quinta-feira, 24 de abril de 2025

Capítulo 15

 Desde o encontro com meu irmão que eu não conseguia dormir direito. Mesmo com a conversa que tive com Carol, nada me tirava que aquilo alí não era uma boa ideia, mas eu não tinha como prever, não tinha como ter certeza, teria que pagar pra ver.

Nessa semana que seguiu a minha cabeça ficou atribulada, e os pensamentos do passado começaram a ganhar mais espaço na minha cabeça. Lembrei da primeira vez que fugi de casa. Tinha pouco mais de 13 anos quando resolvi que poderia viver fora daquele hospício, que poderia ter uma vida boa longe dali. Chamei meu amigo da rua, Flávio, mas todo mundo chamava ele de cabeça-de-caixa-dágua:

-Ei cabeça, chega aqui!- Flávio veio na minha direção, balançando os braços compridos. na mão ele carregava uma garrafa plástica pequena, cheia de cola. A bermuda maior que ele, caia o tempo todo, fazendo com que ele ficasse eternamente puxando ela pra cima. Cabeça era tão magro, que era possível contar suas costelas de longe. Era uma visão bizarra, mas eu já estava acostumado.

-Qual foi moleque? 

-Tô precisando de um favor teu. Quero sair fora de casa, e preciso de um lugar pra ficar, tu não sabe quem possa me dar abrigo por uns dias? Ou um lugar que tenha um serviço pra eu fazer?

-Olha, tem uns parceiros aí... Eles podem te dar uma força.

-Se for com droga eu não quero não. Tem que ser um serviço certo.

-Eu vou ver e te digo.- Flávio foi andando em direção a esquina, enquanto eu olhava para os lados tentando saber se alguém estava escutando a conversa. 

Passei a semana inteira indo para o mesmo lugar, na esperança de encontrar o cabeça, e finalmente ter uma notícia boa. Mas minha espera foi em vão, ele simplesmente sumiu. Acho que já tinha se passado quase duas semanas, quando ouvi um grito na rua, chamando o meu nome. A voz era da Priscila, uma colega de rua. Saí para ver o que era:

-Olha, o cabeça falou que conseguiu o que tu queria. Amanhã ele vai te encontrar lá no campinho da igreja. Ah, ele mandou tu ir pronto já.- Agradeci e entrei novamente pra casa.

Eu mal dormi de tanta ansiedade, pensava que tudo podia dar errado, que aquilo era uma cilada. Minha vida estava na mão de outra criança, que parecia não ter muita coisa na cabeça.

No dia seguinte eu fui até a quadra com uma mochila nas costas, e avistei Flávio de longe. Algo estava diferente, ele parecia ter tomado banho, e as roupas que ele usava eram boas e limpas. Fui me aproximando, e notei que ele não segurava a garrafa de cola, que parecia estar grudada para sempre nele.

-Flávio?

-E aí moleque, gostou da beca? 

-Pois é, quase não te reconheci, o que aconteceu que tu sumiu?

-O irmão do meu pai morreu, ele que me ajudava nos meus corres. Agora eu tô careta, mas não sei por quanto tempo. Bora logo que a gente vai pegar um ônibus.

Fui seguindo ele até a parada de ônibus. Minha cabeça havia pensado que seria algo mais perto, e que daria pra eu ir andando. Minha dor de barriga aumentava, e eu já não sabia o que queria fazer. Cabeça me olhou de canto, e percebeu minha cara de desespero. Olhou pra mim de frente e falou:

-Olha moleque, a parada é a seguinte. Se a gente entrar no ônibus não vai ter volta. Eu só vou te levar e tu nunca vai poder dizer que fui eu que te ajudei. Se tu não der certo, vai ter que se virar sozinho. Ta entendendo?- Só consegui a cabeça, dizendo sim.

Subimos no ônibus e sentamos nas poltronas da frente, próximo ao motorista. O ônibus estava vazio, e poucas pessoas subiram ou desceram durante todo o trajeto. Chegando no centro da cidade, Flávio chega no pé do meu ouvido e fala: "Corre junto comigo".

O frio foi descendo do centro da minha cabeça até os meus pés. o suor emanava pelo meu corpo, como se tivesse corrido uma maratona, acho que eu estava realmente passando mal, pois conseguia ver o meu reflexo no espelho, destacando meus lábios que estavam brancos. 

A porta se abriu e vi Flávio flutuando no ar, pulando quase que instantaneamente para fora do ônibus. Eu nem cheguei a pensar direito e tentei fazer a mesma coisa. Dei um pulo alto, jogando meu corpo pra fora o ônibus, mas meu pé engatou na beirada da porta, fazendo com que eu voasse direto pro asfalto quente. Daí em diante eu não sei o que aconteceu, lembro de poucas coisas, algumas vozes e gritos e daí em diante mais nada, só uma escuridão.

Acordei tempo depois, no colo de uma senhora. Eu estava com a cabeça apertada, e ao colocar a mão senti a faixa enrolando meu crânio.

-Quem é a senhora?

-Ah meu filho, que bom que você acordou. A gente está no hospital, você levou uma queda feia. Já tá quase de noite.

Levantei meio zonzo, e aos poucos tentava entender o que havia acontecido. Lembrei que estava no ônibus, mas o resto não estava claro.

-Você mora onde? Cadê seus pais?

-Olha dona, eu não poso voltar pra casa, deixa eu dormir na tua casa?

A senhora me olhava com um ar de mãe. Mesmo relutante ela aceitou, mas falou que ia me deixar em casa no outro dia. Pensei em como aquilo poderia gerar uma tremenda confusão, e que eu seria o pivô daquilo. Dona Graça me levou pra casa, me deu comida e me colocou no sofá da casa dela. Falou que eu dormisse e que no outro dia ela ia me ajudar.

Acordei ainda de madrugada. Peguei minha mochila e saí pela rua, em direção a parada de ônibus. Fiquei pensando na confusão e na surra que iria levar ao chegar em casa. Talvez a polícia estaria lá, só aguardando para me dar uma bronca. 

Quando passou o primeiro ônibus que servia, pedi pro motorista uma carona. Ele me olhou dos pés a cabeça, e talvez eu estivesse tão mal que ele aceitou. Fui refletindo a viagem inteira, me preparando pra surra que iria levar.

Chegeui na rua de casa, e vi as pessoas indo ao trabalho e me olhando. Ao entrar em casa, passei direto pro quarto e escondi a mochila. Fui ao banheiro e me lavei inteiro. Sentei no quarto e esperei o pior. Minhão mãe acordou gritando, pedindo pro meu pai não sair de casa. Fui até a cozinha pra fazer café. Lembro do olhar da minha mãe pra mim, e suas palavras:

-Que merda é essa na tua cabeça? Entrou na macumba foi? Tira isso que tá ridículo!

Eu já havia me sentido invisível antes, mas por um breve instante sonhei com um abraço de preocupação, um colo, ou até uma bronca, qualquer coisa que demonstrasse que ela se importava de alguma forma. Nada aconteceu. Eu não existia.




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