Carol me acordou de madrugada, falou que havia escutado um barulho na cozinha como se alguém estivesse empurrando a janela. Levantei assustado, e ainda um pouco perdido. Abri o guarda roupa e peguei um cabide de madeira e fui na direção da porta. Carol me olhou sorrindo, e perguntou sussurrando:
-É sério que você vai la com um cabide?
-É de madeira.
-Amor, tu vai pendurar o ladrão no armário?
-Eu levo o que então?
Fomos falando baixinho, procurando uma possível solução para aquela confusão que se formava. Decidi continuara com minha jornada, e seguir em frente com meu intento. Abri a porta bem devagar, enquanto Carol ia com Alba para o banheiro. Olhei em direção a janela, e vi aquela sombra esstranha, tentando forçar a entrada. Pensei comigo mesmo: "se eu chegar gritando, ele vai se assustar". Era eu que estava morrendo de medo.
-TE PEGUEEEEEEEEEEI!- Gritei o mais alto que pude. Vi que no mesmo instante a sombra sumiu e ouvi uns barulhos, como se tivesse caído uma caixa ou algo assim. Foi aí que veio a surpresa. Abri a porta da área, e pude ver a silhueta esbelta pulando o muro. Fiquei pensativo durante alguns momentos, até que olhei pra baixo e vi um volume próximo ao meu pé.
Dona Roberta e Carol começavam a ligar todas as luzes da casa, e aos poucos, percebendo a falta de perigo, se aproximavam perguntando o que estava acontecendo. Carol argumentava com ela que tinha ido ver se tinha alguém invadindo a casa.
-Conseguiu ver quem era amor?- perguntou Carol, me observando de longe.
Me abaixei lentamente, e peguei no colo aquele pequenino ser, virando para que todos pudessem ver. Era um gatinho preto, que provavelmente estava na fase do desmame, já não era tão miudinho, mas também não era grande coisa. Dona Roberta se apressou e pegou ele do meu colo, falando que ia colocar numa caixa no quarto e que quando amanhecesse íamos pensar no que fazer. Eu e Carol nos olhamos, sabíamos que o sonho da sua tia era ter um gatinho pra cuidar. Consentimos e formos nos deitar.
Na cama conversamos mais um pouco, sobre como seria ter um bicho de estimação. Eu dizia que se a tia dela cuidasse, não teria problema nenhum da gente ficar, até porque isso ia ajudar ela a ter mais coisas pra ocupar o dia. Carol pensava em como aquele bicho, entrando e saindo de casa poderia ser um perigo, que teríamos que telar a casa inteira. A conversa ainda se arrastou por alguns minutos, mas se encerrou comigo pegando no sono.
Na manhã seguinte, acordei um pouco mais tarde, já que não teria que trabalhar. Quando me dei conta que estava só no quarto comecei minha rotina matinal. Ao chegar na sala, Dona Roberta estava toda arrumada, com uma bolsa bem grande debaixo do braço, como se estivesse pronta pra sair pra um evento importante.
-A senhora vai sair?- Perguntei para atiçara a resposta, que veio prontamente.
-Oh meu filho, tem que me levar com urgência no veterinário, não tem nada pra esse menino comer, e ainda tem que ver a vacina dele.
-Deixe só eu tomar meu café, que eu levo a senhora.- Carol se animou, falou pra esperar ela se arrumar e organizar as coisas enquanto eu tomava café. Queria passar no mercado pra comprar umas coisas pra ela.
Tomei meu café com calma, e aos poucos, fomos organizando tudo que pudéssemos precisar. Talvez a inexperiência tivesse muito presente, pois o tamanho da sacola da criança era grande demais, e por pouco faltou espaço para levar tudo.
Saímos quase umas dez da manhã, e fomos primeiro ao mercado. Segurava Alba no colo enquanto Carol ia organizando as coisas que ela queria dentro do carrinho. Dona Roberta decidiu ficar no carro, com todas as janelas abertas. Falava que ia ficar de olho no gatinho.
Fomo em zigue-zague pelos corredores, procurando as coisas que Carol dizia precisar. Acho que ela nem sabia muito bem o que queria, pois ficava olhando todas as prateleiras, como se procurasse algo que não estava ali. Aos poucos as pequenas coisas se tornaram muitas, e parecia que ela estava achando que precisava de tudo. Era engraçado ver ela tentando explicar pra que era cada objeto, principalmente quando ela dizia "era isso aqui que eu estava procurando".
Passamos pelo corredor de bebidas, mas como tinha prometido que só ia beber quando ela também pudesse, acabei ignorando aquele local. Mas fui surpreendido quando ouvi meu nome:
-Ivan?- Aquela voz era familiar, familiar até demais. Exitei em me virar, mas Carol ja havia visto quem era, e me olhava com um olhar de apreensão. Ouvi meu nome mais duas vezes, até que decidi me virar para constatar o que eu já sabia.
-Oi Ricardo.
Houve um silêncio que ficou pairando no ar. Nossos olhos mal se cruzaram quando ele viu minha filha no colo. Era a primeira vez que via os olhos de Ricardo marejados, e mesmo me sentido estranho, não deixei transparecer. Ricardo olhava incrédulo, como se não fosse real. Perguntou olhando para Alba:
-É sua filha?
-É.
-Qual o nome dela?
-Alba.
-Ela ta com quantos meses?
-Sete.
Minhas respostas secas não assustavam Ricardo, e nem faziam ele olhar para mim. Carol colava seu corpo no meu, como se tentasse me proteger de tudo aquilo.
-Amor, vamos pagar? Minha Tia está muito tempo esperando.
-Vamos sim.
Olhei para Ricardo, e apenas acenei com a cabeça. Fomos direto para o caixa, sem dizer uma palavra, sem olhar para trás.
Ao chegar no carro, organizei as compras em silêncio, ouvindo as reclamações de dona Roberta. Entramos no carro, ainda em silêncio. Dirigi tranquilamente até o veterinário. Dona Roberta entrou com ele, e eu fiquei com Carol no corredor.
-Você está bem?- Perguntou Carol calmamente.
-Ainda não sei como estou. Nunca me passou pela cabeça reencontrar ninguém da minha família, principalmente agora. Eu realmente não sei o que sentir.
Carol me abraçava tentando me dar paz, e eu tentava a todo custo esquecer aquele momento no supermercado.
Dona Roberta saiu toda contente de dentro do consultório. Cheia de papéis e o documento do gato. Olhando em volta viu as coisas que iria precisar para alimentar, cuida e brincar com aquele pequeno felino.
No carro, bateu a curiosidade:
-E aí dona Roberta, qual o nome do seu filho?
-Ah meu filho, vai ser uma homenagem ao meu falecido pai.
-Então vai ser Alfredo?
-Alfredo não, Alfredinho.
Caímos na gargalhada.
E pensar que nunca em minha vida havia pensado em ter um animal de estimação.
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