quarta-feira, 9 de abril de 2025

Capítulo 3

Ricardo acordou atordoado naquele dia, sua noiva tinha discutido com ele na noite anterior, reclamando da constante falta de atenção. Dizia que ele não era mais o mesmo e que não sabia se ia aguentar mais tempo daquele jeito. Talvez precisasse de um tempo para pensar. No trabalho as coisas não andavam bem, sua empresa havia pegado mais projetos do que ele conseguia supervisionar, e com a demissão de seu parceiro de empreitadas, tudo tinha recaído sobre ele. Foram dias pra tentar reorganizar minimamente os projetos, e agora essa. O medo de um possível divórcio com Ana o abalava profundamente. Eram adolescentes quando o namoro começou, e agora não era o momento de tudo ruir desse jeito.


No dia seguinte da noite mal dormida recebeu uma mensagem no celular, era Paula, sua melhor amiga da faculdade, estava entrando em contato para pedir ajuda com sua estadia em Belém. Precisava de um lugar pra ficar, e de preferência com alguém conhecido para levar elas nos lugares que precisava ir para sua pesquisa de doutorado.

Paula tinha seus quarenta e cinco anos, era casada com Fabíola a sete, e conheceu Ricardo no curso de arquitetura. Eram inseparáveis. Apesar de todos acharem que eles eram um casal, Paula e Ricardo eram apenas bons amigos.

Naquela manhã ela estava procurando em um lugar pra ficar, mas como ia ter que prolongar sua estadia durante três meses ou quatro, decidiu mandar mensagem para o amigo. Achou que pelo tempo da universidade não custaria nada pedir um favor. Fabíola ainda insistiu que ela ficasse num hotel, mas foi convencida pela esposa que os gastos seriam muito altos, e que naquele momento elas precisam economizar.

Ricardo leu a mensagem com tristeza. Mesmo com um quarto vago em sua casa, aquele não seria o melhor momento para receber alguém. Pensou bastante antes de responder sua amiga. Com o coração apertado falou que não poderia receber ela em casa pois estaria viajando na época. Era a desculpa perfeita. Como sempre foi muito trabalhador, tinha vários dias pendentes com a empresa, era o momento certo de reaver seu amor com Ana em uma viagem romântica e de quebra poder descansar sua mente.

A ideia de afastamento não foi bem aceita no trabalho, porém com muita insistência e alegando estar com problemas no casamento, sua chefe deu a ele uma semana de folga. Era o suficiente para que ele reconquistasse a confiança de sua amada, e ainda fugir do compromisso com a amiga.

Chegou em casa empolgado para contar a novidade para sua noiva, mas foi ele que foi surpreendido. A casa estava com várias coisas faltando, o guarda-roupa praticamente vazio. No começo achou que a casa pudesse ter sido invadida, mas logo percebeu que Ana havia lhe deixado.

Ricardo ficou inconsolável, ligava para todos os familiares de Ana, mas ninguém atendia. Resolveu ir atrás dela, quando viu uma carta colada na parte interna da porta. Nem havia percebido aquilo quando entrou eufórico de alegria em casa. Ana foi breve na carta, avisava que estava indo pra outra cidade, havia conseguido um emprego lá, e queria recomeçar a vida bem longe, e que toda sua família já sabia de sua decisão.

Era o fim. Mesmo muito triste Ricardo resolveu manter a viagem, achava que de alguma forma isso podia fazer bem pra sua cabeça. Pegou o celular e digitou para sua amiga, falando que ela poderia vir, mas que ele estaria uma semana fora, ia pedir ao seu irmão Ivan para recebê-la, e logo estaria de volta pra reencontrá-la.

Procurou no seu celular o nome "irmão", mas não encontrou nada. Olhou nas redes sociais, mas também não encontrou. Tentou colocar o nome do irmão, mesmo assim não achou. Chorou novamente. Sentado na beira da cama lembrou da época de sua infância com o irmão. A mãe lhe jogava toda a responsabilidade da criação de Ivan sobre suas costas, e aquilo lhe deixava indignado. "Ele não é meu filho" gritava para a mãe, que simplesmente saia de casa em busca do marido ausente.

Lembrou do dia que seu irmão passou mal na rua e ligou pedindo ajuda, no médico ele foi examinado e aparentemente estava tudo bem. Na hora de pagar Ivan colocou seu número no canhoto do recibo e deu pro irmão. Falou que tinha mudado de telefone e que eles podiam se falar por esse novo número agora. Ricardo revirou a casa inteira procurando esse canhoto, até lembrar que havia colocado num bolso da carteira. Achou o número e pensou em ligar. Mesmo emotivo, achou melhor mandar só uma mensagem. pegou o celular e escreveu "vou passar um tempo fora da cidade, ta chegando uma amiga minha pra fazer uma pesquisa pro doutorado dela, me faz esse favor e recebe ela, deixei a chave com a vizinha que gosta de você, boa sorte".

A vizinha que Ricardo se referia era Marta, uma senhora que era taróloga e sempre ajudava seus vizinhos do prédio. Ricardo estava com as malas prontas e já ia bater na porta de Marta, quando ela abriu a porta.

-Precisa de ajuda, meu filho?

-A senhora poderia entregar essa chave pro meu irmão, ele vai vir aqui buscar esses dias.
Marta pegou a chave da mão de Ricardo, ohou nos seus olhos e falou:
-Aproveita essa viagem que você vai fazer para arrumar a sua vida, é hora de voltar a ter uma família.- mesmo não acreditando em nada, Ricardo foi pego de surpresa com as palavras da vizinha. Ele agradeceu e foi na direção do aeroporto.
Antes de pegar o voo ele parou para comprar um lanche. Ficou pensando na sua vida e como tudo tinha virado do avesso. Aquele seria o momento certo para mudar tudo. Ao embarcar Ricardo teve a brilhante ideia de desligar o telefone durante todo o período que estria longe de casa, e assim o fez.

Ricardo ainda não sabia, mas sua vida ia mudar pra sempre.

Paula chegou em Belém, e mesmo ligando muito para seu amigo, as chamadas só caiam na caixa postal. O ódio tomou conta dela, não fazia ideia para onde ir e quem procurar, não tinha o número de ninguém naquele lugar, e não queria ter que dar razão a sua esposa, que havia falado mil vezes pra ela ficar num hotel. Pensou, e pensou. Seu ódio agora virava preocupação, e sua preocupação começou a se tornar medo. O que poderia ter acontecido com Ricardo para ele ter sumido assim?

Ela lembrou que anos atrás eles trocavam mensagens, e numa certa vez ele havia lhe dado seu endereço. Finalmente uma luz no fim do túnel. Procurou durante quase uma hora, mas encontrou o endereço completo do seu amigo,ia bater lá. Chamou um carro de aplicativo que lhe deixou na frente do apartamento de Ricardo.

Ela pensava num jeito de entrar, até que encontrou dona Marta chegando do supermercado. Dona Marta olhou a mulher e lhe questionou o que fazia ali na frente, cheia de malas. Após alguns minutos de boa conversa, as duas já estavam no apartamento de Ricardo tomando café. Dona Marta era uma excelente taróloga, mas era melhor ainda sendo fofoqueira. Ela perguntava de tudo para Paula, enquanto ia olhando tudo na casa do vizinho.

Bem, não era a recepção que Paula queria, mas arrumou uma guia que conhecia cada buraco da cidade, cada feira, cada bar (novo ou velho), a mulher realmente iria ser a salvação de Paula,que nessa altura do campeonato só rezava para que nada de ruim tivesse acontecido ao seu amigo.


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