terça-feira, 13 de maio de 2025

Capítulo 16

Acordei as cinco da manhã, o chão frio tocando meus dedos dos pés. Andei em direção ao banheiro, me olhei no espelho, mas não me reconheci. Sentei por uns instantes no bidê, ruminando em minha mente tudo que tinha acontecido comigo nos últimos anos, e como minha vida deu tantas voltas até chegar naquele exato ponto. 

Lembrei das madrugadas acordado bebendo, lembrei dos dias de folia na rua. Lembrei dos vizinhos que me olhavam pelas frestas da janela, e sequer sabem por onde eu ando atualmente. Lembrei dos escritos que me trouxeram até aqui, e que revejo e releio para me lembrar de quem sou.

Levantei. Vesti uma camiseta vermelha, que estava amassada ao lado do travesseiro. O silêncio reinava ao meu redor. Andei descalço até a cozinha, fui até a terceira gaveta do armário, que ficava logo ao lado da geladeira e coloquei a mão bem lá no fundo. Passei pelo fogão, emprestando a caixa de fósforo que alí estava, tão só e desprevenida quanto meus pensamentos soltos.

Abri a porta que dava para o quintal, e o breu se rompia levemente, com os raios laranja forte, de um sol que girava, mas que ainda não se apresentava. o vento frio atravessava a pequena conha que fazia com as mãos, e apagava insistentemente o fósforo. Acendi o cigarro, e traguei fundo aquela fumaça quente, que ardia em minha garganta e me fazia adormecer as pontas dos dedos. 

A sensação de leveza e paz, a mente vazia, o breve suspirar após o primeiro e longo trago. Me deixava levar pela sensação, fazendo minha mente ir numa espécie de transe. Minhas mãos geladas. A culpa de estar ali, quase que escondido começava a chegar, e aumentava a cada respiração mais profunda.

O sol começava a aparecer, e me convidava a estar ali. Fiquei até sentir meu corpo começar a aquecer. Fui até a cozinha e tomei dois copos de água gelada. Ao me dirigir ao banheiro, tirei a roupa na sala e já coloquei na máquina de lavar. No banheiro, sentia a água atravessando meus cabelos e barba, o toque suave e firme me trazia uma sensação de paz e tranquilidade. Os pensamentos que a pouco haviam fugido de minha cabeça turva, começavam a eclodir, me fazendo respirar cada vez mais rápido. As lágrimas que sentia correr dos meus olhos tinham o peso do medo. Escovei os dentes e voltei para a cozinha para preparar o café.

Minha cabeça estava longe quando senti aquele abraço quente tomando conta de mim. Não me virei. Não precisava me virar para sentir que o amor estava ali, e que todas as preocupações, por mais fortes e angustiantes, eram vãs.

Carol. 

O abraço.

Eu já não precisava mais ter medo.

O dia foi melhorando aos poucos, e mesmo naquele silêncio que Carol decidiu preservar por mais tempo, as coisas floriam ao meu redor. Os sorrisos de quem morava em meu peito eram minha força encarnada.

Peguei o telefone, olhei o número de minha mãe, e liguei. A chamada que era apenas o barulho da espera, logo parou. Do outro lado ouvi:

-Alô?

-Mãe?

-....................

-Mãe? É o Ivan.

-....................

-Mãe? A senhora está me ouvindo?

-Oi filho.

A voz de minha mãe. A quanto tempo eu não ouvia a voz dela? Quanto tempo a gente passou sem pensar um no outro? Eram tantas perguntas que me tomavam, que eu não sabia o que pensar.

-Oi filho, a mãe tá aqui. Ta tudo bem?

-Oi mãe, to sim, tenho uma coisa pra te contar.

- O que é meu filho? A mãe tá com saudades de você. Vem me ver meu filho?

-Eu casei mãe, e agora eu sou pai também. Acho que preciso lhe ver.

O silêncio durou pouco. O choro que ouvia do outro lado da linha me deixava afito, e de alguma forma me emocionava também. Mesmo com todo o passado que havia me machucado, eu ainda sentia algo, me sentia filho.

Era um novo dia, um novo capítulo se formando naquele instante. Decidi que não precisava morar na dor do meu passado, e que podia seguir em frente. Era por mim, mas principalmente pela minha filha que fazia aquelas coisas. Era minha família, do meu jeito, com todas as coisas que me faziam sentir alegre que me impulsionava buscar curar as feridas. Era preciso recomeçar.


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