Aquele encontro com Ricardo havia deixado uma brecha em meus pensamentos. por um lado eu me via no mesmo filme de antes, onde eu tentava ser amigavel e recebia uma facada no peito. por outro, eu pensava que as coisas poderiam mudar e Alba estivesse vindo para trazer um novo episódio na minha vida. Aquela com certeza não era uma tarefa facil, mas uma hora ou outra eu precisaria tomar uma decisão.
Falei sobre o ocorrido com meus amigos, e decidimos marcar uma reunião na casa de Paulo. Pensamos em nos encontrar depois do expediente, mas Carol falou que era melhor esperar o final de semana, onde teríamos mais tempo. Dei a sugestão para o grupo, e todos foram de comum acordo. Aguardamos aquela semana, adiantando alguns assuntos pelo computador, mas conversar presencialmente seria diferente. Carol falou que dessa vez não iria me acompanhar, Alba era bem agitada, e ela receava passar tanto tempo fora de casa com ela. Apesar de não concordar, precisava rever meus amigos.
Fui o primeiro a chegar na reunião, e depois de um banho de álcool em todas as suas formas, dei um abraço em Teresa e Paulo. Começamos adiantando alguns assuntos coletivos, atualizando de algumas coisas da vida. Os dois perguntavam sobre Carol e Alba, e só de ver a minha empolgação de falar sobre as duas, eles ficaram felizes. Logo depois Bia chegou com Ronaldo, e após o mesmo protocolo de higiene sentamos para conversar. Teresa começou:
-Irmãos e irmãs, estamos reunidos hoje para orar pelo nosso varão Ivan-Todos caímos na gargalhada.
-Obrigado pessoal, eu realmente precisava da ajuda de vocês- disse eu entre as risadas- Como ja tinha falado, rolou toda aquela situação com o meu irmão no passado, e eu tinha dada por encerrada a minha tentativa de reaproximação. Pois bem, semana passada encontrei ele lá no supermercado, e ele viu que eu estava com a minha filha no colo, e daí por diante vocês já podem imaginar.
-Olha Ivan- Paulo respirou fundo antes de continuar- Eu acho que é uma situação delicada, porque vocês não se dão bem, e se tu ja ficou puto da ultima vez, dessa não vai ser diferente.
Ficou um silêncio entre o nosso grupo, foi então que Bia falou:
-Eu concordo com o Paulo, só que tem um porém, a gente mora na mesma cidade, e aos poucos as coisas vão voltar a acontecer. Tu vai sair pro parque, ou shopping ou qualquer outro lugar, e sempre vai ter a possibilidade de alguém da tua família aparecer. Tu mesmo já havia falado que tinha visto tua mãe varias vezes, e ficava se escondendo. Com uma criança, vai ser impossível isso acontecer. Não dá pra se esconder pra sempre.
Fiquei pensando no que Bia havia falado, e outro silêncio pairou no ar. Ronaldo falou que Bia tinha razão, e que uma hora ou outra era capaz de alguém bater lá em casa pra me procurar. A situação parecia ter ficado mais complicada, até Teresa falar novamente:
-Ivan, sei que o passado pode ter sido cruel com a gente, mas a gente está no presente. A Alba nunca sofreu nada, e estando com você e a Carol, eu tenho certeza que ela não vai sofrer. Nós fizemos nossas escolhas, e estamos sofrendo as consequências até hoje. Não tira a oportunidade da Alba ter avós e tio. Muitas vezes eu sonho com minha família, e mesmo no meio de tanta dor eu arrumo um jeito de rir, ou de me alegrar. Você não está mais sozinho.
As palavras de Teresa emocionaram o grupo inteiro, e por mais que todos esperássemos uma piada, ou algo parecido, isso não aconteceu. Todos concordaram com Teresa, e tentávamos pensar em qual momento isso poderia acontecer, em qual ambiente, de que maneira iríamos organizar aquele reencontro. Foram várias as sugestões, mas o assunto ficou em aberto.
Conversamos, lanchamos e mais uma vez tivemos que dar um até logo. Dessa vez não havia tristeza, e todos partimos para nossas casas.
Cheguei para o meu banho de mangueira, e uma outra dose de álcool em gel. Após o banho de cachorro, Carol me chamou pra comer um bolo que havia feito, e fomos para o quarto conversar. Era quase a hora de jantar quando paramos nosso assunto. Por mais que o tema fosse pesado, Carol trazia leveza, com falas compreensivas, entre brincadeiras com nossa filha.
-Sei que pra você é muito difícil, mas acredito que tenho uma possível solução. Espera chegar o aniversário de Alba de um ano, e até lá pensamos no que fazer, e como podemos convidar sua família. A essa altura do campeonato eles devem saber da Alba, então é uma questão de tempo até a gente decidir dar o próximo passo.
Aquelas palavras ressoavam na minha cabeça, e agora o encontro tinha data certa para acontecer. Era uma contagem regressiva para um futuro incerto, e eu não sabia o que fazer.
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