quinta-feira, 29 de maio de 2025

Capítulo 18

 

De cabelos brancos e os olhos vermelhos, molhados ainda com as lagrimas da saudades, nós nos olhamos. Não era um sentimento que tínhamos experimentados antes, e como tudo que era novo, se misturava a sensação de estranheza. Olhei novamente aquela mulher. Minha mãe. Não existia mais o passado dentro de mim, e para ela o sentimento parecia ser o mesmo.

-Eu sempre quis teu abraço, mãe!

-Eu sei meu filho… eu to aqui agora.

Nossos abraços eram eternos, misturando choro e sorriso, e a euforia de reconhecer aquela mulher como minha mãe.

Ela sentou rápido na cedeira, e pediu um copo d’água. As mãos trêmulas seguravam o copo com dificuldade, e as respirações profundas mostravam a ansiedade que tomava conta do ambiente. Carol, mesmo emocionada com tudo que acontecia, olhou nos olhos de sua sogra, e falou:

-A senhora não vá me passar mal agora não, tem alguém que precisa muito do seu colo.

Minha mãe abriu um sorriso de orelha a orelha, respirou fundo, e balançou a cabeça como se sinalizasse que estava tudo bem.

Seu sorriso largo e feliz me remetia a saudade,a vontade de ver aquela mulher mais alegre mais vezes. Tinha um milhão de perguntas para fazer, mas aquele não era o momento. Estávamos prestes a começar uma nova história, e por bem decidi deixar o passado para outro momento. Éramos uma família, e esse pensamento tomava conda de minha cabeça agora.

Carol entrou em direção ao quarto, e minha mãe já estava em pé novamente. Nos olhávamos entre sorrisos, e aguardávamos para saber como seria aquele momento.

Alba saiu falante dentro do quarto, fazendo inúmeros sons e rindo até para o vento. Aquela energia se transformou ao ver minha mãe. Seus olhinhos pequenos miraram os olhos da avó, e reinou um silêncio. Minha mãe esticou os braços, e sem pensar duas vezes Alba estava no colo da avó. Ela olhava cada detalhe daquela mulher desconhecida, as mãozinhas se perdiam entre o rosto e cabelo, entre olhos e olhares, entre almas que se reencontravam.

Os dois sorrisos brotaram aos mesmo tempo, se fundindo num abraço apertado. Alba repousava sua cabeça no colo de minha mãe, e reconhecia sua avó. Era um nova historia, e agora podíamos seguir em frente.

Os olhares, as lágrimas, os novos amores. A conversa foi se desenrolando durante o dia, e aos poucos foi tomando os rumos do passado. Minha mãe parecia receosa com as perguntas, mas aceitou de coração aberto minhas questões e trouxe a tona muitas das coisas que não fazia ideia.

Ricardo não era filho do mesmo pai que eu. Minha mãe estava grávida quando conheceu meu pai. Aquela informação me chocou bastante, me dando novos olhares a todos os problemas que havia enfrentado na infância, e trazendo no meu coração, novos sentimentos. Era claro que havia uma predileção pelo meu irmão, por parte de minha mãe, e eu não conseguia entender o motivo. Mas depois de muita insistência, fomos para outro cômodo, e minha mãe começou a falar:

-Seu pai sabia que o Ricardo não era filho dele, eu havia engravidado de um namorado que tinha, e seu pai sempre quis ficar comigo. Quando esse meu namorado da época sumiu, eu fiquei muito abalada. Teu irmão nem sonha que isso aconteceu, e quero que você não fale nada também! Ta bom?

-Sim mãe, mas não entendi onde eu entro nessa história…

-Calma que eu vou chegar lá.

-Tudo bem.

Minha mãe continuou sua narrativa sobre aquele período, falou que pensou em tirar a criança, mas se surpreendeu quando meu pai bateu no portão dela. Falou que ele estava todo arrumado, e que pediu para falar um assunto sério.

-Olha, eu sei que tu tá gravida do Otávio, e ele não quer nada contigo, e sei também que tu não falou nada pra tua família. Se Você deixar eu entrar e assumir essa criança, prometo que tu nunca vai sofrer outra vez.

Minha mãe ficou parada na frente do portão, sem saber o que fazer. O coração dela dizia que não era aquilo que ela queria, mas a razão falou mais alto. Meu pai entrou de mãos dadas com ela, como se fossem namorados. Falou que já namoravam faz tempo e estava ali pra falar que ela estava grávida. Foi tudo um alvoroço. Muita briga, muito choro, e minha mãe saiu de mala e cuia para a casa do novo namorado.

Eu estava atordoado com aquela história, como tudo aquilo tinha acontecido, e como minha mãe nunca tinha esboçado que tinha passado por aquelas coisas. Por que ela não falou comigo antes? Por que não havia contado sobre todo sofrimento que tinha passado.

Continuando sua história, ela falou que demorou pra se adaptar a tudo, e que o começo foi bem difícil, mas que meu pai foi muito bom e que ela foi se apaixonando aos poucos. Depois que Ricardo nasceu, eles continuaram um tempo na casa do meu avô paterno, mas logo meu pai deu um jeito de conseguir um trabalho melhor e mudar, para onde seria nossa casa na futuro.

O tempo foi só melhorando a relação, até o dia que meu pai atendeu uma ligação. Era Otávio procurando minha mãe e o filho, ele sabia o endereço de casa, e estava indo pra lá. Minha mãe fala que naquele dia meu pai falou que se ele visse a criança ele mataria todo mundo, que aquilo não era justo com ele, depois de tudo que ele fez. Minha mãe ficou apavorada, já que até o momento nunca havia visto meu pai daquele jeito, tão transtornado.

Quando Otávio bateu na porta foi aquela briga generalizada, e todos os vizinhos foram pra rua tentar apartar a briga, e por pouco meu pai não mata o homem na porrada. Mesmo depois de muita conversa com minha mãe, aquela raiva não passava, e começou a piorar bastante quando ele descobriu que minha mãe estava grávida, dessa vez de mim.

A vida começou a se tornar um inferno, e as acusações que minha mãe tinha traído meu pai com aquele homem só pra ter mais um filho com ele, tomaram a cabeça do meu pai. Agora ele tinha dado pra beber bastante, e cada vez foi ficando mais violento. Minha mãe lutava para manter a gravidez, e mesmo afirmando que nunca faria aquilo com meu pai, se tornou impossível dele voltar ao normal.

Eu ficava em choque com cada palavra que saia da boca dela, pensando nas vezes que apanhei de graça, ou na forma que minha mãe deixou de me amar, para mostrar para meu pai que o importante era ele e não eu. Pensava nas inúmeras brigas que tinham acontecido dentro de casa. Uma mulher com medo, uma mãe, alguém dividida entre amar o filho e reconquistar a sanidade do homem que tanto amava. Eram muitas dentro de uma só.

-Preciso respirar um pouco. Mas saiba que eu não estou com raiva da senhora.

-Você tem o tempo que precisar, meu filho.

Fui até a geladeira e peguei uma cerveja. Minha mãe foi ficar mais tempo com a neta. Meu olhar agora revivia o meu passado inteiro. Mas como havia falado para mim, esse é um novo capítulo.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Capítulo 17

 Carol ficou surpresa com minha decisão, não imaginava o que havia mudado minha cabeça de uma hora pra outra, mas podia perceber que mesmo antes dela falar alguma coisa, ela já ma apoiava.

-Sei que você tomou a melhor decisão. O que você precisar de mim, vou estar aqui.

Era claro que meu semblante mostrava uma mistura de preocupação, ansiedade e alegria, mas no fundo eu parecia saber o que estava fazendo. A conversa com minha mãe rendeu bastantes reflexões sobre minha vida, e nossas escolhas. Ela perguntou tantas coisas, que eu me perdia nas respostas, tentando ser o mais objetivo possível, mas sendo afetuoso e respeitoso de certa forma. Foi preciso eu dar uma pausa na conversa, e marcar um dia antes do aniversário de um ano de Alba, para que pudéssemos colocar tudo em panos limpos.

Marcamos um almoço no sábado, e resolvi fazer um churrasco para recebê-la. Ao perguntar do meu pai, ela apenas falou que estava bem, mas falou que ele não iria, resolvi não insistir. 

Falei sobre as regras da casa para não causar nenhum tipo de constrangimento, falando sobre a importância do distanciamento, de trazer uma roupa para trocar e sobre o uso de máscaras. Ouvi minha mãe ser compreensiva, e dizer para que eu não me preocupasse, pois ela faria tudo certinho. Confesso que fiquei surpreso com a forma branda de falar, a voz calma e suave, nada parecia com o timbre agressivo que me acostumei a ouvir.

No sábado que antecedia, acordamos todos um pouco mais tarde, e percebi que no meu celular haviam algumas mensagens de minha mãe. Ao abrir a conversa, notei que eram fotos de roupas de criança, um conjuntinho todo branco. Fiquei sorrindo para o celular, pensando o quanto aquilo ia ser realmente bom, mas não me deixei levar pelos pensamentos ruins que começavam a surgir na minha mente.

No sábado a noite já estava tudo organizado. Algumas cervejas na geladeira, suco, pudim e salada de batata. No dia seguinte acordei madrugando, organizando tudo que estava ao meu alcance, e deixando a casa mais propícia para um reencontro. As dez, recebi uma mensagem, ela estava saindo de casa, e ia vir de ônibus. Ainda me ofereci para ir buscar, mas ela falou que não queria, falou ainda que se precisava ir  olhando o caminho e pensando. Achei sensato.

Era onze e quinze quando ouvi o barulho de alguém batendo no portão. Meu coração batia forte, meu corpo inteiro suava, e ao ouvir a voz de Dorna Marta, tinha a certeza que não tinha volta. Carol foi abrir o portão, e foi encaminhando minha mãe para o banheiro. Ao me ver, pude sentir a exitação e o medo que habitava nossos corações Ela me olhou e disse: "deixa só eu sair do banheiro que falo com você".

Carol veio me abraçar, me apertou forte e me disse que não precisava ter medo. Respirei fundo, fiquei parado do lado de fora, ouvindo o barulho do chuveiro. Não conseguia pensar em nada, apenas ecoavam os barulhos do local. Dona Roberta ligou o som, colocando um samba antigo, coisa que me fez acordar daquele transe e começar me mexer. Peguei uma cerveja na geladeira e tomei um copo num gole só. Enquanto o gelado ia tomando meu corpo, a calma parecia tomar conta de mim, me fazendo relaxar lentamente.

Ao sai do banheiro pude olhar de perto aquela mulher. Pele negra retinta, olhos fundos e cheios de dores, alta e esguia, não por opção, mas por nunca ter tido a oportunidade de parar para ter uma refeição tranquila. Minha mãe me olhou nos olhos, sorriu como nunca havia feito antes, abriu os braços e me tomou por inteiro. Virei filho pela primeira vez. Pude sentir as lágrimas pingando em minha camisa, se misturando as minhas, que corriam pelo meu rosto. Ao fim do abraço, ela olhou em meus olhos, e professou:

-Não houve um só dia depois que eu perdi você, que eu não tivesse me arrependido profundamente de não ter sido sua mãe. Ainda dá tempo de pedir perdão?



terça-feira, 13 de maio de 2025

Capítulo 16

Acordei as cinco da manhã, o chão frio tocando meus dedos dos pés. Andei em direção ao banheiro, me olhei no espelho, mas não me reconheci. Sentei por uns instantes no bidê, ruminando em minha mente tudo que tinha acontecido comigo nos últimos anos, e como minha vida deu tantas voltas até chegar naquele exato ponto. 

Lembrei das madrugadas acordado bebendo, lembrei dos dias de folia na rua. Lembrei dos vizinhos que me olhavam pelas frestas da janela, e sequer sabem por onde eu ando atualmente. Lembrei dos escritos que me trouxeram até aqui, e que revejo e releio para me lembrar de quem sou.

Levantei. Vesti uma camiseta vermelha, que estava amassada ao lado do travesseiro. O silêncio reinava ao meu redor. Andei descalço até a cozinha, fui até a terceira gaveta do armário, que ficava logo ao lado da geladeira e coloquei a mão bem lá no fundo. Passei pelo fogão, emprestando a caixa de fósforo que alí estava, tão só e desprevenida quanto meus pensamentos soltos.

Abri a porta que dava para o quintal, e o breu se rompia levemente, com os raios laranja forte, de um sol que girava, mas que ainda não se apresentava. o vento frio atravessava a pequena conha que fazia com as mãos, e apagava insistentemente o fósforo. Acendi o cigarro, e traguei fundo aquela fumaça quente, que ardia em minha garganta e me fazia adormecer as pontas dos dedos. 

A sensação de leveza e paz, a mente vazia, o breve suspirar após o primeiro e longo trago. Me deixava levar pela sensação, fazendo minha mente ir numa espécie de transe. Minhas mãos geladas. A culpa de estar ali, quase que escondido começava a chegar, e aumentava a cada respiração mais profunda.

O sol começava a aparecer, e me convidava a estar ali. Fiquei até sentir meu corpo começar a aquecer. Fui até a cozinha e tomei dois copos de água gelada. Ao me dirigir ao banheiro, tirei a roupa na sala e já coloquei na máquina de lavar. No banheiro, sentia a água atravessando meus cabelos e barba, o toque suave e firme me trazia uma sensação de paz e tranquilidade. Os pensamentos que a pouco haviam fugido de minha cabeça turva, começavam a eclodir, me fazendo respirar cada vez mais rápido. As lágrimas que sentia correr dos meus olhos tinham o peso do medo. Escovei os dentes e voltei para a cozinha para preparar o café.

Minha cabeça estava longe quando senti aquele abraço quente tomando conta de mim. Não me virei. Não precisava me virar para sentir que o amor estava ali, e que todas as preocupações, por mais fortes e angustiantes, eram vãs.

Carol. 

O abraço.

Eu já não precisava mais ter medo.

O dia foi melhorando aos poucos, e mesmo naquele silêncio que Carol decidiu preservar por mais tempo, as coisas floriam ao meu redor. Os sorrisos de quem morava em meu peito eram minha força encarnada.

Peguei o telefone, olhei o número de minha mãe, e liguei. A chamada que era apenas o barulho da espera, logo parou. Do outro lado ouvi:

-Alô?

-Mãe?

-....................

-Mãe? É o Ivan.

-....................

-Mãe? A senhora está me ouvindo?

-Oi filho.

A voz de minha mãe. A quanto tempo eu não ouvia a voz dela? Quanto tempo a gente passou sem pensar um no outro? Eram tantas perguntas que me tomavam, que eu não sabia o que pensar.

-Oi filho, a mãe tá aqui. Ta tudo bem?

-Oi mãe, to sim, tenho uma coisa pra te contar.

- O que é meu filho? A mãe tá com saudades de você. Vem me ver meu filho?

-Eu casei mãe, e agora eu sou pai também. Acho que preciso lhe ver.

O silêncio durou pouco. O choro que ouvia do outro lado da linha me deixava afito, e de alguma forma me emocionava também. Mesmo com todo o passado que havia me machucado, eu ainda sentia algo, me sentia filho.

Era um novo dia, um novo capítulo se formando naquele instante. Decidi que não precisava morar na dor do meu passado, e que podia seguir em frente. Era por mim, mas principalmente pela minha filha que fazia aquelas coisas. Era minha família, do meu jeito, com todas as coisas que me faziam sentir alegre que me impulsionava buscar curar as feridas. Era preciso recomeçar.