quarta-feira, 16 de abril de 2025

Capítulo 9

 

Estávamos entrando no nono mês de gestação, o último daquela nossa longa jornada de espera, e a barriga de Carol estava enorme, tão grande quanto nosso amor que crescia dentro dela. Decidimos, logo no começo da gestação que não saberíamos o sexo do bebê antes do nascimento, e que escolheríamos o nome só depois. Nem eu, nem Carol éramos católicos, portanto não haveria batizado na igreja, deixando em aberto os cargos de padrinho e madrinha.

Ao ser avisada sobre o assunto, dona Roberta quase teve um treco. Falava que aquilo era um ultrage com as tradições familiares, e que a criança não poderia crescer pagã. Seus discursos eram longos e espalhafatosos, o que dava um toque caricato e humorístico a reclamação. Ficávamos sérios enquanto ela falava, principalmente para ela não se sentir desrespeitada, mas era só ela se afastar que Carol começava a imitar a tia, balançando os braços e sacudindo o corpinho redondo. O adicional de uma barriga imensa, era o que deixava tudo mais engraçado na imitação. 

A chuva começava a engrossar lá fora, e aquele clima convidou todos de casa a se deitar mais cedo. Antes das dez já estávamos todos dormindo. Acordei de madrugada com Carol me chamando:

-Amor, acorda! Acorda! Acho que a bolsa estourou.

Estava antes da data prevista pro parto, e ainda cogitei que fosse apenas um susto, mas a bolsa realmente havia estourado, o que me fez dar um pulo da cama, pedindo que ela ficasse calma. Carol passou a noite com dor, sem me contar nada. Achou que pudesse ser engano, já que faltava ainda uns treze dias para a data do parto. As dores foram aumentando, enquanto ela me deixava dormir, me chamando na ultima hora.

Eu estava um poço de nervosismo, andando pra lá e pra cá, procurando uma roupa para me vestir, e indo conferir para que não esquecêssemos nada. As Bolsas e mochilas já estavam no porta-malas do carro, embaladas com plástico filme para não pegar sujeira. Carol pediu para que eu ajudasse ela a trocar de roupa, colocando um vestido que ela havia comprado para a ocasião. 

Avisamos dona Roberta, que ficou assustada com a data fora do previsto, mas ficou em oração para dar tudo certo. A chuva lá fora era intensa, com ventos fortes, deixando a visão dentro do carro completamente embaçada. Sai com o carro pela contramão, para pegar logo a outra rua. Naquele horário não havia problema, já que estava tudo vazio e silencioso. Ficava atento em cada cruzamento, já que os sinais só piscavam na luz amarela, fazendo com que eu tivesse que triplicar minha atenção na via.

Carol estava sentindo muita dor, apertando meu braço com força e gemendo alto ao meu lado. A cada apertão eu tentava acelerar mais o carro, mas era frustrado por algum cruzamento, ou por um carro ou outro que atravessava a minha frente. Por sorte, morávamos no centro da cidade, próximo de onde ficava o hospital.

Ao chegar próximo ao destinho, fui jogando o carro pra cima da calçada, entrando no setor emergencial do hospital. Parei o carro bruscamente, o que fez Carol dar um berro de dor. A equipe médica veio correndo rapidamente, e por se tratar de um hospital particular, o atendimento foi instantâneo. Correram com ela para dentro da sala, enquanto eu assinava uma pilha de papéis, que nem saberia dizer para que serviam. 

Passado uns quize minutos, o enfermeiro veio me chamar, perguntando se ia participar do parto, acenei que sim, e fui levado para uma salinha para me limpar, e colocar uma roupa especial. Ao entrar na sala, no meio daquela pequena multidão, Carol me reconheceu na hora, e tentou esboçar um pequeno sorriso, mas foi logo tomada por outra contração. 

O parto estava demorando mais do que eu imaginava. Logo eu, acostumado a assistir tantos filmes, onde tudo passava em um passe de mágicas, me vi alí na vida real, onde tudo era bem diferente, e por mais que tivéssemos feitos vários cursos para nos preparar naquele momento, eu só conseguia pensar em respirar calmamente e dar todo suporte que Carol precisava. Os minutos se passavam rapidamente, e toda a equipe presente auxiliava de alguma forma. 

-Tá chegando!- a médica gritava para a equipe, que se preparava para o momento principal da noite.

O silencio se fez presente assim que Carol deu uma respiração profunda, cortado imediatamente pelo choro estridente que se seguia logo após.

A médica rapidamente envolveu aquele bebê num pano, entregando para a mãe. Não conseguíamos conter o sorriso ao ver aquela criaturinha tão pequena, tão linda e perfeita, que assim que encontrou o seio de Caro, parou de chorar. Ao ouvir minha voz, aqueles pequeninos olhinhos se abriram, como se procurassem por mim. A equipe a nossa volta ainda trabalhava, cortando o cordão umbilical e organizando tudo ao nosso redor. Carol abriu o pano que envolvia nossa filha. Sim, era uma menina que chegava em nossas vidas. 

Carol tirou ela do peito, e me deu para segurar, disse baixinho ao me entregar:

-Segura tua filha Amor! Nossa pequena Alba.



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