Trajada toda de negro
ela imergiu no meio da multidão. era sexta feira e a festa não estava muito
animada. Na verdade, as festas no centro da cidade não são tão animadas assim.
Embaladas com sons estranhos, e pessoas que de tão brancas reluzem a colonização
do nosso pais, o centro da cidade se confirma como algo que sempre é, podre,
mas como de costume, ao se chegar numa cidade nova é preciso explorar.
Naquele dia eu
acordei sem muitas pretensões, e como o mês ainda estava na metade, o dinheiro
não era tão farto; na verdade nunca foi.
Ela não parecia
também conhecer o local, seu olhar tão perdido como o meu, vagava em meio as
pessoas, como que analisasse o ambiente, tentando validar de alguma forma sua
presença. O cheiro de maconha era forte, então resolvi ficar numa área mais
aberta, mesmo que também fumasse, não queria estar no meio da multidão.
Depois de quase meia
hora ela veio na direção que eu estava, um copo de cerveja na mão e um cigarro
inteiro na outra, era fácil perceber que ela também se sentia deslocada naquele
lugar, mas de certa maneira, isso me confortava, talvez por saber que essa
situação poderia gerar alguma conversa.
Ela tentou acender o
cigarro uma ou duas vezes, mas como se fosse algo divinamente providencial, não
conseguiu. Ofereci meu isqueiro, um Bic vermelho, nada muito interessante, ela
aceitou e ficou parada ali como se esperasse por alguma coisa. Naquela noite eu
já tinha tomado uma ou duas latas de uma cerveja qualquer, sempre escolhia a
opção mais barata, vislumbrando a possibilidade de me embebedar com o menor
custo possível.
"festa estranha
com gente esquisita", esse trecho da música do Renato nunca tinha feito
tanto sentido, resolvi falar essa frase como se esperasse uma resposta
complementar, ela acenou com a cabeça e estendeu a mão falando seu nome, nos
apresentamos e ficamos alguns segundo em silêncio, resolvi acender outro
cigarro, afinal, as semelhanças naquela situação ajudariam a desenvolver algum
raciocínio.
Perguntei de onde ela
era, ela respondeu e perguntou de onde eu vinha, comentou algo que eu não
escutei, mas acabei sorrindo em resposta.
-Perdido por aqui?-
Ela perguntou
Acenei com a cabeça,
dando um trago mais fundo no cigarro.
Seus olhos eram
negros e vazios, e aquilo me trazia uma sensação estranha, talvez de
identificação, mas nada além disso.
-Tu conhece algum
lugar aqui perto com a cerveja mais barata?- perguntei.
-Sei sim, quer ir lá?
Concordei com a
ideia, e saímos andando pra fora da festa. Ainda era cedo, mas aquele lugar não
prometia muita coisa.
Começamos a andar um
ao lado do outro e falar sobre qualquer assunto, falei que achava estranha as
festas em Brasília, sempre pareciam iguais pra mim. Ela riu e acendeu outro
cigarro. Deu dois tragos profundos e me ofereceu. Eu aceitei.
-As vezes não sei
porque venho pra esses lugares, sempre arrependo no final, mas tem dias que
ficar em casa é foda.
Não tinha como
discordar. Tudo naquele lugar seguia um roteiro escrito as pressas que se
resumiam em beber, fumar e terminar a noite com alguém que não vai levar a
lugar nenhum.
Chegamos num barzinho
numa rua estreita, não tinha música, mas o litrão era realmente barato, e
supreendentemente gelado. Tomamos o primeiro copo quase que em um único gole, e
depois seguimos conversando.
A noite ficava cada
vez mais fria, mas o álcool era suficiente para aquecer o corpo.
Ela perguntou o que
eu fazia, e eu respondi que era professor. Era visível que o olhar dela achava
toda aquela situação diferente, quase que uma novidade. Resolvemos pedir batata
frita. Acho que a batata frita é o petisco universal para situações como essas,
não pela simplicidade, mas pelo preço.
Falamos de política,
decepções amorosas, da vida em outras cidades e como esses encontros acabavam
na maioria das vezes.
Seus braços fortes gesticulavam
pelo ar, dando ênfase as suas palavras. Vez ou outra ela prendia e soltava o
cabelo, que parecia ter sido cortado por ela mesma, mas que não tinha ficado
ruim.
Depois da terceira
garrafa ela olhou no relógio e perguntou se eu queria continuar bebendo na casa
dela, com a promessa de haver bebida em casa, e que a gente poderia fazer
alguma coisa pra comer, aceitei sem pensar.
Andamos cerca de meia
hora, falando sem parar. Antes de sair do bar compramos cada um um latão de
cerveja pra garantir que que ficaríamos salvos da sobriedade. O apartamento não
era perto, mas ignorei esse fato.
Chegamos. Ela morava
no terceiro andar de um prédio antigo, a sacada com luzes natalinas, se
destacava em meio as outras varandas. Entrei, tirei minha bota, ela entrou na
cozinha e voltou com um copo cheio de água e uma garrafa de rum, que já não
estava tão cheia assim.
Olhei em volta, e
assim como o prédio, tudo era antigo.
Fomos pra varanda e
continuamos a conversa. Ela falou que a casa era de uma tia que faleceu a um
tempo atrás, e que deixou pra ela, já que não tinha filhos. Ficamos em
silêncio.
Já passava da uma da
manhã e eu tentava medir a minha sobriedade, pensava que talvez fosse melhor eu
parar de beber.
Ela entrou na cozinha
e colocou uma pizza congelada no forno elétrico, era possível ver uma tatuagem
na nuca, mas que não consegui identificar o que era. Levantei e fui ao
banheiro, molhei o rosto e fiz um gargarejo, como se aquilo fosse ajudar em
alguma coisa. Quando saí ela estava ligando um aparelho de som antigo, colocou
um CD do ABBA e deu uma gargalhada, eu não entendi, mas achei aquela situação
engraçada.
Paramos de fumar e
ficamos sentados no sofá, cada um em um canto, mantendo uma distância
confortável entre nós.
O papo rolou até umas
quatro da manhã. Estávamos visivelmente bêbados, mas não estávamos
cansados.
Ela veio até minha
direção e me beijou.
Obviamente que eu
esperava que aquilo fosse acontecer, mas lá pelas duas da manhã já havia
deixado de acreditar nessa possibilidade.
Fomos para o quarto,
e entre beijos e carícias acabamos dormindo.
Lá pelas onze da
manhã ela me acorda, me beija novamente e me chama pra tomar café. levanto meio
perdido, tomo um copo de água e meço os possíveis estragos da ressaca.
Antes do café resolvo
tomar um banho. O álcool que transpira por cada poro do meu corpo aos poucos
evapora na água quente.
Me enxugo, coloco
minha roupa, e vou até a cozinha pra tomar meu café.
Ainda não deu meio dia, mas já estou apaixonado outra vez.