Passei a semana inteira pensando naquela mensagem. Minha cabeça fervia por horas tentando desvendar aquela misteriosa mensagem. Não havia motivos plausíveis para que meu irmão fosse amoroso e carinhoso daquela forma. Será que ele estava bêbado? Foi a a primeira coisa que cogitei. Será que o telefone dele havia sido clonado? Eram muitas perguntas sem resposta. E para não ficar mais confuso, preferi não responder nada.
No trabalho as coisas fluíam bem, sem muitos problemas. Meus amigos e eu estávamos com novos projetos, tanto profissionais quanto pessoais, o que gerava um constante clima de empolgação e alegria. Teresa animava a galera com seus comentários inesperados. Muitas vezes até ela se surpreendia com o que falava, Teresa era nosso combustível para continuar sorrindo.
Não queria fazer inveja em ninguém, mas eu vivenciava a melhor experiência amorosa da minha vida. Mensagens trocadas ao longo do dia. Beijos, abraços e carinhos ao chegar em casa. Desvelávamos nosso amor em lugares inusitados. Cinemas, escadas de emergência, ruas com baixa iluminação. Nossa paixão era avassaladora e recíproca, e me fazia ter uma paz interior, que até então eu desconhecia.
Domingo. Lembro que acordei muito durante a madrugada. Coração acelerado, boca seca, a sensação que algo ruim ia acontecer.
Desde criança tive que aprender a lidar com minhas crises de ansiedade, que me atacavam sem hora nem lugar. Mesmo quando pensava que estava em paz, meu cérebro dizia que não, e colocava o corpo inteiro num modo alerta, o perigo podia estar a espreita, mas eu sabia que ele morava dentro de mim.
Durante a Adolescência, lancei mão de tudo que estava ao meu alcance. Cigarros, maconha, álcool. Tudo de forma a compensar essa agonia que sentia crescendo dentro de mim. Uma dor invisível, que só eu podia ver e carregar. Muitas vezes pensei em tomar os remédios que via minha mãe tomando, e acabar com todo aquele sofrimento interno de uma única vez.
Foram anos nesse eterno sofrimento, até ser acolhido por Alba. Certa vez, no trabalho, Alba me encontrou sentado na escada de emergência. Eu apertava os olhos com força, segurava firme minhas pernas, e ficava murmurando pra mim mesmo “já vai acabar”… “já vai acabar”….
Senti aquela mão suave me tocando o ombro. O perfume de rosas que Alba usava tomou conta de mim. Sem esboçar nenhuma reação eu permitia que ela me acolhesse. Ela se abaixou sem dizer uma palavra sequer, me abraçou suavemente, sentando ao meu lado. Sua voz doce me falava que estava tudo bem, e que eu não estava sozinho. Desabei em chorar. Foram anos e anos sofrendo sem saber com quem contar. E agora uma estranha estava ali comigo, e eu não me sentia mais só.
Já havia chorado muito antes, mas não daquele jeito. Não era um choro de tristeza ou agonia, era alívio. Eu não era mais alguém invisível, eu não estava me sentindo mais sozinho. Aquele momento resgatou toda a vida que eu pensava em abandonar, tudo que eu pensava era: “por que você demorou tanto pra aparecer?”
Depois do rio de lagrimas, Alba me colocou de pé. Nos apresentamos. Ela pediu que eu a esperasse no café da esquina, pedisse alguma coisa e a esperasse lá. Sem sequer saber o motivo eu obedeci. Fui até lá e pedi um café preto e um pão na chapa. Ao chegar no café Alba pediu a mesma coisa, me senti mais ligado a ela de alguma forma.
A fala de Alba me tocava de diversas maneiras. Acolhedora, materna, amiga e preocupada, ela sabia exatamente o que estava sentindo e como começar a resolver toda aquela situação. Depois de rios de lágrimas compartilhadas, risadas e muito amor, ela me indicou um lugar para procurar ajuda psicológica, falou que conhecia a dona e que conseguiria algumas consultas gratuitas, mas que com o desconto posterior, ainda seria acessível.
Voltei pra casa com uma tonelada a menos, e com a cabeça nas nuvens. Sentia meu corpo estranho, e mesmo com a cara inchada de tanto chorar, me sentia feliz demais. Foi a primeira vez que me sentia alegre em muito tempo, e aquilo era bom de sentir.
Cheguei na minha kit-net de um cômodo, tomei um banho, e sentei para escrever no meu diário. Criei esse habito no final da infância, e por mais que minha mãe tenha jogado fora a maioria, ainda me restavam alguns antigos. Comecei escrevendo “hoje estou feliz”. Parei durante alguns minutos lendo aquela frase tão curtinha, mas que era imensa dentro de mim. Ainda pensei em escrever mais alguma coisa, mas aquilo era mais do que o suficiente para descrever aquele momento. Antes de dormir, peguei o celular. Havia uma mensagem de Alba dizendo: “Chega mais cedo amanhã, vou te levar pra tomar café. Descansa. Fica em paz, meu filho”.
Olhava feliz o telefone. Acho que aquela era a sensação de ter uma família, com uma mãe que se preocupa com você. Me senti triste quando Alba partiu, mesmo vivendo na casa que era dela, eu queria que ela estivesse ali, me dando conselhos, me ouvindo falar da Carol. Ela sempre insistiu pra que eu namorasse alguém, dizia que eu era uma boa pessoa, e que precisava de alguém bom ao meu lado. Se ela estivesse aqui, eu tinha certeza que seu abraço ia poder me curar dessa maldita ansiedade.
Levantei pra tomar uma água na cozinha, na volta pro quarto fui tomado pela lembrança das coisas que Alva havia deixado pra mim na mala. Fui até o armário, peguei o álbum de fotos e fui para sala poder olhar com calma.
Sentei e liguei a luz amarela da sala, o ambiente todo se iluminou, clareando a paz e o silêncio da madrugada. Abri pela primeira vez o álbum de fotos que Alba havia me deixado. Assim que abri uma folha de papel caiu. A folha estava dobrada, e dentro dela havia uma foto. Era Alba, talvez no final da adolescência. No retrato ela segurava um bebê no colo, e seu sorriso largo transbordava felicidade.
Me abaixei para pegar o papel, que havia escorregado suavemente para debaixo do sofá. Era uma carta, e logo no verso havia a letra dela dizendo “para Ivan, meu filho de coração”.
Não pude conter as lagrimas, era ela outra vez, ali do meu lado, falando palavras que nunca teve a oportunidade de falar, ou mesmo, tinha guardado exatamente pra esse momento. Minhas mão começaram a tremer, tinha medo e receio de saber o que estava escrito ali, sabia que era algo especial. Fui até a cozinha com a carta na mão, os olhos ainda embotados de lagrimas, turvavam minha visão.
Bebi um copo d’água pra me acalmar. Respirei fundo e sentei. Segurava firmemente a carta na mão. Abri com calma, e li:
“Oi meu filho, sei que ao ler essa carta já terei deixado esse plano e seguido em frente. Você bem sabe que eu nunca tive medo da morte, mas se dependesse de mim teria ficado mais tempo para cuidar de você.
Deixei junto com essa carta uma foto muito importante. Sou eu com dezoito anos de idade, e esse bebê que está no meu colo é meu filho. Fiz minhas escolhas na vida, mas nenhuma delas foi deixar ele sozinho. Mas você sabe como são os mistérios de viver, ele não vingou por muito tempo, e resolveu partir antes que pudesse batizar. Seu nome era João, o mesmo nome do meu avô.
Minha vida foi bem difícil, mas nunca me deixei esmorecer. Trabalhei duro, estudei muito, e cheguei onde cheguei com muita garra e força. Você sabe meu filho, quem nasce pobre nesse lugar, tem que ralar muito, ainda mais quando nasce igual eu.
Durante minha vida na terra escolhi não ter filhos, nem casar. Achei que não era uma vida que eu ia querer ter. Mas olha ai como as coisas são, parece que alguém me mandou meu filho de volta, só pra eu terminar de cuidar dele direitinho.
Nessa altura você já deve estar todo choroso, mas não quero que você fique triste não, eu deixei tudo organizadinho pra você, e quero que você seja muito feliz.
Não sei se disse que te amava o suficiente, mas saiba que no meu peito você ocupou muito espaço, e assim como o João, eu vou cuidar de você aonde eu estiver.
Quero te dizer que te amo com todas as forças, e que vou cuidar de você aqui de cima. Vou mandar meus anjinhos da guarda te protegerem do perigo, e colocar alguém que vá te amar muito. Você é novo, não vá seguir meus passos não.
Se sentir sozinho, basta fechar os olhos e pensar em mim, que eu vou correndo te abraçar.
Com muito amor, Alba.”
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