Foram semanas ouvindo pequenos recortes, pequenas histórias fracionadas, como num diário que eu só poderia acessar uma página de cada vez, e quase sempre sem uma ordem definida. Puxei assunto novamente sobre o local para onde ela foi levada, ela me olhou, ficou com um ar pensativo, tentando achar as palavras certas, e disse:
-Me paga uma cerveja que eu termino de te contar minha história, mas sem tantas partes triste dessa vez, acho que já ficou sofrido demais da ultima.- Ela deu um sorrisinho, e continuamos trabalhando e falando outras coisas. Nesse dia, lembro que saímos mais tarde do que nosso horário, tentando dar conta do trabalho da semana, para tentar uma folga.
Saímos, e fomos ao mesmo boteco que bebemos da ultima vez, mas ninguem topou nossa companhia. Depois do primeiro gole, Teresa solta:
- Olha, antes de continuar essa nossa conversa, quero deixar bem claro que entre eu e você vai ficar só na amizade tá? Você é gatinho, interessante, e até pensei na hipótese de te dar um beijinho, mas lembrei que temos os mesmos gostos, então acho que é isso, Tranquilo?- Eu fiquei sem responder por alguns segundos, pensando na melhor forma de dizer que estava tudo bem, e apesar de ter rolado um interesse no primeiro momento, eu estava achando que a amizade era maior.
-Tranquilo, acho que tinha sacado isso mesmo.
-Tá vendo só, um fofo. Mas deixa eu te contar o resto da história.
Viramos mais dois copos de cerveja de uma vez, e ela comecoou a me falar. Foram três anos longe de casa, até que a diretora da sua antiga escola apareceu para saber o que estava acontecendo. Foram horas de conversa, e ao final do período de visitas a diretora deu um livro de presente para Teresa, e falou que voltaria alí para ajudar no que fosse necessário. Foi quase um ano de visitas, conhecendo melhor Teresa e seus irmãos. No coração de Teresa morava a possibilidade de ser adotada, mas sabia que a diretora não tinha muitas condições e não poderia adotar a família inteira.
Quase perto do Natal, uma mulher apareceu no abrigo, falando que precisava conversar com Teresa e seus irmãos. Ela se dirigiu até eles, que foram para uma sala separada para conversar. A notícia era que a mãe e o pai tinham sido assassinados por conta de dívidas de drogas, e que não havia outro parente vivo além daqueles que estavam alí. Teresa ficou em choque, e o choro tomou conta do ambiente.
Duas semanas se passaram e a Diretora da escola retornou com uma amiga, apresentou ela para teresa e seus irmãos. O olho da mulher brilhava, como se aquelas crianças representassem algo mais, mais do que simples objetos esquecidos pelo tempo.
O tempo passava diferente naquele lugar, e mesmo com as novas visitas, Teresa não vislumbrava um futuro. Certo dia ouviu a amiga da diretora falando, "os três menores eu ainda consigo, mas a grandona não". Aquelas palavras atravessaram seu peito, e jogaram uma pá de cal em todo e qualquer sentimento bom que poderia morar dentro dela. Teresa disse que respirou fundo, foi até a mulher e pediu para que levasse os irmãos, ela já sabia se virar mas não queria o mesmo destino pra eles.
O processo de adoção foi rápido, e em poucos meses Teresa estava sozinha mais uma vez. Sem pai ou mãe, sem irmãos, sem amigos. O mundo havia virado as costas para ela. Naquele dia Teresa entrou eescondido na enfermaria e pegou uma cartela de remédios que sabia que era pra fazer as crianças dormirem, quando davam muito trabalho. Ela esperou todo mundo dormir e tirou do bolso aquela pequena cartela. Foram horas tentando criar coragem para tomar e acabar de uma vez com tudo. Teresa, de tanto pensar em partir, acabou dormindo. Na manhã seguinte acordou assustada, pensando que tinha tomado os remédios e que havia morrido. Foi tocando os braços e pernas, tocando o rosto e o cabelo, e em cada toque ela se sentia cada vez mais viva. Seu sorriso tomou conta do seu rosto, e ela resolveu mudar drasticamente.
Teresa nunca foi adotada, e as visitas pararam de chegar. Quando completou quinze anos, pediu para uma pessoa do abrigo lhe arranjar um emprego. Quando questionada, disse que podia ser no abrigo, ela podia fazer de tudo um pouco, mas que queria um salário que iria usar quando completasse dezoito anos. A diretora do abrigo perguntou:
-E se você for adotada? Como vamos explicar que estáva trabalhando aqui? Como vamos exolicar que você tem dinheiro porque trabalhava?
-Diretora, vamos fazer uma aposta. A senhora me paga um salário, mas ao invés de me dar o dinheiro a senhora deposita numa conta e me dá um comprovante. A gente assina um papel agora, que a senhora vai guardar, só por formalidade, e se alguem me adotar antes de eu completar os dezoito, a senhora fica com todo o dinheiiro. Combinado?
As duas apertaram as mãos, e isso foi feito, ou quase isso. Teresa trabalhava sempre que não tinha alguma atividade obrigatória, e recebia um valor específico para cada tarefa, que ficava guardado em uma conta. Teresa não tinha planos de ser adotada, e aos poucos foi sendo uma espécie de organizadora de tudo. Sabia o nome de cada criança, qualidades que ela mesmo inventava para apresentar as famílias, e quando perguntavam sobre ela, falava que fazia trabalho voluntário, que seu sonho era ser professora, ou algo assim. Foi assim que Teresa saiu com o bolso cheio de dinheiro, e amizades espalhadas por todos os lugares que passava.
Quando saiu do abrigo a primeira coisa que fez foi alugar um quartinho mobiliado, e procurar emprego. Na verdade, aquele tinha sido o primeiro emprego real dela, e quando nos conhecemos, só fazia três meses que ela tinha saído do abrigo.
Eu fiquei incrédulo com toda aquela história, cheia de detalhes e reviravoltas. Teresa ria, mais prá lá do que pra cá. Ao pedir e finalizar a conta, Teresa virou pra mim e perguntou:
-Acho que moro longe, tem sofá na tua casa?
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