De cabelos brancos e os olhos vermelhos, molhados ainda com as lagrimas da saudades, nós nos olhamos. Não era um sentimento que tínhamos experimentados antes, e como tudo que era novo, se misturava a sensação de estranheza. Olhei novamente aquela mulher. Minha mãe. Não existia mais o passado dentro de mim, e para ela o sentimento parecia ser o mesmo.
-Eu sempre quis teu abraço, mãe!
-Eu sei meu filho… eu to aqui agora.
Nossos abraços eram eternos, misturando choro e sorriso, e a euforia de reconhecer aquela mulher como minha mãe.
Ela sentou rápido na cedeira, e pediu um copo d’água. As mãos trêmulas seguravam o copo com dificuldade, e as respirações profundas mostravam a ansiedade que tomava conta do ambiente. Carol, mesmo emocionada com tudo que acontecia, olhou nos olhos de sua sogra, e falou:
-A senhora não vá me passar mal agora não, tem alguém que precisa muito do seu colo.
Minha mãe abriu um sorriso de orelha a orelha, respirou fundo, e balançou a cabeça como se sinalizasse que estava tudo bem.
Seu sorriso largo e feliz me remetia a saudade,a vontade de ver aquela mulher mais alegre mais vezes. Tinha um milhão de perguntas para fazer, mas aquele não era o momento. Estávamos prestes a começar uma nova história, e por bem decidi deixar o passado para outro momento. Éramos uma família, e esse pensamento tomava conda de minha cabeça agora.
Carol entrou em direção ao quarto, e minha mãe já estava em pé novamente. Nos olhávamos entre sorrisos, e aguardávamos para saber como seria aquele momento.
Alba saiu falante dentro do quarto, fazendo inúmeros sons e rindo até para o vento. Aquela energia se transformou ao ver minha mãe. Seus olhinhos pequenos miraram os olhos da avó, e reinou um silêncio. Minha mãe esticou os braços, e sem pensar duas vezes Alba estava no colo da avó. Ela olhava cada detalhe daquela mulher desconhecida, as mãozinhas se perdiam entre o rosto e cabelo, entre olhos e olhares, entre almas que se reencontravam.
Os dois sorrisos brotaram aos mesmo tempo, se fundindo num abraço apertado. Alba repousava sua cabeça no colo de minha mãe, e reconhecia sua avó. Era um nova historia, e agora podíamos seguir em frente.
Os olhares, as lágrimas, os novos amores. A conversa foi se desenrolando durante o dia, e aos poucos foi tomando os rumos do passado. Minha mãe parecia receosa com as perguntas, mas aceitou de coração aberto minhas questões e trouxe a tona muitas das coisas que não fazia ideia.
Ricardo não era filho do mesmo pai que eu. Minha mãe estava grávida quando conheceu meu pai. Aquela informação me chocou bastante, me dando novos olhares a todos os problemas que havia enfrentado na infância, e trazendo no meu coração, novos sentimentos. Era claro que havia uma predileção pelo meu irmão, por parte de minha mãe, e eu não conseguia entender o motivo. Mas depois de muita insistência, fomos para outro cômodo, e minha mãe começou a falar:
-Seu pai sabia que o Ricardo não era filho dele, eu havia engravidado de um namorado que tinha, e seu pai sempre quis ficar comigo. Quando esse meu namorado da época sumiu, eu fiquei muito abalada. Teu irmão nem sonha que isso aconteceu, e quero que você não fale nada também! Ta bom?
-Sim mãe, mas não entendi onde eu entro nessa história…
-Calma que eu vou chegar lá.
-Tudo bem.
Minha mãe continuou sua narrativa sobre aquele período, falou que pensou em tirar a criança, mas se surpreendeu quando meu pai bateu no portão dela. Falou que ele estava todo arrumado, e que pediu para falar um assunto sério.
-Olha, eu sei que tu tá gravida do Otávio, e ele não quer nada contigo, e sei também que tu não falou nada pra tua família. Se Você deixar eu entrar e assumir essa criança, prometo que tu nunca vai sofrer outra vez.
Minha mãe ficou parada na frente do portão, sem saber o que fazer. O coração dela dizia que não era aquilo que ela queria, mas a razão falou mais alto. Meu pai entrou de mãos dadas com ela, como se fossem namorados. Falou que já namoravam faz tempo e estava ali pra falar que ela estava grávida. Foi tudo um alvoroço. Muita briga, muito choro, e minha mãe saiu de mala e cuia para a casa do novo namorado.
Eu estava atordoado com aquela história, como tudo aquilo tinha acontecido, e como minha mãe nunca tinha esboçado que tinha passado por aquelas coisas. Por que ela não falou comigo antes? Por que não havia contado sobre todo sofrimento que tinha passado.
Continuando sua história, ela falou que demorou pra se adaptar a tudo, e que o começo foi bem difícil, mas que meu pai foi muito bom e que ela foi se apaixonando aos poucos. Depois que Ricardo nasceu, eles continuaram um tempo na casa do meu avô paterno, mas logo meu pai deu um jeito de conseguir um trabalho melhor e mudar, para onde seria nossa casa na futuro.
O tempo foi só melhorando a relação, até o dia que meu pai atendeu uma ligação. Era Otávio procurando minha mãe e o filho, ele sabia o endereço de casa, e estava indo pra lá. Minha mãe fala que naquele dia meu pai falou que se ele visse a criança ele mataria todo mundo, que aquilo não era justo com ele, depois de tudo que ele fez. Minha mãe ficou apavorada, já que até o momento nunca havia visto meu pai daquele jeito, tão transtornado.
Quando Otávio bateu na porta foi aquela briga generalizada, e todos os vizinhos foram pra rua tentar apartar a briga, e por pouco meu pai não mata o homem na porrada. Mesmo depois de muita conversa com minha mãe, aquela raiva não passava, e começou a piorar bastante quando ele descobriu que minha mãe estava grávida, dessa vez de mim.
A vida começou a se tornar um inferno, e as acusações que minha mãe tinha traído meu pai com aquele homem só pra ter mais um filho com ele, tomaram a cabeça do meu pai. Agora ele tinha dado pra beber bastante, e cada vez foi ficando mais violento. Minha mãe lutava para manter a gravidez, e mesmo afirmando que nunca faria aquilo com meu pai, se tornou impossível dele voltar ao normal.
Eu ficava em choque com cada palavra que saia da boca dela, pensando nas vezes que apanhei de graça, ou na forma que minha mãe deixou de me amar, para mostrar para meu pai que o importante era ele e não eu. Pensava nas inúmeras brigas que tinham acontecido dentro de casa. Uma mulher com medo, uma mãe, alguém dividida entre amar o filho e reconquistar a sanidade do homem que tanto amava. Eram muitas dentro de uma só.
-Preciso respirar um pouco. Mas saiba que eu não estou com raiva da senhora.
-Você tem o tempo que precisar, meu filho.
Fui até a geladeira e peguei uma cerveja. Minha mãe foi ficar mais tempo com a neta. Meu olhar agora revivia o meu passado inteiro. Mas como havia falado para mim, esse é um novo capítulo.
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