domingo, 13 de abril de 2025

Capítulo 6

Acordei cedo no sábado. Deixei Carol na cama, e fui preparar o café da manhã, mas não demorou muito para que eu sentisse seu abraço quente me envolvendo por completo. Conversávamos sobre os preços de passagens aéreas, queríamos fazer algo fora da cidade, mas ainda não sabíamos o que era. Foi entre um sonho e outro que vi a mensagem do meu irmão, avisando que havia chegado e que queria meu endereço para fazer uma visita, mas respondi dizendo que iria encontrá-lo no seu apartamento. Acabamos nos encontrando no café da esquina da sua casa. Por mais que tivéssemos passado nossa infância convivendo na mesma casa, não vivianos a mesma vida, nem frequentávamos os mesmos espaços, era como se houvesse uma força invisível que nos separasse.

Ajudei Carol abrir o bazar. Ela me apoiava com palavras doces e firmes, e me encorajava viver aquele momento. Dizia que estaria ali aguardando meu retorno, e que não importava o que iria acontecer nós iríamos superar. Apesar de pouquíssimo tempo juntos, nossa ligação parecia existir a vidas e vidas passadas. Nos despedimos com um beijinho, e eu segui para o carro.

Segui de maneira lenta durante todo o caminho. não tinha pressa alguma de chegar. Olhava tudo a minha volta, como uma criança que vê tudo pela primeira vez.

Estacionei o carro a duas quadras de distância, acendi um cigarro e fui caminhando em direção ao encontro. Na minha cabeça passavam uma infinidade de histórias, lembranças de uma vida que eu queria deixar pra trás, mas que de alguma forma me perseguia e me mandava mensagens dizendo estar com saudades. Em meio a tantas conversas com Alba ela sempre me dizia que era necessário cuidar das feridas do passado, para que elas pudessem cicatrizar, ignorar só ia fazer com que aquele machucado inflamasse e me consumisse de dentro pra fora. Era bem didática a forma como ela falava da dor.

Vi Ricardo de longe, ele acenava pra mim enquanto eu atravessava a rua. Estava mais magro do que de costume, e sua barba por fazer demonstrava uma pessoa diferente daquela que conheci um dia. Caminhei até ele, que me abraçou como nunca havia feito antes. A falta de costumes de gestos amigáveis entre nós, fez com que eu nem me movesse. Não sentia nada. Não sentia tristeza, nem felicidade, nem agonia, era só um toque vazio de alguém que não tive a oportunidade de conhecer.

-Olha só pra você meu irmão, você está tão bem. Senta. Pode pedir o que quiser, eu pago.

-Já comi antes de vir, mas aceito um café.- Era estranha aquela sensação de sentar com ele na minha frente. Parecia que outra pessoa estava usando aquele rosto conhecido, e aquilo tudo não passava de uma armação.

-Ivan, eu estava precisando muito te ver. Acho que você já sabe que eu não estou mais noivo né?

-Soube quando tentava ligar pra você. Acabei ligando pra Ana sem saber, mas ela fez questão de deixar essa situação bem clara.

-Pra você ver como são as coisas da vida. Um casamento tão bom e duradouro acabar assim

-Tecnicamente vocês não eram casados. Você pediu ela em casamento faz décadas e nunca casou de verdade.- assim que aquelas palavras saíram da minha boca, pude ver que Ricardo ficou levemente desconfortável, e o riso amarelo deu lugar a um semblante mais pesado.

-Enfim irmão, coisas da vida. Entrei em contato com você por outro motivo, chegou o momento da gente voltar a ser uma família, voltar a ser irmãos. Nossa mãe ia ficar feliz se nós fossemos fazer uma visita pra ela, e…

-Tá maluco Ricardo? a gente nunca foi uma família, nós dois nunca fomos irmãos. E outra, eu só aceitei esse teu convite aqui porque fiquei preocupado com aquela tua mensagem, pensei que tu estava morrendo ou algo assim. Fazer um favor pra você é uma coisa, faço até pra um estranho, mas esse teu papo de família feliz ai, não cola comigo não.

-Calma Ivan, não te chamei pra brigar, pelo contrário. Te chamei aqui porque acho que nós podemos fazer diferente agora. Poxa! Tu ta aí, com dinheiro na conta, casa boa, podíamos voltar a morar juntos. Nós dois, tentar reatar esses laços, o que acha?

-Acho que tu estás completamente maluco se tu acha que existe a menor possibilidade disso acontecer. Eu bem que achei que tu realmente estava querendo se aproximar de mim porque estava com remorso, por ter sido tão escroto como nossa mãe e nosso pai foram pra mim, mas o que tu quer é dinheiro.

-Porra maninho, tu ta aí na boa. Podia partilhar o pão, a gente é sangue do mesmo sangue. A gente....- Antes que ele pudesse terminar a frase eu levantei da mesa e fui em direção do carro. Não olhei pra trás, ou mesmo falei alguma coisa pra encerrar a conversa. Eu me sentia usado, sujo, como se tivesse caído no meio de um lixo podre e estivesse contaminado. Dirigi em direção a orla da cidade. Passava entre os carros em zigue-zague, acelerando nos sinais amarelos para não ter que parar. Houve momentos que minha vontade era acelerar ao máximo e bater com toda a força do mundo em um poste, seria o fim de toda aquela agonia.

Fui reduzindo a velocidade aos poucos, e respirando fundo para me acalmar. Minha cabeça não conseguia pensar em nada, era apenas um vazio raivoso que me fazia tremer e suar aos montes. Finalmente cheguei. Olhei em volta, tentando ver se havia alguém próximo, mas ao perceber que estava só, todo aquele ódio e rancor que estavam dentro de mim se transformaram lágrimas. Sentia raiva de tudo que tinha escutado, sentia raiva de ser usado, sentia raiva do sorriso malicioso de Ricardo dizendo aquelas palavras. Por que eu? Por que tinha que passar por tudo aquilo? Aquelas perguntas não saíam da minha cabeça, e quanto mais eu me questionava, mais eu ficava perdido. 

Voltei para o carro. Sentei com calma em frente ao volante. Carol havia colocado um pendrive com suas músicas favoritas pra eu escutar. Ao ligar o som, a voz melodiosa de Maria Bethânia me acertou em cheio. O verso “eu sou fera ferida, de corpo, de alma e de coração” que ecoava em minha cabeça, me fazia querer gritar a plenos pulmões, e foi exatamente o que fiz em cada refrão da música. Enquanto cantava, um grupo de senhoras passou e olhou em minha direção, mas não foi o suficiente para me intimidar. Talvez tenham ficado com receio de chegar perto, ou tenham achado que estava precisando colocar tudo aquilo pra fora.

Ao chegar no bazar encontrei Carol na frente, como se estivesse esperando eu chegar para saber de tudo. Antes mesmo que eu pudesse abrir a boca e falar alguma coisa ela me abraço, e mesmo com seus braços pequenos, eu me sentia envolto em paz. No meu ouvido ela sussurrava que estava tudo bem, e que não precisava dizer nada, já tinha acabado. Eu voltei a pensar em felicidade.

Passei o resto da manhã no bazar ajudando com os clientes, que entravam aos montes. Era dia de evento e todos os meus amigos estavam ali comprando e ajudando. Eu olhava aquele movimento todos, os sorrisos de Paulo, as histórias engraçadas de Ronaldo e Bia, as piadas imorais de Teresa. Estava ali a minha família. Pensei em falar tudo que tinha acontecido naquela manhã, mas de alguma forma eles já pareciam saber de tudo, sem eu ter que falar nada. Depois de todo o trabalho fomos pra minha casa almoçar. Música alta, cerveja, risadas e muita alegria.

Ao final do dia todos me ajudaram a arrumar a bagunça e se foram, cada um para a sua casa. Teresa, que já tinha seu lugar cativo em casa, resolveu aproveitar a carona de carro. Ao final de tudo, ficaram apenas eu e Carol, que resolvemos deitar no tapete da casa e ficar de conversa fiada.

-Sei que as coisas não foram boas só de olhar pra você.

-É, realmente foi tudo um desastre. Era melhor eu nem ter ido lá.

-Acho que não. Acho que não foi um desastre. Você deveria ir lá sim, e foi! Você fez sua parte, e agiu com o coração aberto! Agora você tem que cuidar dessa ferida, e deixar cicatrizar. - Aquelas palavras me pegaram de jeito, já tinha ouvido elas antes. 

Meu coração acelerou novamente, e fez todo meu corpo esquentar. Me sentei repentinamente.

-Você está se sentindo bem?- Perguntou Carol, me olhando com os olhos espantados.

-Carol, eu passei por muitas coisas nessa vida, e a maioria delas não foi tão boa assim. Na verdade, eu passei por coisas muito ruim, e cheguei a pensar que minha inteira ia ser desse jeito, até eu conhecer a Alba. Foram anos de amizade, até eu misteriosamente estar aqui, deitado nesse lugar do teu lado, vivendo todas essas coisas que eu nunca imaginei viver- Olhava nos olhos de Carol o reflexo de algo que me convidava a morar. Sentia como se cada palavra que saísse da minha boca tivesse retirando de mim todo o peso da dor e da agonia. Era ali que eu precisava estar, era com ela que eu queria dividir cada momento da minha vida, e era essa a decisão que eu iria tomar:

-Eu não quero que minha vida daqui pra frente seja da maneira que foi no passado. Eu não quero que minhas escolhas sejam perdidas e sem sentido. Eu não quero viver triste pelos cantos, achando que eu não sou merecedor de amor. E eu não quero passar nem mais um dia da minha vida sem saber que a mulher que eu amo não está ao meu lado. E é por isso que eu quero saber uma coisa. Carolina Muniz, você quer namorar comigo?

Os olhos de Carol se encheram de lágrimas, que foram descendo devagarinho pelas suas têmporas, até se misturarem ao cabelo espalhado no chão. O sorriso que estava em seu rosto era tão grande quanto o meu ao receber sua mensagem pela primeira vez. Era como se toda felicidade que eu tivesse guardada dentro de mim tomasse forma naquela mulher. Ela sentou calmamente ao meu lado, mordendo os lábios inferiores e me olhando no fundo dos meu olhos. Me beijou com vontade, respirando fundo durante o beijo. Segurou minhas mãos e disse:

-Eu posso não saber de nada do que ainda vai acontecer na minha vida, mas eu não vejo outra possibilidade de enfrentar essas incertezas se não for do teu lado. E mesmo já te considerando meu namorado desde o dia que te mandei a mensagem, eu aceito de coração aberto.

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