quarta-feira, 16 de junho de 2021

Sobre descobertas (capítlo 3)

Era por volta das nove da noite quando o telefone tocou. Fazia tempo que eu não recebia uma ligação de tão longe. Hesitei por uns segundos antes de atender, e quando ouvi o choro do outro lado do telefone já sabia o que era.

Faziam anos que não falava com meu pai, e desde a minha infância ele não era alguém tão presente. Poucos encontros, quase nenhuma palavra trocada, e nenhum abraço.

Uma das filhas dele me ligou pra dar o aviso. Não consegui chorar, mas aquela notícia me pegou de um jeito estranho.

Minha namorada talvez tenha sentido mais do que eu, e me abraçou forte quando falei pra ela. As lagrimas que escorriam do olhos dela me comoviam bem mais.

Não fui ao velório, e sentia que daquele instante pra frente as coisas mudariam de alguma forma. O mais triste foi dar a notícia pra minha mãe, que ficou em silêncio, e me disse que estava com saudades.

Já faziam dois anos desde o meu casamento, e entre brigas, noites de amor, e muita conversa, as coisas chegaram num ponto que tudo parecia mais seguro e tranquilo; sentia que faltava alguma coisa.

A casa que com o tempo foi se alterando para um estilo nosso, e que agora abrigava um gato velho e preguiçoso, começava a ficar num tom de cinza, um tom de cinza claro, morno e que me causava uma certa angústia.

Ainda amava minha companheira, e ela me amava, mas a rotina foi um golpe injusto que eu não havia calculado com muita clareza, e mesmo sabendo que ela iria chegar não me preparei como devia.

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