Carol ficou surpresa com minha decisão, não imaginava o que havia mudado minha cabeça de uma hora pra outra, mas podia perceber que mesmo antes dela falar alguma coisa, ela já ma apoiava.
-Sei que você tomou a melhor decisão. O que você precisar de mim, vou estar aqui.
Era claro que meu semblante mostrava uma mistura de preocupação, ansiedade e alegria, mas no fundo eu parecia saber o que estava fazendo. A conversa com minha mãe rendeu bastantes reflexões sobre minha vida, e nossas escolhas. Ela perguntou tantas coisas, que eu me perdia nas respostas, tentando ser o mais objetivo possível, mas sendo afetuoso e respeitoso de certa forma. Foi preciso eu dar uma pausa na conversa, e marcar um dia antes do aniversário de um ano de Alba, para que pudéssemos colocar tudo em panos limpos.
Marcamos um almoço no sábado, e resolvi fazer um churrasco para recebê-la. Ao perguntar do meu pai, ela apenas falou que estava bem, mas falou que ele não iria, resolvi não insistir.
Falei sobre as regras da casa para não causar nenhum tipo de constrangimento, falando sobre a importância do distanciamento, de trazer uma roupa para trocar e sobre o uso de máscaras. Ouvi minha mãe ser compreensiva, e dizer para que eu não me preocupasse, pois ela faria tudo certinho. Confesso que fiquei surpreso com a forma branda de falar, a voz calma e suave, nada parecia com o timbre agressivo que me acostumei a ouvir.
No sábado que antecedia, acordamos todos um pouco mais tarde, e percebi que no meu celular haviam algumas mensagens de minha mãe. Ao abrir a conversa, notei que eram fotos de roupas de criança, um conjuntinho todo branco. Fiquei sorrindo para o celular, pensando o quanto aquilo ia ser realmente bom, mas não me deixei levar pelos pensamentos ruins que começavam a surgir na minha mente.
No sábado a noite já estava tudo organizado. Algumas cervejas na geladeira, suco, pudim e salada de batata. No dia seguinte acordei madrugando, organizando tudo que estava ao meu alcance, e deixando a casa mais propícia para um reencontro. As dez, recebi uma mensagem, ela estava saindo de casa, e ia vir de ônibus. Ainda me ofereci para ir buscar, mas ela falou que não queria, falou ainda que se precisava ir olhando o caminho e pensando. Achei sensato.
Era onze e quinze quando ouvi o barulho de alguém batendo no portão. Meu coração batia forte, meu corpo inteiro suava, e ao ouvir a voz de Dorna Marta, tinha a certeza que não tinha volta. Carol foi abrir o portão, e foi encaminhando minha mãe para o banheiro. Ao me ver, pude sentir a exitação e o medo que habitava nossos corações Ela me olhou e disse: "deixa só eu sair do banheiro que falo com você".
Carol veio me abraçar, me apertou forte e me disse que não precisava ter medo. Respirei fundo, fiquei parado do lado de fora, ouvindo o barulho do chuveiro. Não conseguia pensar em nada, apenas ecoavam os barulhos do local. Dona Roberta ligou o som, colocando um samba antigo, coisa que me fez acordar daquele transe e começar me mexer. Peguei uma cerveja na geladeira e tomei um copo num gole só. Enquanto o gelado ia tomando meu corpo, a calma parecia tomar conta de mim, me fazendo relaxar lentamente.
Ao sai do banheiro pude olhar de perto aquela mulher. Pele negra retinta, olhos fundos e cheios de dores, alta e esguia, não por opção, mas por nunca ter tido a oportunidade de parar para ter uma refeição tranquila. Minha mãe me olhou nos olhos, sorriu como nunca havia feito antes, abriu os braços e me tomou por inteiro. Virei filho pela primeira vez. Pude sentir as lágrimas pingando em minha camisa, se misturando as minhas, que corriam pelo meu rosto. Ao fim do abraço, ela olhou em meus olhos, e professou:
-Não houve um só dia depois que eu perdi você, que eu não tivesse me arrependido profundamente de não ter sido sua mãe. Ainda dá tempo de pedir perdão?
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