segunda-feira, 31 de maio de 2021

Escrita lúcida

Sentado na mesa da sala tento lembrar quantos dias fazem que estou preso nesse sentimento. Os dias passam por mim e eu não me sinto capaz de fazer as mudanças necessárias, é como se de uma hora pra outra tudo tivesse tomado uma dimensão que eu não sou mais capaz de lidar.

Não foi de uma hora pra outra.

O suicídio por remédios me pareceu uma boa opção, mas não sei se Deus tem planos secretos que ainda não descobri, ou se eu sou incapaz de tomar a dosagem correta, mas não deu muito certo.

As dores que sinto são brutais.

A saudade, a ânsia, a prisão que domina minha mente e minha alma, alimentam em mim um monstro que me suga as esperanças, que outrora foram abundantes, mas hoje são parcas.

Digito freneticamente em frente ao computador, e a luz que ele projeta, é de um branco hospitalar me assombra.

Não consigo parar de pensar, não consigo parar de pensar no que teria acontecido. 

Minha família ficaria triste, minha mãe talvez não aguentasse, mas não lembrei disso na hora.

Não comentei com ninguém o que aconteceu, mas comentar essas coisas no meio de uma pandemia não me parece muito inteligente, nem muito saudável. 

Já estamos todos cansados de esperar o pior, e qualquer vislumbre de felicidade já nos torna mais gratos por alguma coisa.

Estou cansado, mas depois dessa sexta, e desses quase dois anos de prisão pandêmica/domiciliar, decidi que quero viver.

A partir de hoje as escritas vão se tornar mais frequentes, mesmo que sejam pobres e sem tanta dor, como está sendo esta.

Esse não é um desabafo de alguém que quase morreu,  e que não quer continuar. Tá mais pra um golpe na própria cara, pra me lembrar que eu não posso ceder a essa vida mizerável que estava levando. 

Agora é, literalmente, tudo ou nada.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Mudança

Do alto dos sonhos existe uma mulher que eu observo.
Ao meu lado, o oceano monstruoso de criaturas.
Paramentado de de uma carapaça grossa e metálica tento respirar.
De caminhos que vão e voltam, nossos olhares se cruzam
Eu te olho como és, mas ao me ver, tu observa apenas a armadura.
Aos poucos subo, despindo, à revelia do medo, todo o paramento que me cobre.
Hoje me dispo por completo, e podes me ver por inteiro,
exposto; e mesmo que o medo persista, me mostro.
O ar dói
O sol que toca minha pele, dói
Amar não.
Ao decidires ficar, as dores do medo se vão,
E no próximo mergulho, já não irei tão fundo.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Conheci Di Melo

Acordei as 6:20, o despertador dessa vez foi o susto de um sonho confuso, acho que tinha algo relacionado com um cachorro, ou alguma coisa assim. Minha companheira que acorda geralmente de madrugada perdeu o horário, dando um pulo repentino da cama. Corremos para o metrô, voltei.

No fogão de quatro bocas, equilibrei uma leiteira de fundo semi-reto, e dentro dela uns quatro dedos de água pro café. 

As notícias ecoando no jornal são as mesmas, os fascistas nas praças, as mãe solteiras já estão com as panelas no fogo; o pai bêbado, saiu cedo pro trabalho, talvez hoje ele beba mais e não volte pra casa, mesmo assim tenho que trabalhar.

Já passou das nove, o café já não está tão quente, mesmo assim eu tomo. Acho que me acostumei a viver, mesmo que ainda seja cedo pra dizer isso.

Hoje ouvi Di Melo pela primeira vez.

Acordei atrasado

Fui até  beira do abismo

olhei duas veze antes de me jogar

mas antes do susto, a queda

seca, áspera


A boca que guardava o grito não teve tempo 

guardou consigo o nó

calado, levantei devagar

olhei pra cima, mas não voltei


No breu, o medo era companheiro fiel

a insegurança me segurava a mãe esquerda

na outra, abria caminho em meio ao desconhecido

já é segunda outra vez, e o café tem que ser amargo

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Longínqua

Na juventude pensamos que aos trinta anos tudo estará magicamente resolvido. Lembro quando me perguntaram lá pelos sete ou oito anos o que eu queria ser quando crescer, acho que respondi advogado; um exemplo clássico do filho que se espelha em seu pai.
Os anos se passaram, o segundo grau também e enfim a universidade. Um sonho familiar realizado. Direito? Não! Pedagogia!
Quatro anos e meios pra me formar e finalmente exibir meu diploma aos quatro ventos. Exibi no shopping que eu trabalhava incessantemente, perdendo os melhores anos da minha juventude.
De lá pra cá a vida, que continua cagando pro meu planejamento me levou por outros caminhos. E acho que aprendi algumas coisas.
Sinto falta do tempo onde minha única preocupação era: Será que vou chegar a tempo de assistir TV colosso?