terça-feira, 22 de junho de 2021

Presente

Aos 24 saí de casa para morar só em outra cidade. Na única mala, tudo que eu podia levar para recordar quem eu era. Algumas mudas de roupa, alguns livros, fotografias de épocas diferentes e no meio de tudo isso o medo do que estaria por vir.

Tudo foi rápido demais, e as mudanças que sofri, foram me transformando em outro alguém.

Hoje olho pra trás com saudades, e quando retorno pra terra onde cresci, mesmo com tudo mudando a minha volta, eu ainda me sinto em casa.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Sobre descobertas (capítlo 3)

Era por volta das nove da noite quando o telefone tocou. Fazia tempo que eu não recebia uma ligação de tão longe. Hesitei por uns segundos antes de atender, e quando ouvi o choro do outro lado do telefone já sabia o que era.

Faziam anos que não falava com meu pai, e desde a minha infância ele não era alguém tão presente. Poucos encontros, quase nenhuma palavra trocada, e nenhum abraço.

Uma das filhas dele me ligou pra dar o aviso. Não consegui chorar, mas aquela notícia me pegou de um jeito estranho.

Minha namorada talvez tenha sentido mais do que eu, e me abraçou forte quando falei pra ela. As lagrimas que escorriam do olhos dela me comoviam bem mais.

Não fui ao velório, e sentia que daquele instante pra frente as coisas mudariam de alguma forma. O mais triste foi dar a notícia pra minha mãe, que ficou em silêncio, e me disse que estava com saudades.

Já faziam dois anos desde o meu casamento, e entre brigas, noites de amor, e muita conversa, as coisas chegaram num ponto que tudo parecia mais seguro e tranquilo; sentia que faltava alguma coisa.

A casa que com o tempo foi se alterando para um estilo nosso, e que agora abrigava um gato velho e preguiçoso, começava a ficar num tom de cinza, um tom de cinza claro, morno e que me causava uma certa angústia.

Ainda amava minha companheira, e ela me amava, mas a rotina foi um golpe injusto que eu não havia calculado com muita clareza, e mesmo sabendo que ela iria chegar não me preparei como devia.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Sobre descobertas (Capítulo 2)

Conversávamos incessantemente de todos os assuntos possíveis. Eu era falante por natureza, e acabei descobrindo alguém que além de me ouvir falava tanto como eu. E por mais que nossas opiniões fossem em caminhos diferentes, algumas vezes, era engraçado como tudo era fluido e tranquilo.

Sempre achei que aquele papo que as pessoas falavam de amor à primeira vista era uma barca furada, uma mistura de empolgação e um pouco de falta de bom senso, mas nada melhor que um pouco de insanidade para alimentar as esperanças de algo novo.

Em uma noite regada a algumas garrafas de vinho falávamos na possibilidade de morar juntos. Honestamente não sei como esse assunto surgiu, mas acabou por virar um algo recorrente entre a gente.

Os meses estavam correndo, e isso parecia algo que se tornava cada vez mais real.

A distância entre nossas casas foi um ponto chave para que decidíssemos optar por juntar as coisas, e por mais que o tempo que estávamos juntos não fosse, para a maioria das pessoas, um ponto que tonasse essa decisão algo inteligente de se fazer, para nós era algo mais que certo.

Então era isso, a decisão foi tomada, e iriamos arcar com todos os perigos dela.

Eu morava de aluguel, e a despesa com idas e vindas já pesava no orçamento. Era evidente então que eu me mudaria para a casa dela, que logo-logo se tornaria nossa. Vez ou outra pensava nessa frase, "nossa casa", e ao mesmo tempo que parecia rápido demais, a ideia de ter algo nosso me animava.

Tudo já estava a postos. As caixas já estavam arrumadas, e muitas das coisas que julgamos não serem necessárias ter em dobro, foram vendidas. como as coisas eram minhas, minha conta bancária acabava por ganhar um valor a mais, e eu me sentia importante com aquilo.

Contei pra alguns amigos que decidimos morar juntos, e é engraçada a polarização de opiniões; a maioria me parabenizou pela coragem, mas sempre tem o do contra, ou seria esse o conselheiro mais sábio?

- Tem certeza cara? Tu conheceu ela a poucos mais de três meses, essas coisas levam uma vida pra gente decidir. Eu no teu lugar, pensava mais- Essa foi a fala de um dos meus amigos mais próximos. 

Eu tinha certeza? provavelmente não.

Chegou então a derradeira semana, e faríamos a mudança na sexta feira.

Acho que passei a semana com pequenas crises de ansiedade. mas nada foi tão sério a pondo de eu voltar atrás.

A maioria das minhas coisas já estavam na casa dela, e minha casa mais parecia um cenário de um filme apocalíptico. Minha vida se resumia em algumas caixas de livros, roupas, panos de pratos e algumas panelas.

Cheguei um pouco mais cedo pra esperar ela sair do trabalho. Havia falado no meu emprego que estava me sentindo mal e não podia ir trabalhar. Não tinha ninguém naquele lugar que eu devesse uma explicação, e se falasse a verdade eu sei que ninguém ia me liberar.

Ela me viu sentado em um banco numa praça ao lado de onde ela estava, deu um assovio e acenou.

Ela estava linda como sempre, e eu ainda estava apaixonado. Era um bom sinal.


Bloqueio

Ávido por escrever algo sentei com o caderno na minha frente. Tentava a todo custo achar uma música que fizesse sentido naquele momento, mas procurar pela música perfeita é quase tão massacrante quanto  encontrar um filme para assistir hoje em dia; sempre há aquela sensação de que aquilo já foi feito em algum momento.

As lembranças de uma outra época vinha na minha cabeça embaladas por um sentimento estranho, mas com certeza não era saudade, talvez um sentimento primo.

A xícara de café quente ajudava a manter uma distração enquanto pensava em um tema para abordar. Acho que de madrugada pensei em um bom tema, mas sempre sinto preguiça de acordar para escrever, é algo maior que eu, e isso as vezes é uma merda.

Procuro pela casa algumas moedas tentando somar um troco pra comprar algo barato pra beber, algo para golpear a alma. Olho no relógio e ainda são seis da manhã, provavelmente só o que vou encontrar na rua é aquele ar deprimido que os velhos bêbados exalam ao não terem mais para onde voltar, e não me refiro as suas casas.

A desvantagem de tomar café é que a mente não consegue relaxar o suficiente para pensar, e isso me frustra. Houve um tempo em que poderia escrever qualquer coisa a qualquer momento, os versos me saltavam a mente e me roubavam o sossego. Nada tinha tanta profundidade, mas me ajudavam a extravasar o que havia dentro de mim. Hoje o que mais há é profundidade, mas as palavras já se tornaram mais amargas. 

Nada como contas demais e muito trabalho para foder com a mente de alguém. 

Provavelmente um filme deve ajudar a pensar, mas qual?


terça-feira, 1 de junho de 2021

Sobre descobertas (capítulo 1)

Trajada toda de negro ela imergiu no meio da multidão. era sexta feira e a festa não estava muito animada. Na verdade, as festas no centro da cidade não são tão animadas assim. Embaladas com sons estranhos, e pessoas que de tão brancas reluzem a colonização do nosso pais, o centro da cidade se confirma como algo que sempre é, podre, mas como de costume, ao se chegar numa cidade nova é preciso explorar.

Naquele dia eu acordei sem muitas pretensões, e como o mês ainda estava na metade, o dinheiro não era tão farto; na verdade nunca foi.

Ela não parecia também conhecer o local, seu olhar tão perdido como o meu, vagava em meio as pessoas, como que analisasse o ambiente, tentando validar de alguma forma sua presença. O cheiro de maconha era forte, então resolvi ficar numa área mais aberta, mesmo que também fumasse, não queria estar no meio da multidão. 

Depois de quase meia hora ela veio na direção que eu estava, um copo de cerveja na mão e um cigarro inteiro na outra, era fácil perceber que ela também se sentia deslocada naquele lugar, mas de certa maneira, isso me confortava, talvez por saber que essa situação poderia gerar alguma conversa. 

Ela tentou acender o cigarro uma ou duas vezes, mas como se fosse algo divinamente providencial, não conseguiu. Ofereci meu isqueiro, um Bic vermelho, nada muito interessante, ela aceitou e ficou parada ali como se esperasse por alguma coisa. Naquela noite eu já tinha tomado uma ou duas latas de uma cerveja qualquer, sempre escolhia a opção mais barata, vislumbrando a possibilidade de me embebedar com o menor custo possível.

"festa estranha com gente esquisita", esse trecho da música do Renato nunca tinha feito tanto sentido, resolvi falar essa frase como se esperasse uma resposta complementar, ela acenou com a cabeça e estendeu a mão falando seu nome, nos apresentamos e ficamos alguns segundo em silêncio, resolvi acender outro cigarro, afinal, as semelhanças naquela situação ajudariam a desenvolver algum raciocínio.

Perguntei de onde ela era, ela respondeu e perguntou de onde eu vinha, comentou algo que eu não escutei, mas acabei sorrindo em resposta. 

-Perdido por aqui?- Ela perguntou

Acenei com a cabeça, dando um trago mais fundo no cigarro. 

Seus olhos eram negros e vazios, e aquilo me trazia uma sensação estranha, talvez de identificação, mas nada além disso.

-Tu conhece algum lugar aqui perto com a cerveja mais barata?- perguntei.

-Sei sim, quer ir lá?

Concordei com a ideia, e saímos andando pra fora da festa. Ainda era cedo, mas aquele lugar não prometia muita coisa.

Começamos a andar um ao lado do outro e falar sobre qualquer assunto, falei que achava estranha as festas em Brasília, sempre pareciam iguais pra mim. Ela riu e acendeu outro cigarro. Deu dois tragos profundos e me ofereceu. Eu aceitei.

-As vezes não sei porque venho pra esses lugares, sempre arrependo no final, mas tem dias que ficar em casa é foda.

Não tinha como discordar. Tudo naquele lugar seguia um roteiro escrito as pressas que se resumiam em beber, fumar e terminar a noite com alguém que não vai levar a lugar nenhum.

Chegamos num barzinho numa rua estreita, não tinha música, mas o litrão era realmente barato, e supreendentemente gelado. Tomamos o primeiro copo quase que em um único gole, e depois seguimos conversando.

A noite ficava cada vez mais fria, mas o álcool era suficiente para aquecer o corpo. 

Ela perguntou o que eu fazia, e eu respondi que era professor. Era visível que o olhar dela achava toda aquela situação diferente, quase que uma novidade. Resolvemos pedir batata frita. Acho que a batata frita é o petisco universal para situações como essas, não pela simplicidade, mas pelo preço.

Falamos de política, decepções amorosas, da vida em outras cidades e como esses encontros acabavam na maioria das vezes.

Seus braços fortes gesticulavam pelo ar, dando ênfase as suas palavras. Vez ou outra ela prendia e soltava o cabelo, que parecia ter sido cortado por ela mesma, mas que não tinha ficado ruim.

Depois da terceira garrafa ela olhou no relógio e perguntou se eu queria continuar bebendo na casa dela, com a promessa de haver bebida em casa, e que a gente poderia fazer alguma coisa pra comer, aceitei sem pensar.

Andamos cerca de meia hora, falando sem parar. Antes de sair do bar compramos cada um um latão de cerveja pra garantir que que ficaríamos salvos da sobriedade. O apartamento não era perto, mas ignorei esse fato.

Chegamos. Ela morava no terceiro andar de um prédio antigo, a sacada com luzes natalinas, se destacava em meio as outras varandas. Entrei, tirei minha bota, ela entrou na cozinha e voltou com um copo cheio de água e uma garrafa de rum, que já não estava tão cheia assim.

Olhei em volta, e assim como o prédio, tudo era antigo.

Fomos pra varanda e continuamos a conversa. Ela falou que a casa era de uma tia que faleceu a um tempo atrás, e que deixou pra ela, já que não tinha filhos. Ficamos em silêncio.

Já passava da uma da manhã e eu tentava medir a minha sobriedade, pensava que talvez fosse melhor eu parar de beber.

Ela entrou na cozinha e colocou uma pizza congelada no forno elétrico, era possível ver uma tatuagem na nuca, mas que não consegui identificar o que era. Levantei e fui ao banheiro, molhei o rosto e fiz um gargarejo, como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa. Quando saí ela estava ligando um aparelho de som antigo, colocou um CD do ABBA e deu uma gargalhada, eu não entendi, mas achei aquela situação engraçada.

Paramos de fumar e ficamos sentados no sofá, cada um em um canto, mantendo uma distância confortável entre nós.

O papo rolou até umas quatro da manhã. Estávamos visivelmente bêbados, mas não estávamos cansados. 

Ela veio até minha direção e me beijou. 

Obviamente que eu esperava que aquilo fosse acontecer, mas lá pelas duas da manhã já havia deixado de acreditar nessa possibilidade.

Fomos para o quarto, e entre beijos e carícias acabamos dormindo.

Lá pelas onze da manhã ela me acorda, me beija novamente e me chama pra tomar café. levanto meio perdido, tomo um copo de água e meço os possíveis estragos da ressaca.

Antes do café resolvo tomar um banho. O álcool que transpira por cada poro do meu corpo aos poucos evapora na água quente.

Me enxugo, coloco minha roupa, e vou até a cozinha pra tomar meu café. 

Ainda não deu meio dia, mas já estou apaixonado outra vez. 

 


Dia estranhamente bom

Mesmo estando imerso em uma pandemia, hoje acordei diferente; tive, ontem, uma daquelas crises de choro onde não somente sai as lágrimas, mas também se expurga um sentimento quase que demoníaco, que consome e invade a alma.
Escolhi como trilha sonora pro choro Gal Costa (que por sinal recomendo muito), e vez ou outra as propagandas, como que num rompante ao sentimentalismo em excesso, cortavam o momento. Mas eu insisti, mudei de música, chorei mais, e tudo isso com um rodo e um pano na mão, afinal a modernidade nos proporciona um choro parcelado, e a vida adulta a responsabilidade de limpar a casa.
Engraçado como o dia está propicio para algo bom, pensei até em fazer umas apostas, mas ainda vou jogar as cartas pra ver se hoje é meu dia de sorte. Enfim, a pandemia diminuiu meu ceticismo astrológico, aumentando minha capacidade em me agarrar a possíveis respostas astrais. Se é bom ou não, o futuro dirá!
Ligo o computador cedo, na esperança que haja uma notícia diferente da habitual. Mas não há nada de novo no país de santa cruz. 
Penso em fumar um cigarro. Depois de parar de beber, o cigarro tem sido um bom companheiro, já que ele me dá uma espécie de paz interior. Pode ser só a nicotina falando mais alto e tapando meus pulmões? talvez. Me iludo com o fato de que é minha genialidade egofágica que rompe o limiar dos entraves que eu mesmo construí.
Ainda é cedo, e até hoje eu não aprendi usar a crase.