Foram semanas que se passaram, e as coisas voltaram a entrar em um caminho tranquilo. No trabalho, nossa equipe conseguiu bater as metas do mês, e tivemos um bom adicional em nossas contas. Estávamos felizes e tranquilos, o que era algo bom, mas que me deixava apreensivo com o que poderia acontecer. Carol insistia para que eu buscasse um psicólogo, para conversar coisas mais profundas e que poderia me trazer mais paz do que eu já estava tendo. Aceitei a sugestão de bom grado, e começaram as longas seções de desabafo e choro.
Me senti estranho no começo, mas depois de um semestre, as consultas ficaram mais leves, o que me ajudou muito com a situação familiar. Foram necessárias muitas sessões para que eu realmente entendesse que nem sempre podemos esperar o melhor do outro, e mesmo eu sabendo disso, ouvir da boca de outra pessoa fez com que meus sentimentos tomassem corpo. Cheguei a levar meus diários pras consultas, o que me deixava extremamente aflito, mas ajudou muito no meu desenvolvimento. Era bom demais estar vivo.
Uma das tarefas que o psicólogo passou para que eu pudesse exercitar minha mente, era arrumar algo que eu achasse interessante. Passei semanas fazendo oficinas de teatro, desenho, pintura e outras mais, mas o que me chamou muita atenção foi o clube do livro, que me trouxe ao mundo das leituras. Nunca havia parado pra pensar em participar de algum, achava a leitura um exercício de introspecção, só eu e o autor. A partir da primeira leitura discutida vi que não era bem assim, e que debater coletivamente sobre o livro me ajudava a olhar tudo de uma nova perspectiva.
Ao final do ano, já havia lido mais de quinze livros, de diferentes autores. Tentei arrastar meus amigos comigo, mas só Carol topou ir. Ficávamos falando horas e horas sobre o que havíamos lido, discordando do que o autor queria dizer, e tentando convencer o outro de que estávamos certos. No final a gente abandonava as certezas, e fingíamos estar convencidos de que a opinião do outro era a correta.
Faltando alguns dias para chegar o Natal, Carol falou que queria fazer uma ceia na casa dela, e que estava preparando uma surpresa. A maioria dos meus amigos ia estar com a família na véspera, então resolvemos marcar um encontro no dia 25, na hora doa almoço, para fazer um amigo invisível. Todos toparam.
Organizamos tudo que havia para organizar para a nossa ceia de três pessoas, e trocamos presentes um com os outros. Para Carol eu dei um vestido, parecido com aquele que havia visto ela usando quando mandou a primeira mensagem pra mi. Para Roberta, sua tia, dei um perfume, mas que Carol mesmo havia escolhido, e dela também ganhei um perfume igual ao que eu usava diariamente, achei fofo, pois sabia quem tinha escolhido aquele presente. Carol me chamou num canto, e me entregou meu presente. Era o livro Torto Arado, de Itamar Vieira. Fiquei super feliz com o presente, pois já estava na minha lista.
No dia Seguinte, reorganizamos a casa para receber os amigos. Chegaram quase todos ao mesmo tempo, menos Teresa, que havia chegado quase na hora do café da manhã, com uma bandeja de rabanada e um vinho de mesa. Depois de todos almoçarem, começamos as brincadeiras. Roberta não quis participar, e foi deitar no seu quarto para assistir as suas novelas. No quintal, eu comecei falando:
-Meu amigo invisível é alguém muito simpático. Gosta muito de namorar e é metido a galã de novela.
-É o namorado da Bia- gritou Teresa no meio de todo mundo. Ficou um silêncio constrangedor, até que todos riram e Ronaldo se posicionou.
-Bem... Acho que todos sabem que a Bia não está mais namorando. E eu sou uma pessoa solteira...- A cara de Bia ficava cada vez mais vermelha, conforme Ronaldo ia desvelando o que todos já sabiam. Surpreendentemente Bia interrompeu a fala, dizendo:
-Todo mundo já sabe que a gente ta namorando faz tempo, bora pular logo essa parte.- foi uma risada geral, e entre abraços e parabéns continuamos a brincadeira.
Na sequência Ronaldo pulou sua vez, falando que tinha que ser o último, e mesmo eu insistindo para que fosse na ordem, todos me ignoraram. Comecei a notar que todos me olhavam como se soubessem de algo que eu ainda não sabia o que era. Mas achei que poderia ser só uma coisa da minha cabeça e continuamos a brincadeira. Quase no final, Ronaldo chama sua amiga invisível, era Carol.
-Bem, acho que está obvio que meu amigo invisível é o Ivan, mas antes de entregar o presente eu quero chamar minha tia para participar.- Carol saiu depressa e voltou com Roberta. Logo após retomou a falar.
-Pois bem. Não é todo dia que você vê um moreno não tão alto, mas muito bonito e sensual entrando pela porta da sua loja. E tenho que dizer que eu já tinha visto ele logo quando a mudança chegou, então quero confessar que foi tudo de caso pensado.- Todos me olhavam ansiosos naquele momento, rindo das gracinhas de Carol.
-Continuando... Meu amigo visível, é alguém que amo muito, e que ao longo desse ano me fez perceber que a vida nem sempre é fácil, mas quando você acha a pessoa certa para estar ao seu lado, tudo pode ser superado. E é por isso que tive que reunir nossa família e amigos aqui hoje, porque seu presente é algo que eu não soube escolher sozinha, e mesmo você não sabendo, me ajudou muito a escolher. Aqui está.
A caixinha era pequena e leve, toda dourada e brilhosa por fora. No meio havia uma fita larga amarrando suavemente a caixa, com um bilhetinho por fora, que dizia: “para nosso amor crescer”. Acho que foi o nervosismo que fez aqueles poucos segundos se esticarem por uma eternidade, fazendo com que abrisse quase em câmera lenta aquela caixa.
Ao abrir, a confirmação. Dois traços pequeninos confirmavam minhas desconfianças. O rosa claro do objeto minúsculo de plástico brilhavam em meus olhos, e fazia com que meu coração palpitasse de alegria. Na minha cabeça, a vida corria num filme alegre, cheio de cores e alegrias. Minha vida ganharia uma nova personagem, pequena e chorona, que em nove meses iria me fazer sorrir e chorar de alegria. Carol estava grávida, e aquele pequeno teste me fazia pular de tanta felicidade.
Dessa vez eu não era o único chorão entre aqueles que estavam a minha volta, Teresa gritava que iria ser titia, e todos meus amigos nos abraçavam, desejando felicidades. Dona Roberta estava emocionada, e abraçava a sobrinha com toda força. A festa tinha acabado de ganhar mais alegria, e as comemorações entraram pela noite. Naquele momento eu decidi também parar de vez de fumar, queria viver mais, viver bem, queria ver aquele bebê crescendo e me chamando de pai. Eu não cansava de repetir para mim, o quanto era bom estar vivo.
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