O perfume de Carol me inebriava o juízo. Sua pele tocando na minha era como a mais pura seda, de toque suave e leve. Adormeci com ela deitada ao meu lado. O perfume dos seus cabelos desgrenhados se misturava ao suor do meu corpo,e tornava tudo aquilo único. Adormecemos ouvindo o sons de nossas respirações calmas; não havia motivos para ter pressa, aquele momento tinha que durar, tinha que ser eterno.
Acordei com a cama vazia. Abri os olhos rapidamente e vi minha musa, ainda desnuda, olhando pela janela do quarto. Seus contornos contra a luz pareciam ter sido desenhados de maneira perfeita, respeitando todas as proporções matemáticas possíveis. Suas penas grosas, que a pouco tempo seguravam meu corpo, agora se entrelaçavam, moldando em sí a própria beleza.
Ao perceber que estava acordado ela virou para me olhar, seus seios fartos vinham em minha direção como os faróis, iluminando os meus olhos perdidos. Como num gesto santo, beijou minha testa. Olhou em meus olhos, e disse:
-Preciso ir, estou atrasada pra um compromisso. Posso voltar?- ah Carol. Se você soubesse o quanto estava apaixonado, não me faria perguntas tão levianas. Queria dizer que a casa era dela, poderia entrar a hora que quisesse, mas resisti a tentação avassaladora que é se jogar de corpo e alma na paixão.
-Pode sim. Vou ter que trabalhar hoje, mas assim que chegar te mando mensagem.- nos despedimos com beijos e mais beijos. Ao passar pela sala, teresa estava tomando café, e disparou:
-Bom dia pombinhos, dormiram bem?- rimos da situação e passamos direto para o elevador. Mais um beijo de até logo.
- Precisava né? Tinha que fazer tuas gracinhas.
- Poxa Ivan, desde quando tu levou um pé na bunda que eu não te vejo assim, sorrindo igual besta. Essa mulher chegou chegando né.
- Chegou- era impossível não estar em paz com o mundo.
Terminamos de tomar café, e formos terminar de arrumar as coisas. Tomamos banho e arrumamos nossos materiais e fomos trabalhar. Teresa só tinha que passar lá pra pegar a chave de sua casa, que havia esquecido no dia anterior; já eu, tive que realmente trabalhar. Chefiar minha equipe era fácil, todos éramos amigos, e portanto, tínhamos nossas regalias.
O relógio era quase um inimigo particular. Andando a passos curtos, me fazia pensar em Carol, e me deligava. Vez ou outra me iterava dos assuntos que meus amigos estavam conversando, me fazendo falar coisas genéricas para poder participar do assunto. Resolvi focar, coloquei toda minha atenção no que estava acontecendo no presente, e deixei o futuro pra depois.
A tarde pareceu andar mais depressa agora. O trabalho me tomou por inteiro, e por algumas horas pude deixar os assuntos amorosos de lado. Ronaldo não parava de falar do dia anterior, falando que teve um aniversário pra ir, e que só foi porque era da família. Bia nem comentava nada, deixava Ronaldo falando pelos cotovelos; talvez tivesse receio de dar bandeira, ou falar algo muito específico e deixar escapar o romance proibido.
O dia voou depois disso. Eram quase a hora de sair, e nada de mensagem no telefone, pensei em enviar alguma coisa despretensiosa, mas não queria passar a impressão de carente desesperado por amor, por mais que essa definição se encaixasse perfeitamente em como eu estava me sentindo.
Saímos do trabalho, e dessa vez, cada um foi para seu canto; nada de saideira, ou cerveja pós expediente. Acendi o primeiro cigarro do dia, estava tentando parar de fumar, mas com toda aquela ansiedade me consumindo era necessário abrir mão de um subterfúgio. Fumei o primeiro, o segundo, o terceiro. Cheguei em casa depois de um trânsito intenso, o porteiro me interpelou logo na entrada:
-Seu Ivan!
-Opa doutor!- havia esquecido o nome dele. Mesmo ele falando várias vezes pra mim, eu nunca conseguia lembrar direito, era como Marildo, Amarildo, viu? Não consigo me lembrar...
-Olha, o senhor deixou sua porta aberta, a equipe de faxina veio hoje dar uma limpeza geral depois do almoço, e na hora que a vassoura bateu na sua porta, acabou abrindo.- Olha que eu já tinha ouvido desculpa esfarrapada, mas vassoura abrir porta era a primeira vez.
-Vish! Devo ter esquecido mesmo, mas não vai acontecer novamente. Desculpa ai pelo incômodo.
- Tranquilo seu Ivan, mas tem outra coisa também... Olha, vieram deixar uma coisa ai pro senhor, eu até ia deixar aqui na portaria, mas a coisa tinha que ser entregue lá no seu apartamento. Aí eu deixei lá viu...
Eu só balancei a cabeça dizendo que sim. Por dentro eu estava uma fera, como assim? Deixei uma coisa? Que coisa? Não estava esperando nada. Esse homem só queria era uma desculpa pra vasculhar meu apartamento, com certeza não era nada demais. Subi com a cabeça fervendo, entre ideias mil do que poderia ser.
Chegando no meu andar encontro minha porta fechada, mas com a luz interna acesa. Fiquei entre abrir a porta e voltar lá para brigar com o porteiro maluco. Adentrei pela porta com tudo, ainda indignado com a situação. Quase morro do coração quando vi "a coisa".
-Aaaaaaaaaaaaaah!- acho que nunca na minha vida eu dei um grito tão alto. Caí de bunda no chão entre a entrada de casa e o corredor externo. Meu coração quase saindo pela boca, e meus olhos pulando da órbita.
-Surpresa!- Carol veio rindo me tirar do chão, ajudando a me recompor. Eu não sabia se ria ou chorava, acho que foi a primeira vez que alguém faz uma surpresa dessas assim pra mim. Fiquei um pouco confuso, pois ao mesmo tempo que achava tudo aquli maravilhoso, ficava pensando como ela tinha entrado lá.
-Como você conseguiu entrar aqui? O porteiro tem a cópia da chave?
-Que nada, seu Agrinaldo já me conhece faz tempo, me viu crescendo. Pedi pra te esperar aqui na porta, mas quando chegamos na frente, já estava aberto, falei pra ele que ia te dar um susto, e ele só riu e me deixou aqui.
-Ah sim...
-Que foi? Não gostou da surpresa?
-Na verdade é a primeira vez que isso acontece na minha vida. Nunca ninguem me surpreendeu assim.
-Nem em aniversário?
-Minha família nunca comemora aniversários. Meu pai falava que quem gasta dinheiro com isso é gente desocupada, que tem dinheiro pra jogar fora.
-Credo, até pesou o clima.
Ficamos nos olhando em silêncio por alguns segundo e comecei a ter uma crise de risos. Carol não entendei nada, mas foi contagiada. Minha vida estava ficando cada vez mais colorida, e rir assim só comprovava que as coisas estavam dando certo. Depois de certo tempo, o riso deu lugar aos beijos e abraços, e dali em diante repetimos nosso rito de amor.
Durante nosso primeiro banho juntos, falávamos sobre nosso dia e como queríamos viajar e viver mais. Falávamos de sonhos, e em como a vida ali era boa.
Depois de colocar nossas roupas, descemos para o mercado próximo. Carol havia me chamado para jantar fora, mas consegui convencer ela que meu vatapá era uma delícia, ela não resistiu, e fomos comprar os materiais. Entre os ingredientes trouxemos uma garrafa de vinho e algumas cervejas geladas.
Vinhamos alegres conversando sobre comidas e programas culinários, e como tudo tinha ficado mais fácil de aprender a fazer depois que a internet começou a evoluir. Durante a conversa, Carol falou que sempre teve vontade de se inscrever num programa assim, mas que depois que o irmão da sua amiga foi e falou que era tudo armado ela desistiu.
Assim que a palavra "irmão" saiu da boca dela, eu não consegui escutar mais nada. Lembrei do meu irmão e o favor que ele tinha me pedido. Lembrei que já estava atrasado em quase uma semana, e provavelmente a amiga dele já teria chegado, e como não havia encontrado ninguém teria passado apuros na cidade estranha. Pensei em todas as desgraças possíveis que poderiam ter acontecido.
Rapidamente eu mudei de assunto e expliquei tudo pra Carol, que pareceu tão preocupada quanto eu. Subimos as pressas no apartamento, arrumamos tudo na geladeira e saímos voando em direção ao carro. Perdi as contas de quantas mensagens eu havia enviado pro meu irmão, e quantas ligações caíram na caixa postal.
Mesmo meu irmão não sabendo nada da minha vida, eu sabia muito da dele, incluindo seu endereço. Liguei para sua noiva, ou melhor, ex noiva. Ela apenas falou que não tinha mais nada com ele e desligou o telefone. Que filha da puta, ajudei eles várias e várias vezes e agora ela me trata assim. Minha preocupação só aumentava. Ao chegar no endereço do Ricardo, dou de cara com Dona Marta, ela estava acompanhada de uma mulher, que parecia estar sofrendo com toda aquela falação.
-Oi Martinha, lembra de mim? O irmão do Ricardo!
-Oi meu filho, to aqui com a Paula, amiga dele.- Nos apresentamos todos e expliquei toda a situação. Paula ficou chateada no começo, mas depois também se demonstrou preocupada. Carol falou que podíamos jantar os três, em outro lugar. Todos concordaram.
-Nossa, você chegou na hora certa- Paula parecia exausta, e com a aparência pesarosa.
- O que houve?- Perguntou Carol
-Aquela senhora está falando comigo desde quando eu cheguei aqui. Ainda não fiz nada do que havia planejado. Ela me arrastou pra tantos lugares, tantas farmácias, tantos mercados, que sei onde tem os melhores preços da cidade. Que tortura!- começamos a rir da situação. E propus ajudar ela no que fosse possível. Carol também se colocou a disposição.
Paramos na orla da cidade. A brisa do mar batia em nossos rostos, e enquanto eu segurava a mão de minha paixão, Paula falava um pouco sobre sua vida e seus objetivos vindo pra cidade. Durante o jantar bebemos alguns chopes, e resolvemos emendar pra um barzinho perto de casa, o mesmo que havia ido com Carol.
Deixei o carro em casa, e fomos caminhando até lá. Estava bem vazio, o que possibilitou que sentássemos num lugar mais ventilado. Entre cervejas e preocupações com Ricardo, traçamos possíveis rotas para as próximas semanas, sempre na pretensão do retorno do meu irmão acontecer o mais breve possível. No fim da Noite Paula pegou um carro de aplicativo, e falou que entraria em contato logo cedo. Voltamos para caminhando e nos beijando novamente, parecia que íamos voltar pra casa, mas Carol falou que nessa noite não ia poder dormir fora, e que nos veríamos no outro dia.
Chegando em casa eu coloquei o telefone pra carregar, e assim que ligou vi que havia uma mensagem não lida, era Ricardo. Na mensagem ele falava que chegaria essa semana, que a viagem foi um momento de revelação pra ele. Mas o que me chamou mais atenção foi o final da mensagem, que dizia: "to morrendo de saudades suas, não vejo hora de voltar pra casa e te abraçar".
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