempo fora de casa com ela. Apesar de não concordar, precisava rever meus amigos.

Fui o primeiro a chegar na reunião, e depois de um banho de álcool em todas as suas formas, dei um abraço em Teresa e Paulo. Começamos adiantando alguns assuntos coletivos, atualizando de algumas coisas da vida. Os dois perguntavam sobre Carol e Alba, e só de ver a minha empolgação de falar sobre as duas, eles ficaram felizes. Logo depois Bia chegou com Ronaldo, e após o mesmo protocolo de higiene sentamos para conversar. Teresa começou:

-Irmãos e irmãs, estamos reunidos hoje para orar pelo nosso varão Ivan-Todos caímos na gargalhada.

-Obrigado pessoal, eu realmente precisava da ajuda de vocês- disse eu entre as risadas- Como ja tinha falado, rolou toda aquela situação com o meu irmão no passado, e  eu tinha dada por encerrada a minha tentativa de reaproximação. Pois bem, semana passada encontrei ele lá no supermercado, e ele viu que eu estava com a minha filha no colo, e daí por diante vocês já podem imaginar.

-Olha Ivan- Paulo respirou fundo antes de continuar- Eu acho que é uma situação delicada, porque vocês não se dão bem, e se tu ja ficou puto da ultima vez, dessa não vai ser diferente.

Ficou um silêncio entre o nosso grupo, foi então que Bia falou:

-Eu concordo com o Paulo, só que tem um porém, a gente mora na mesma cidade, e aos poucos as coisas vão voltar a acontecer. Tu vai sair pro parque, ou shopping ou qualquer outro lugar, e sempre vai ter a possibilidade de alguém da tua família aparecer. Tu mesmo já havia falado que tinha visto tua mãe varias vezes, e ficava se escondendo. Com uma criança, vai ser impossível isso acontecer. Não dá pra se esconder pra sempre.

Fiquei pensando no que Bia havia falado, e outro silêncio pairou no ar. Ronaldo falou que Bia tinha razão, e que uma hora ou outra era capaz de alguém bater lá em casa pra me procurar. A situação parecia ter ficado mais complicada, até Teresa falar novamente:

-Ivan, sei que o passado pode ter sido cruel com a gente, mas a gente está no presente. A Alba nunca sofreu nada, e estando com você e a Carol, eu tenho certeza que ela não vai sofrer. Nós fizemos nossas escolhas, e estamos sofrendo as consequências até hoje. Não tira a oportunidade da Alba ter avós e tio. Muitas vezes eu sonho com minha família, e mesmo no meio de tanta dor eu arrumo um jeito de rir, ou de me alegrar. Você não está mais sozinho.

As palavras de Teresa emocionaram o grupo inteiro, e por mais que todos esperássemos uma piada, ou algo parecido, isso não aconteceu. Todos concordaram com Teresa, e tentávamos pensar em qual momento isso poderia acontecer, em qual ambiente, de que maneira iríamos organizar aquele reencontro. Foram várias as sugestões, mas o assunto ficou em aberto.

Conversamos, lanchamos e mais uma vez tivemos que dar um até logo. Dessa vez não havia tristeza, e todos partimos para nossas casas. 

Cheguei para o meu banho de mangueira, e uma outra dose de álcool em gel. Após o banho de cachorro, Carol me chamou pra comer um bolo que havia feito, e fomos para o quarto conversar. Era quase a hora de jantar quando paramos nosso assunto. Por mais que o tema fosse pesado, Carol trazia leveza, com falas compreensivas, entre brincadeiras com nossa filha.

-Sei que pra você é muito difícil, mas acredito que tenho uma possível solução. Espera chegar o aniversário de Alba de um ano, e até lá pensamos no que fazer, e como podemos convidar sua família. A essa altura do campeonato eles devem saber da Alba, então é uma questão de tempo até a gente decidir dar o próximo passo.

Aquelas palavras ressoavam na minha cabeça, e agora o encontro tinha data certa para acontecer. Era uma contagem regressiva para um futuro incerto, e eu não sabia o que fazer.


terça-feira, 22 de abril de 2025

Capítulo 13

 Carol me acordou de madrugada, falou que havia escutado um barulho na cozinha como se alguém estivesse empurrando a janela. Levantei assustado, e ainda um pouco perdido. Abri o guarda roupa e peguei um cabide de madeira e fui na direção da porta. Carol me olhou sorrindo, e perguntou sussurrando:

-É sério que você vai la com um cabide?

-É de madeira.

-Amor, tu vai pendurar o ladrão no armário?

-Eu levo o que então? 

Fomos falando baixinho, procurando uma possível solução para aquela confusão que se formava. Decidi continuara com minha jornada, e seguir em frente com meu intento. Abri a porta bem devagar, enquanto Carol ia com Alba para o banheiro. Olhei em direção a janela, e vi aquela sombra esstranha, tentando forçar a entrada. Pensei comigo mesmo: "se eu chegar gritando, ele vai se assustar". Era eu que estava morrendo de medo.

-TE PEGUEEEEEEEEEEI!- Gritei o mais alto que pude. Vi que no mesmo instante a sombra sumiu e ouvi uns barulhos, como se tivesse caído uma caixa ou algo assim. Foi aí que veio a surpresa. Abri a porta da área, e pude ver a silhueta esbelta pulando o muro. Fiquei pensativo durante alguns momentos, até que olhei pra baixo e vi um volume próximo ao meu pé.

Dona Roberta e Carol começavam a ligar todas as luzes da casa, e aos poucos, percebendo a falta de perigo, se aproximavam perguntando o que estava acontecendo. Carol argumentava com ela que tinha ido ver se tinha alguém invadindo a casa.

-Conseguiu ver quem era amor?- perguntou Carol, me observando de longe. 

Me abaixei lentamente, e peguei no colo aquele pequenino ser, virando para que todos pudessem ver. Era um gatinho preto, que provavelmente estava na fase do desmame, já não era tão miudinho, mas também não era grande coisa. Dona Roberta se apressou e pegou ele do meu colo, falando que ia colocar numa caixa no quarto e que quando amanhecesse íamos pensar no que fazer. Eu e Carol nos olhamos, sabíamos que o sonho da sua tia era ter um gatinho pra cuidar. Consentimos e formos nos deitar.

Na cama conversamos mais um pouco, sobre como seria ter um bicho de estimação. Eu dizia que se a tia dela cuidasse, não teria problema nenhum da gente ficar, até porque isso ia ajudar ela a ter mais coisas pra ocupar o dia. Carol pensava em como aquele bicho, entrando e saindo de casa poderia ser um perigo, que teríamos que telar a casa inteira. A conversa ainda se arrastou por alguns minutos, mas se encerrou comigo pegando no sono.

Na manhã seguinte, acordei um pouco mais tarde, já que não teria que trabalhar. Quando me dei conta que estava só no quarto comecei minha rotina matinal. Ao chegar na sala, Dona Roberta estava toda arrumada, com uma bolsa bem grande debaixo do braço, como se estivesse pronta pra sair pra um evento importante.

-A senhora vai sair?- Perguntei para atiçara a resposta, que veio prontamente.

-Oh meu filho, tem que me levar com urgência no veterinário, não tem nada pra esse menino comer, e ainda tem que ver a vacina dele.

-Deixe só eu tomar meu café, que eu levo a senhora.- Carol se animou, falou pra esperar ela se arrumar e organizar as coisas enquanto eu tomava café. Queria passar no mercado pra comprar umas coisas pra ela. 

Tomei meu café com calma, e aos poucos, fomos organizando tudo que pudéssemos precisar. Talvez a inexperiência tivesse muito presente, pois o tamanho da sacola da criança era grande demais, e por pouco faltou espaço para levar tudo.

Saímos quase umas dez da manhã, e fomos primeiro ao mercado. Segurava Alba no colo enquanto Carol ia organizando as coisas que ela queria dentro do carrinho. Dona Roberta decidiu ficar no carro, com todas as janelas abertas. Falava que ia ficar de olho no gatinho.

Fomo em zigue-zague pelos corredores, procurando as coisas que Carol dizia precisar. Acho que ela nem sabia  muito bem o que queria, pois ficava olhando todas as prateleiras, como se procurasse algo que não estava ali. Aos poucos as pequenas coisas se tornaram muitas, e parecia que ela estava achando que precisava de tudo. Era engraçado ver ela tentando explicar pra que era cada objeto, principalmente quando ela dizia "era isso aqui que eu estava procurando".

Passamos pelo corredor de bebidas, mas como tinha prometido que só ia beber quando ela também pudesse, acabei ignorando aquele local. Mas fui surpreendido quando ouvi meu nome:

-Ivan?- Aquela voz era familiar, familiar até demais. Exitei em me virar, mas Carol ja havia visto quem era, e me olhava com um olhar de apreensão. Ouvi meu nome mais duas vezes, até que decidi me virar para constatar o que eu já sabia.

-Oi Ricardo.

Houve um silêncio que ficou pairando no ar. Nossos olhos mal se cruzaram quando ele viu minha filha no colo. Era a primeira vez que via os olhos de Ricardo marejados, e mesmo me sentido estranho, não deixei transparecer. Ricardo olhava incrédulo, como se não fosse real. Perguntou olhando para Alba:

-É sua filha?

-É.

-Qual o nome dela?

-Alba.

-Ela ta com quantos meses?

-Sete.

Minhas respostas secas não assustavam Ricardo, e nem faziam ele olhar para mim. Carol colava seu corpo no meu, como se tentasse me proteger de tudo aquilo.

-Amor, vamos pagar? Minha Tia está muito tempo esperando.

-Vamos sim. 

Olhei para Ricardo, e apenas acenei com a cabeça. Fomos direto para o caixa, sem dizer uma palavra, sem olhar para trás.

Ao chegar no carro, organizei as compras em silêncio, ouvindo as reclamações de dona Roberta. Entramos no carro, ainda em silêncio. Dirigi tranquilamente até o veterinário. Dona Roberta entrou com ele, e eu fiquei com Carol no corredor. 

-Você está bem?- Perguntou Carol calmamente.

-Ainda não sei como estou. Nunca me passou pela cabeça reencontrar ninguém da minha família, principalmente agora. Eu realmente não sei o que sentir.

Carol me abraçava tentando me dar paz, e eu tentava a todo custo esquecer aquele momento no supermercado. 

Dona Roberta saiu toda contente de dentro do consultório. Cheia de papéis e o documento do gato. Olhando em volta viu as coisas que iria precisar para alimentar, cuida e brincar com aquele pequeno felino.

No carro, bateu a curiosidade:

-E aí dona Roberta, qual o nome do seu filho?

-Ah meu filho, vai ser uma homenagem ao meu falecido pai. 

-Então vai ser Alfredo?

-Alfredo não, Alfredinho.

Caímos na gargalhada. 

E pensar que nunca em minha vida havia pensado em ter um animal de estimação. 

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Capítulo 12

 Foram semanas ouvindo pequenos recortes, pequenas histórias fracionadas, como num diário que eu só poderia acessar uma página de cada vez, e quase sempre sem uma ordem definida. Puxei assunto novamente sobre o local para onde ela foi levada, ela me olhou, ficou com um ar pensativo, tentando achar as palavras certas, e disse:

-Me paga uma cerveja que eu termino de te contar minha história, mas sem tantas partes triste dessa vez, acho que já ficou sofrido demais da ultima.- Ela deu um sorrisinho, e continuamos trabalhando e falando outras coisas. Nesse dia, lembro que saímos mais tarde do que nosso horário, tentando dar conta do trabalho da semana, para tentar uma folga. 

Saímos, e fomos ao mesmo boteco que bebemos da ultima vez, mas ninguem topou nossa companhia. Depois do primeiro gole, Teresa solta:

- Olha, antes de continuar essa nossa conversa, quero deixar bem claro que entre eu e você vai ficar só na amizade tá? Você é gatinho, interessante, e até pensei na hipótese de te dar um beijinho, mas lembrei que temos os mesmos gostos, então acho que é isso, Tranquilo?- Eu fiquei sem responder por alguns segundos, pensando na melhor forma de dizer que estava tudo bem, e apesar de ter rolado um interesse no primeiro momento, eu estava achando que a amizade era maior.

-Tranquilo, acho que tinha sacado isso mesmo.

-Tá vendo só, um fofo. Mas deixa eu te contar o resto da história.

Viramos mais dois copos de cerveja de uma vez, e ela comecoou a me falar. Foram três anos longe de casa, até que a diretora da sua antiga escola apareceu para saber o que estava acontecendo. Foram horas de conversa, e ao final do período de visitas a diretora deu um livro de presente para Teresa, e falou que voltaria alí para ajudar no que fosse necessário. Foi quase um ano de visitas, conhecendo melhor Teresa e seus irmãos. No coração de Teresa morava a possibilidade de ser adotada, mas sabia que a diretora não tinha muitas condições e não poderia adotar a família inteira. 

Quase perto do Natal, uma mulher apareceu no abrigo, falando que precisava conversar com Teresa e seus irmãos. Ela se dirigiu até eles, que foram para uma sala separada para conversar. A notícia era que a mãe e o pai tinham sido assassinados por conta de dívidas de drogas, e que não havia outro parente vivo além daqueles que estavam alí. Teresa ficou em choque, e o choro tomou conta do ambiente.

Duas semanas se passaram e a Diretora da escola retornou com uma amiga, apresentou ela para teresa e seus irmãos. O olho da mulher brilhava, como se aquelas crianças representassem algo mais, mais do que simples objetos esquecidos pelo tempo. 

O tempo passava diferente naquele lugar, e mesmo com as novas visitas, Teresa não vislumbrava um futuro. Certo dia ouviu a amiga da diretora falando, "os três menores eu ainda consigo, mas a grandona não". Aquelas palavras atravessaram seu peito, e jogaram uma pá de cal em todo e qualquer sentimento bom que poderia morar dentro dela. Teresa disse que respirou fundo, foi até a mulher e pediu para que levasse os irmãos, ela já sabia se virar mas não queria o mesmo destino pra eles.

O processo de adoção foi rápido, e em poucos meses Teresa estava sozinha mais uma vez. Sem pai ou mãe, sem irmãos, sem amigos. O mundo havia virado as costas para ela. Naquele dia Teresa entrou eescondido na enfermaria e pegou uma cartela de remédios que sabia que era pra fazer as crianças dormirem, quando davam muito trabalho. Ela esperou todo mundo dormir e tirou do bolso aquela pequena cartela. Foram horas tentando criar coragem para tomar e acabar de uma vez com tudo. Teresa, de tanto pensar em partir, acabou dormindo. Na manhã seguinte acordou assustada, pensando que tinha tomado os remédios e que havia morrido. Foi tocando os braços e pernas, tocando o rosto e o cabelo, e em cada toque ela se sentia cada vez mais viva. Seu sorriso tomou conta do seu rosto, e ela resolveu mudar drasticamente.

Teresa nunca foi adotada, e as visitas pararam de chegar. Quando completou quinze anos, pediu para uma pessoa do abrigo lhe arranjar um emprego. Quando questionada, disse que podia ser no abrigo, ela podia fazer de tudo um pouco, mas que queria um salário que iria usar quando completasse dezoito anos. A diretora do abrigo perguntou:

-E se você for adotada? Como vamos explicar que estáva trabalhando aqui? Como vamos exolicar que você tem dinheiro porque trabalhava?

-Diretora, vamos fazer uma aposta. A senhora me paga um salário, mas ao invés de me dar o dinheiro a senhora deposita numa conta e me dá um comprovante. A gente assina um papel agora, que a senhora vai guardar, só por formalidade, e se alguem me adotar antes de eu completar os dezoito, a senhora fica com todo o dinheiiro. Combinado?

As duas apertaram as mãos, e isso foi feito, ou quase isso. Teresa trabalhava sempre que não tinha alguma atividade obrigatória, e recebia um valor específico para cada tarefa, que ficava guardado em uma conta. Teresa não tinha planos de ser adotada, e aos poucos foi sendo uma espécie de organizadora de tudo. Sabia o nome de cada criança, qualidades que ela mesmo inventava para apresentar as famílias, e quando perguntavam sobre ela, falava que fazia trabalho voluntário, que seu sonho era ser professora, ou algo assim. Foi assim que Teresa saiu com o bolso cheio de dinheiro, e amizades espalhadas por todos os lugares que passava. 

Quando saiu do abrigo a primeira coisa que fez foi alugar um quartinho mobiliado, e procurar emprego. Na verdade, aquele tinha sido o primeiro emprego real dela, e quando nos conhecemos, só fazia três meses que ela tinha saído do abrigo.

Eu fiquei incrédulo com toda aquela história, cheia de detalhes e reviravoltas. Teresa ria, mais prá lá do que pra cá. Ao pedir e finalizar a conta, Teresa virou pra mim e perguntou:

-Acho que moro longe, tem sofá na tua casa?

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Capítulo 11 (Teresa)

Estava no trabalho, e não tinha muita intimidade com as pessoas ainda. Era quase hora de fechar quando aquela garota entrou no escritório com uma pasta debaixo do braço. Tinha mais ou menos a minha altura, mas parecia mais alta, devido ao penteado volumoso, que dava a ela um ar moderno. Sua roupa larga escondia o corpo magro, e seu sorriso cativante chamou minha atenção. Era a primeira vez que via aquela pessoa por ali.

Ela veio na minha direção, e perguntou se eu sabia se estavam precisando de alguém pra trabalhar, falei que não sabia, mas que podia deixar o currículo comigo, que eu iria ajudar. Ela sorriu, entregando um papel com poucas informações. Agradeceu e partiu. Olhei no papel o seu nome, Teresa Maués.

Fui até o escritório de Alba, para colocar o papel encima da mesa. Assim que me virei ela entrou na sua sala, pegando o currículo e me perguntando:

-Indicação sua?

-É!- eu nem sei porque eu tinha respondido que era. Mas não podia voltar com a minha palavra- Morava perto da minha casa, uma pessoa bem calada e tranquila. 

Alba olhou pra mim e sorriu. 

Na semana seguinte estava arquivando um material, quando senti um abraço por trás.

-Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada!- Teresa estava usando uma roupa mais formal.- A senhora que me contratou me falou que você tinha me indicado, que era vizinha sua. Tua mentira me ajudou muito, ô te devendo uma. Inclusive, se quiser tomar uma cerveja, eu pago. Não hoje, porque eu ainda não recebi, mas se quiser pagar eu te devolvo depois. você que sabe.

Aquela garota não era nem um pouco calada, muito menos tranquila. Falava pelos cotovelos, me deixando perdido na maior parte do tempo. As vezes eu até queria falar alguma coisa, mas Teresa não deixava. Pra completar, Alba havia me designado pra ensinar um pouco de tudo que sabia, pois ela me ajudaria nas funções. Acho que era o ânimo que eu precisava, já que eu não parava de achar graça de ouvir suas histórias malucas, e nas confusões que ela se metia.

Depois do primeiro mês de trabalho, fomos eu, Teresa e Bia tomar uma cerveja. Bia tinha começado a namorar, e só falava deste bendito homem, eu e Teresa só balançávamos a cabeça. Depois da segunda cerveja, o namorado de Bia passou para levar ela dali, mal nos cumprimentou.

-Essa nossa amiga é até legal, mas esse escrotinho aí que ela arrumou, é de lascar.- Tinha que concordar, já que dividia da mesma opinião. Algumas cervejas depois, Teresa foi se abrindo mais, contando histórias mais intimas, falando do seu passado. Tudo aquilo ainda é fresco na minha memória, já que ao mesmo tempo que senti a dor que ela sentia, podia me alegrar com a forma como ela via a vida.

Teresa era a filha mais velha de quatro irmãos, e a única mulher. Ela cresceu na periferia da cidade, com sua mãe e seu pai, ambos usuários de drogas. Mesmo naquela situação muito difícil, ela falava que até os sete anos, as coisas não pareciam tão ruins como realmente eram. Na escola Teresa tinha facilidade em aprender, e sempre se destacava por ser a mais inteligente da turma. Quando foi chegando quase com dez anos, um professor mobilizou toda a escola, conseguindo roupas, tênis, alimento, e inúmeras besteiras que criaças gostam de comer. Nesse dia a diretora levou Teresa pra casa, e vendo a situação que ela vivia pensou em não entregar a criança, mas não teve outra opção.

Os olhos dos irmão de Teresa brilhavam com tantas coisas novas, mas foi só o carro partir que os pais decidiram que tudo aquilo ia ter outro destino. Falavam que aquilo ia dar um bom dinheiro, e que só iam ficar com o "grosso", o resto iam dar um jeito. Teresa falou que aquilo era dela, e que eles não poderiam fazer aquilo. O apelo foi em vão, e com a insistência de Teresa, pedindo para ficar com as coisas novas, seu pai lhe deu uma surra. Ela contava que chegou um momento que não sentia mais dor, e parecia que não estava mais ali.

Eu estava chocado com tamanha brutalidade. Mesmo apanhando inúmeras vezes na minha infância, e por motivos tão bobos, não conseguia imaginar aquela pessoa de sorriso tão largo e feliz ter passado por toda aquela situação.

Teresa parou de ir pra escola, demorando quase duas semanas para conseguir parar de sentir dor. Com seu desaparecimento repentino, a escola entrou em contato com o conselho tutelar e a polícia, que foram até o local e constataram a situação precária daquela família, com o agravante das drogas. A família teve que entregar as crianças, que foram levadas juntas para um abrigo.

Teresa falava como se aquilo não pertencesse mais a ela. Falava que de tudo que tinha em casa, ela só havia guardado uma única coisa que significava muito pra ela.

Ainda ficamos falando sobre o assunto, mas logo depois ela mudou de assunto repentinamente. No seu sorriso, havia muitas lembranças que ia descobrir aos poucos.







quinta-feira, 17 de abril de 2025

Capítulo 10

O dia brilhava diferente naquele dia 7 de agosto de 2020. O sol iluminava a vida, e todo amor que poderia caber no meu peito havia se multiplicado de uma maneira que não saberia explicar. Agora, nossa pequena Albinha, respirava o ar a nossa volta, e todo paz que havia em seus poucos quilos emanava pelo ambiente. Tudo lá fora se tornou pequeno diante da vastidão de alegria que morava em mim.

Carol, sonolenta pela noite de muito esforço, abria os olhos pesados, que logo depois se fechavam num sono tranquilo. As Horas se passavam e eu flutuava sem sono algum, sempre de prontidão para carregar nossa cria no colo. Pensava o quanto seria bom se eu pudesse alimentar aquele ser tão pequenino, mas já que não podia, ajudava o meu amor a descansar e se alimentar.

Pela parte da tarde, Carol já se agoniava para ir para casa, e mesmo eu querendo esperar um pouco mais, concordei que seria melhor ir para a nossa casa, estaríamos mais protegidos lá.

Todos meus amigos, e os amigos de Carol, já sabiam que Alba estava entre nós. A sua pequeneza, gerava gigante amor e carinho, entre aqueles que esperavam pelo seu nascimento. Já em casa, dona Roberta preparava tudo com fartura. Comida, carinho e zelo. Nossa casa, agora era um local de vida, e mal nenhum podia adentrá-la.

Cheguei a descansar um pouco no primeiro dia, mas acordava assustado com qualquer barulho. Foram vinte vezes, ou mais, levantando e indo ao berço só para ver se ela estava respirando. Carol ria de mim todas as vezes, e dizia que ela estava bem. Os choros me puxavam imediatamente para perto dela, e mesmo o parto tendo sido normal, eu queria que Carol tivesse todo o repouso possível. Vez ou outra ela brigava comigo, dizendo que estava boa das pernas e que não podia ficar o dia inteiro deitada, que não estava doente. Como ficava o dia em casa, achava que poderia fazer todas as coisas possíveis para agradar. Frutas cortadas, pão caseiro, caldos para os dias frios, e todas as delícias que eu olhava na internet. Engordar foi inevitável.

Passamos o primeiro mês isolados, e no segundo começamos a organizar visitas semanais. Mesmo as pessoas insistindo que queriam carregar Alba no colo, a minha cara de pai mau assustava, e logo desistiam. Arregalava os olhos, e ficava com os dentes cerrados, e mesmo sendo involuntário, minha cara não ficava nada convidativa. Mesmo quando foram meus amigos, tive a mesma reação. 

Teresa foi a ultima a visitar. Mesmo sem carregar no colo, seus olhos abraçavam e ninavam nosso fruto, que adormeceu ouvindo sua voz contando histórias bobas. Na saída, Teresa me entregou uma caixa quadrada, e falou que queria que eu guardasse para Albinha. Dentro dela um sapatinho de crochê, verde claro, e com um cadarço de seda. No bilhetinho estava escrito: "essa é a única lembrança que tenho da minha infância, e agora ela vai poder continuar a caminhada que comecei a muito tempo atrás, mas dessa vez com um caminho mais feliz". Minha fama de chorão se confirmava naquele momento.

Demos uma pausa nas visitas. Ainda não era seguro encher a casa de pessoas, e não podíamos arriscar, principalmente agora.

No início de novembro, catalogamos todos os produtos do bazar, e abrimos um site de vendas, com páginas nas redes sociais. Carol fotografava tudo com atenção, escrevendo detalhes sobre os produtos que tínhamos disponíveis. A ajuda dos amigos foi super importante, alavancando as vendas, e animando a recente mamãe. Foi um mês animado, e nossa clientela agora era nacional. Aos poucos fomos diversificando nossos produtos, e melhorando nossas propostas. 

Era uma segunda feira preguiçosa, quando acordei e vi que ninguém estava no quarto. Acordei e chamei por Carol, que não respondeu. Ouvia Alba balbuciando alguma coisa na sala, animada e barulhenta. Levantei e fui ao banheiro jogar uma água na cara, como fazia habitualmente. No espelho do banheiro, escrito em batom escuro “vem pra sala”.

Chegando lá, vi balões verdes pendurados em todos os lugares, divididos em pares. 

-Feliz aniversário papai!- Carol vestiu nossa filha com uma roupinha toda colorida, como um pequeno arco-íris. havia visto ela costurando com uma máquina antiga, que estava guardada no meu apartamento, mas não fazia ideia do que poderia ser.

Corri pra abraçar as duas, quando percebi que o notebook estava aberto, e todos os meus amigos estavam numa chamada de vídeo. Era minha primeira festa de aniversário, com direito a bolo e parabéns, que hora ou outra saía do ritmo por conta do atraso do áudio no computador. 

Não havia dúvidas que a sorte tinha me encontrado.


quarta-feira, 16 de abril de 2025

Capítulo 9

 

Estávamos entrando no nono mês de gestação, o último daquela nossa longa jornada de espera, e a barriga de Carol estava enorme, tão grande quanto nosso amor que crescia dentro dela. Decidimos, logo no começo da gestação que não saberíamos o sexo do bebê antes do nascimento, e que escolheríamos o nome só depois. Nem eu, nem Carol éramos católicos, portanto não haveria batizado na igreja, deixando em aberto os cargos de padrinho e madrinha.

Ao ser avisada sobre o assunto, dona Roberta quase teve um treco. Falava que aquilo era um ultrage com as tradições familiares, e que a criança não poderia crescer pagã. Seus discursos eram longos e espalhafatosos, o que dava um toque caricato e humorístico a reclamação. Ficávamos sérios enquanto ela falava, principalmente para ela não se sentir desrespeitada, mas era só ela se afastar que Carol começava a imitar a tia, balançando os braços e sacudindo o corpinho redondo. O adicional de uma barriga imensa, era o que deixava tudo mais engraçado na imitação. 

A chuva começava a engrossar lá fora, e aquele clima convidou todos de casa a se deitar mais cedo. Antes das dez já estávamos todos dormindo. Acordei de madrugada com Carol me chamando:

-Amor, acorda! Acorda! Acho que a bolsa estourou.

Estava antes da data prevista pro parto, e ainda cogitei que fosse apenas um susto, mas a bolsa realmente havia estourado, o que me fez dar um pulo da cama, pedindo que ela ficasse calma. Carol passou a noite com dor, sem me contar nada. Achou que pudesse ser engano, já que faltava ainda uns treze dias para a data do parto. As dores foram aumentando, enquanto ela me deixava dormir, me chamando na ultima hora.

Eu estava um poço de nervosismo, andando pra lá e pra cá, procurando uma roupa para me vestir, e indo conferir para que não esquecêssemos nada. As Bolsas e mochilas já estavam no porta-malas do carro, embaladas com plástico filme para não pegar sujeira. Carol pediu para que eu ajudasse ela a trocar de roupa, colocando um vestido que ela havia comprado para a ocasião. 

Avisamos dona Roberta, que ficou assustada com a data fora do previsto, mas ficou em oração para dar tudo certo. A chuva lá fora era intensa, com ventos fortes, deixando a visão dentro do carro completamente embaçada. Sai com o carro pela contramão, para pegar logo a outra rua. Naquele horário não havia problema, já que estava tudo vazio e silencioso. Ficava atento em cada cruzamento, já que os sinais só piscavam na luz amarela, fazendo com que eu tivesse que triplicar minha atenção na via.

Carol estava sentindo muita dor, apertando meu braço com força e gemendo alto ao meu lado. A cada apertão eu tentava acelerar mais o carro, mas era frustrado por algum cruzamento, ou por um carro ou outro que atravessava a minha frente. Por sorte, morávamos no centro da cidade, próximo de onde ficava o hospital.

Ao chegar próximo ao destinho, fui jogando o carro pra cima da calçada, entrando no setor emergencial do hospital. Parei o carro bruscamente, o que fez Carol dar um berro de dor. A equipe médica veio correndo rapidamente, e por se tratar de um hospital particular, o atendimento foi instantâneo. Correram com ela para dentro da sala, enquanto eu assinava uma pilha de papéis, que nem saberia dizer para que serviam. 

Passado uns quize minutos, o enfermeiro veio me chamar, perguntando se ia participar do parto, acenei que sim, e fui levado para uma salinha para me limpar, e colocar uma roupa especial. Ao entrar na sala, no meio daquela pequena multidão, Carol me reconheceu na hora, e tentou esboçar um pequeno sorriso, mas foi logo tomada por outra contração. 

O parto estava demorando mais do que eu imaginava. Logo eu, acostumado a assistir tantos filmes, onde tudo passava em um passe de mágicas, me vi alí na vida real, onde tudo era bem diferente, e por mais que tivéssemos feitos vários cursos para nos preparar naquele momento, eu só conseguia pensar em respirar calmamente e dar todo suporte que Carol precisava. Os minutos se passavam rapidamente, e toda a equipe presente auxiliava de alguma forma. 

-Tá chegando!- a médica gritava para a equipe, que se preparava para o momento principal da noite.

O silencio se fez presente assim que Carol deu uma respiração profunda, cortado imediatamente pelo choro estridente que se seguia logo após.

A médica rapidamente envolveu aquele bebê num pano, entregando para a mãe. Não conseguíamos conter o sorriso ao ver aquela criaturinha tão pequena, tão linda e perfeita, que assim que encontrou o seio de Caro, parou de chorar. Ao ouvir minha voz, aqueles pequeninos olhinhos se abriram, como se procurassem por mim. A equipe a nossa volta ainda trabalhava, cortando o cordão umbilical e organizando tudo ao nosso redor. Carol abriu o pano que envolvia nossa filha. Sim, era uma menina que chegava em nossas vidas. 

Carol tirou ela do peito, e me deu para segurar, disse baixinho ao me entregar:

-Segura tua filha Amor! Nossa pequena Alba.



terça-feira, 15 de abril de 2025

Capitulo 8

Ao mesmo tempo que tudo parecia mágico, a preocupação tomava conta de mim. O que iríamos fazer? Em qual casa iríamos morar juntos? E a tia dela? Todas essas preocupações que pareciam minimamente razoáveis de se pensar, logo em breve, ganhariam uma dimensão ainda maior. Estávamos saindo de 2019, e não fazíamos ideia do que iria acontecer nos meses seguintes. Nossos sonhos estavam mais vivos do que nunca, porém, nossas vidas estavam prestes a tomar um rumo inesperado. 

O mês de Janeiro foi passando tranquilamente, apesar do trabalho puxado e da constante preocupação com a paternidade presente, a vida ia se desenhando aos poucos, de maneira clara e suave. Aos poucos procurávamos na internet os preços das coisas para nosso bebê. Fraldas, carrinho, berço, roupas. Nosso universo se resumia em sonhar com um futuro, sem deixar de viver o presente.

No trabalho, meus amigos organizaram um chá de fraldas com todos da firma; foi uma surpresa quando Carol me viu chegando em casa com mais de trinta pacotes de fraldas. O nosso apartamento começava a ficar pequeno para a nossa futura família, mas mesmo com a chegada de uma criança, eu não pensava em me mudar dali; tentava pensar pouco no assunto, e Carol também não falava nada sobre o tema.

Apesar dos constantes enjoos, nós fomos em alguns bloquinhos de carnaval de rua. Parecia que a nossa necessidade de sair para pegar um ar era um prelúdio do sufocamento social que se aproximava.

Lembro de ir para o trabalho, logo após o período carnavalesco, e ouvir um burburinho vindo da copa. Um colega falava sobre uma doença que estava se espalhando pela Ásia e Europa, e que ameaçava crescer ainda mais, se alastrando por outros países. Assim que cheguei em casa comentei o assunto com Carol, que no mesmo dia ainda parou para olhar as notícias no computador, mas que ficou por isso mesmo.

Logo no início do mês de março, percebemos que a barriga estava crescendo mais rápido, dando um charme a mais para a mamãe mais linda que já tinha visto na minha vida. Não sei se era possível Carol ficar ainda mais bonita do que ela já era, mas era algo que acontecia diante dos meus olhos, e me fazia me apaixonar ainda mais por aquela mulher. Não havia um dia que chegassem em casa que eu não corresse para ver se a barriga já havia crescido mais um pouquinho, era uma ansiedade gostosa de sentir.

A semana correu tranquila, e nada parecia muito fora do comum na nossa cidade, apesar de já sabermos que a doença já havia chegado no Brasil, achamos que poderia se algo que fosse contido logo., não tínhamos a real dimensão do problema. Cheguei em casa mais cedo do que de costume nesse dia, e Carol estava sentada na sala me esperando. Algo estava diferente, ela parecia aflita demais. Lembro como se fosse hoje, era dia 12 de março de 2020, e o jornal falava sobre Brasília.

-Amor. Tem alguma coisa muito errada- Carol dividia o olhar entre a televisão e eu. 

-O que está acontecendo?

-Brasília fechou tudo por causa dessa doença, ela está se espalhando muito rápido. Chegou com tudo aqui.

-Tem certeza amor?

-Tenho sim. Estou com medo do que vai acontecer. O que a gente vai fazer?

Desliguei a televisão e abracei Carol. Ela segurava a barriga, passando a mão de um lado pra outro. Foi aí que eu percebi que a sua preocupação era ainda maior, era por nosso bebê que ela se afligia daquela maneira. A conversa foi longa, e decidimos morar na casa de sua tia caso tudo ficasse pior. Nosso plano era fechar o apartamento, desligar tudo e voltar de vez em quando para limpar a poeira.

A preocupação tomava conta de todos a nossa volta. A empresa, que sua sede no Canadá, decretou o encerramento momentâneo de suas ações presenciais. E apesar de o nosso pagamento continuar sendo depositado, a tensão de possíveis desligamentos era presente. A promessa era retomar o trabalho, assim que as coisas melhorassem.

O clima de medo só aumentava. Foi necessário fechar o bazar, e adiantarmos nossa mudança. Lembro que tive que fazer várias viagens entre as casas, para levar as coisas mais pesadas. Carol tentava ajudar carregando os objetos menores e mais leves. Foi uma semana inteira para conseguir arrumar tudo do nosso jeitinho. 

Dona Roberta estava preocupada com a movimentação repentina, mas, ainda assim, ajudou a arrumar o quarto do bebê. Deixou tudo perfeitamente arrumado, como só uma avó dedicada saberia fazer. Apesar de toda a preocupação de nossa família e amigos, deu tudo certo.

Passada a primeira semana de "folga" a empresa instaurou home-office, liberando computadores, impressoras, cadeiras e tono material necessário para o nosso trabalho. Marcamos os cinco amigos no mesmo dia, para que pudéssemos matar um pouco da saudade. Mesmo não sendo ainda muito comum, todos fomos de máscaras, entrando um de cada vez no escritório. Tínhamos que assinar uma papelada imensa, declarando item por item que estávamos retirando do local. Após todas as burocracias necessárias, nos reunimos no estacionamento para conversar um pouco. Queríamos nos abraçar, mas nos despedimos com um tchau de longe e os olhos tristes.

Quando retornei, Carol estava de máscara segurando uma mangueira, e ao seu lado estavam uma caixa de papelão vazia, e um saco preto. Ela empurrou a caixa para que eu colocasse meu material dentro, e logo depois mandou eu ficar só de cueca, e colocar minhas roupas dentro do saco preto. Depois de praticamente nu, recebi um banho gelado de mangueira, tendo que me esfregar bem. Mesmo com as risadas de minha parte, Carol se mantinha séria dizendo: "esfrega bem a mão", ou "eu ainda não vi você lavar direito o rosto". Era a primeira vez que tomava banho no quintal.

Depois de um banho reforçado, e Carol constatar que eu realmente estava limpo, é que ganhei um abraço apertado. Naquele abraço morava muita preocupação, mas acima disso, morava o cuidado que só existe quando se ama alguém. Eram tempos sombrios, e não sabíamos quando tudo melhoraria.

Em maio, tudo piorou ainda mais. Em nossa cidade o Lockdonw foi instaurado,e todas nossas esperanças ficaram diminutas. As perdas eram cada vez maiores, e nosso coração ia ficando pequeno, não conseguíamos suportar tanta dor. Paulo foi o primeiro de nosso grupo a trazer notícias ruins. Seus pais, já bem idosos, foram internados as pressas, e pouco tempo depois eles partiram. Paulo nos contou que a diferença na hora da morte foram apenas quinze minutos. O casal que vivia juntos em vida, escolhera partir juntos também, era claro para nós que um não viveria sem o outro.

Por conta das novas regras, não pudemos ir ao enterro, que ocorreu rapidamente. Mesmo com a distância nosso grupo permaneceu se comunicando diariamente pelo computador. Depois desse episódio, fazíamos chamadas de vídeos por horas, principalmente na hora do trabalho. Se éramos unidos antes disso tudo acontecer, continuaríamos mais unidos ainda naquele momento.

Na empresa, algumas perdas também foram acontecendo, principalmente entre os mais velhos. Toda semana era um choque diferente, uma internação que não acabava mais, e por fim, mais mortes. Durante esse processo, eu e Bia subimos de cargo. Foi necessário muita dedicação, e ajuda constante um do outro para conseguirmos dar conta de tanto trabalho. Mesmo recebendo mais, não conseguimos ficar felizes com a situação.

No meio da semana, o susto. Teresa foi internada as pressas no hospital. A falta de ar e as constantes dores no peito evoluíram rapidamente, e nosso grupo ficou extremamente abalado. Paulo se prontificou a ajudar, indo diariamente ao hospital, e se apresentando como namorado dela. Durante os próximos quinze dias, os boletins eram constates, e cada vez que o telefone vibrava, nosso coração só faltava sair pela boca.

Foi lá pela madrugada que recebi a ligação de Paulo. O telefone vibrando forte, acabou acordando Carol, que me chamou para atender. Minha mão tremia gelada, e o nó na garganta se formava.

-Oi Paulo. O que aconteceu?

- Oi feioso, eu tô viva!

Dei um pulo de alegria. Teresa estava bem e já já ia sair do hospital. Paulo contou que fez amizade com um enfermeiro, que estava dando notícias constantes sobre nossa amiga. Quando melhorou levou o telefone escondido pra poder me ligar. Aquilo foi um sinal de esperança, que dizia que nem tudo estava perdido.

Paulo ia cuidar dela dali pra frente, e poderíamos ficar mais tranquilos com os dois morando, temporariamente na mesma casa.

Mesmo relutante, Carol foi comigo em uma reunião clandestina com os amigos. Nos reunímos na casa de Ronaldo. Era possível ver os olhos marejados de todos. Ronaldo organizou tudo, colocando cadeiras no pátio de sua casa, divididas em duplas, uma bem longe da outra. Eu e Carol, Ronaldo e Bia e Paulo e Teresa, sendo os dois últimos os únicos que não formavam um casal. 

Conversamos durante a tarde inteira, e lá pelo começo da noite voltamos para casa. Era bom demais saber que todos estávamos vivos.


segunda-feira, 14 de abril de 2025

Capítulo 7

Foram semanas que se passaram, e as coisas voltaram a entrar em um caminho tranquilo. No trabalho, nossa equipe conseguiu bater as metas do mês, e tivemos um bom adicional em nossas contas. Estávamos felizes e tranquilos, o que era algo bom, mas que me deixava apreensivo com o que poderia acontecer. Carol insistia para que eu buscasse um psicólogo, para conversar coisas mais profundas e que poderia me trazer mais paz do que eu já estava tendo. Aceitei a sugestão de bom grado, e começaram as longas seções de desabafo e choro.

Me senti estranho no começo, mas depois de um semestre, as consultas ficaram mais leves, o que me ajudou muito com a situação familiar. Foram necessárias muitas sessões para que eu realmente entendesse que nem sempre podemos esperar o melhor do outro, e mesmo eu sabendo disso, ouvir da boca de outra pessoa fez com que meus sentimentos tomassem corpo. Cheguei a levar meus diários pras consultas, o que me deixava extremamente aflito, mas ajudou muito no meu desenvolvimento. Era bom demais estar vivo.

Uma das tarefas que o psicólogo passou para que eu pudesse exercitar minha mente, era arrumar algo que eu achasse interessante. Passei semanas fazendo oficinas de teatro, desenho, pintura e outras mais, mas o que me chamou muita atenção foi o clube do livro, que me trouxe ao mundo das leituras. Nunca havia parado pra pensar em participar de algum, achava a leitura um exercício de introspecção, só eu e o autor. A partir da primeira leitura discutida vi que não era bem assim, e que debater coletivamente sobre o livro me ajudava a olhar tudo de uma nova perspectiva.

Ao final do ano, já havia lido mais de quinze livros, de diferentes autores. Tentei arrastar meus amigos comigo, mas só Carol topou ir. Ficávamos falando horas e horas sobre o que havíamos lido, discordando do que o autor queria dizer, e tentando convencer o outro de que estávamos certos. No final a gente abandonava as certezas, e fingíamos estar convencidos de que a opinião do outro era a correta. 

Faltando alguns dias para chegar o Natal, Carol falou que queria fazer uma ceia na casa dela, e que estava preparando uma surpresa. A maioria dos meus amigos ia estar com a família na véspera, então resolvemos marcar um encontro no dia 25, na hora doa almoço, para fazer um amigo invisível. Todos toparam.

Organizamos tudo que havia para organizar para a nossa ceia de três pessoas, e trocamos presentes um com os outros. Para Carol eu dei um vestido, parecido com aquele que havia visto ela usando quando mandou a primeira mensagem pra mi. Para Roberta, sua tia, dei um perfume, mas que Carol mesmo havia escolhido, e dela também ganhei um perfume igual ao que eu usava diariamente, achei fofo, pois sabia quem tinha escolhido aquele presente. Carol me chamou num canto, e me entregou meu presente. Era o livro Torto Arado, de Itamar Vieira. Fiquei super feliz com o presente, pois já estava na minha lista.

No dia Seguinte, reorganizamos a casa para receber os amigos. Chegaram quase todos ao mesmo tempo, menos Teresa, que havia chegado quase na hora do café da manhã, com uma bandeja de rabanada e um vinho de mesa. Depois de todos almoçarem, começamos as brincadeiras. Roberta não quis participar, e foi deitar no seu quarto para assistir as suas novelas. No quintal, eu comecei falando:

-Meu amigo invisível é alguém muito simpático. Gosta muito de namorar e é metido a galã de novela.

-É o namorado da Bia- gritou Teresa no meio de todo mundo. Ficou um silêncio constrangedor, até que todos riram e Ronaldo se posicionou.

-Bem... Acho que todos sabem que a Bia não está mais namorando. E eu sou uma pessoa solteira...- A cara de Bia ficava cada vez mais vermelha, conforme Ronaldo ia desvelando o que todos já sabiam. Surpreendentemente Bia interrompeu a fala, dizendo:

-Todo mundo já sabe que a gente ta namorando faz tempo, bora pular logo essa parte.- foi uma risada geral, e entre abraços e parabéns continuamos a brincadeira.

Na sequência Ronaldo pulou sua vez, falando que tinha que ser o último, e mesmo eu insistindo para que fosse na ordem, todos me ignoraram. Comecei a notar que todos me olhavam como se soubessem de algo que eu ainda não sabia o que era. Mas achei que poderia ser só uma coisa da minha cabeça e continuamos a brincadeira. Quase no final, Ronaldo chama sua amiga invisível, era Carol.

-Bem, acho que está obvio que meu amigo invisível é o Ivan, mas antes de entregar o presente eu quero chamar minha tia para participar.- Carol saiu depressa e voltou com Roberta. Logo após retomou a falar.

-Pois bem. Não é todo dia que você vê um moreno não tão alto, mas muito bonito e sensual entrando pela porta da sua loja. E tenho que dizer que eu já tinha visto ele logo quando a mudança chegou, então quero confessar que foi tudo de caso pensado.- Todos me olhavam ansiosos naquele momento, rindo das gracinhas de Carol.

-Continuando... Meu amigo visível, é alguém que amo muito, e que ao longo desse ano me fez perceber que a vida nem sempre é fácil, mas quando você acha a pessoa certa para estar ao seu lado, tudo pode ser superado. E é por isso que tive que reunir nossa família e amigos aqui hoje, porque seu presente é algo que eu não soube escolher sozinha, e mesmo você não sabendo, me ajudou muito a escolher. Aqui está.

A caixinha era pequena e leve, toda dourada e brilhosa por fora. No meio havia uma fita larga amarrando suavemente a caixa, com um bilhetinho por fora, que dizia: “para nosso amor crescer”. Acho que foi o nervosismo que fez aqueles poucos segundos se esticarem por uma eternidade, fazendo com que abrisse quase em câmera lenta aquela caixa. 

Ao abrir, a confirmação. Dois traços pequeninos confirmavam minhas desconfianças. O rosa claro do objeto minúsculo de plástico brilhavam em meus olhos, e fazia com que meu coração palpitasse de alegria. Na minha cabeça, a vida corria num filme alegre, cheio de cores e alegrias. Minha vida ganharia uma nova personagem, pequena e chorona, que em nove meses iria me fazer sorrir e chorar de alegria. Carol estava grávida, e aquele pequeno teste me fazia pular de tanta felicidade.

Dessa vez eu não era o único chorão entre aqueles que estavam a minha volta, Teresa gritava que iria ser titia, e todos meus amigos nos abraçavam, desejando felicidades. Dona Roberta estava emocionada, e abraçava a sobrinha com toda força. A festa tinha acabado de ganhar mais alegria, e as comemorações entraram pela noite. Naquele momento eu decidi também parar de vez de fumar, queria viver mais, viver bem, queria ver aquele bebê crescendo e me chamando de pai. Eu não cansava de repetir para mim, o quanto era bom estar vivo.