terça-feira, 15 de abril de 2025

Capitulo 8

Ao mesmo tempo que tudo parecia mágico, a preocupação tomava conta de mim. O que iríamos fazer? Em qual casa iríamos morar juntos? E a tia dela? Todas essas preocupações que pareciam minimamente razoáveis de se pensar, logo em breve, ganhariam uma dimensão ainda maior. Estávamos saindo de 2019, e não fazíamos ideia do que iria acontecer nos meses seguintes. Nossos sonhos estavam mais vivos do que nunca, porém, nossas vidas estavam prestes a tomar um rumo inesperado. 

O mês de Janeiro foi passando tranquilamente, apesar do trabalho puxado e da constante preocupação com a paternidade presente, a vida ia se desenhando aos poucos, de maneira clara e suave. Aos poucos procurávamos na internet os preços das coisas para nosso bebê. Fraldas, carrinho, berço, roupas. Nosso universo se resumia em sonhar com um futuro, sem deixar de viver o presente.

No trabalho, meus amigos organizaram um chá de fraldas com todos da firma; foi uma surpresa quando Carol me viu chegando em casa com mais de trinta pacotes de fraldas. O nosso apartamento começava a ficar pequeno para a nossa futura família, mas mesmo com a chegada de uma criança, eu não pensava em me mudar dali; tentava pensar pouco no assunto, e Carol também não falava nada sobre o tema.

Apesar dos constantes enjoos, nós fomos em alguns bloquinhos de carnaval de rua. Parecia que a nossa necessidade de sair para pegar um ar era um prelúdio do sufocamento social que se aproximava.

Lembro de ir para o trabalho, logo após o período carnavalesco, e ouvir um burburinho vindo da copa. Um colega falava sobre uma doença que estava se espalhando pela Ásia e Europa, e que ameaçava crescer ainda mais, se alastrando por outros países. Assim que cheguei em casa comentei o assunto com Carol, que no mesmo dia ainda parou para olhar as notícias no computador, mas que ficou por isso mesmo.

Logo no início do mês de março, percebemos que a barriga estava crescendo mais rápido, dando um charme a mais para a mamãe mais linda que já tinha visto na minha vida. Não sei se era possível Carol ficar ainda mais bonita do que ela já era, mas era algo que acontecia diante dos meus olhos, e me fazia me apaixonar ainda mais por aquela mulher. Não havia um dia que chegassem em casa que eu não corresse para ver se a barriga já havia crescido mais um pouquinho, era uma ansiedade gostosa de sentir.

A semana correu tranquila, e nada parecia muito fora do comum na nossa cidade, apesar de já sabermos que a doença já havia chegado no Brasil, achamos que poderia se algo que fosse contido logo., não tínhamos a real dimensão do problema. Cheguei em casa mais cedo do que de costume nesse dia, e Carol estava sentada na sala me esperando. Algo estava diferente, ela parecia aflita demais. Lembro como se fosse hoje, era dia 12 de março de 2020, e o jornal falava sobre Brasília.

-Amor. Tem alguma coisa muito errada- Carol dividia o olhar entre a televisão e eu. 

-O que está acontecendo?

-Brasília fechou tudo por causa dessa doença, ela está se espalhando muito rápido. Chegou com tudo aqui.

-Tem certeza amor?

-Tenho sim. Estou com medo do que vai acontecer. O que a gente vai fazer?

Desliguei a televisão e abracei Carol. Ela segurava a barriga, passando a mão de um lado pra outro. Foi aí que eu percebi que a sua preocupação era ainda maior, era por nosso bebê que ela se afligia daquela maneira. A conversa foi longa, e decidimos morar na casa de sua tia caso tudo ficasse pior. Nosso plano era fechar o apartamento, desligar tudo e voltar de vez em quando para limpar a poeira.

A preocupação tomava conta de todos a nossa volta. A empresa, que sua sede no Canadá, decretou o encerramento momentâneo de suas ações presenciais. E apesar de o nosso pagamento continuar sendo depositado, a tensão de possíveis desligamentos era presente. A promessa era retomar o trabalho, assim que as coisas melhorassem.

O clima de medo só aumentava. Foi necessário fechar o bazar, e adiantarmos nossa mudança. Lembro que tive que fazer várias viagens entre as casas, para levar as coisas mais pesadas. Carol tentava ajudar carregando os objetos menores e mais leves. Foi uma semana inteira para conseguir arrumar tudo do nosso jeitinho. 

Dona Roberta estava preocupada com a movimentação repentina, mas, ainda assim, ajudou a arrumar o quarto do bebê. Deixou tudo perfeitamente arrumado, como só uma avó dedicada saberia fazer. Apesar de toda a preocupação de nossa família e amigos, deu tudo certo.

Passada a primeira semana de "folga" a empresa instaurou home-office, liberando computadores, impressoras, cadeiras e tono material necessário para o nosso trabalho. Marcamos os cinco amigos no mesmo dia, para que pudéssemos matar um pouco da saudade. Mesmo não sendo ainda muito comum, todos fomos de máscaras, entrando um de cada vez no escritório. Tínhamos que assinar uma papelada imensa, declarando item por item que estávamos retirando do local. Após todas as burocracias necessárias, nos reunimos no estacionamento para conversar um pouco. Queríamos nos abraçar, mas nos despedimos com um tchau de longe e os olhos tristes.

Quando retornei, Carol estava de máscara segurando uma mangueira, e ao seu lado estavam uma caixa de papelão vazia, e um saco preto. Ela empurrou a caixa para que eu colocasse meu material dentro, e logo depois mandou eu ficar só de cueca, e colocar minhas roupas dentro do saco preto. Depois de praticamente nu, recebi um banho gelado de mangueira, tendo que me esfregar bem. Mesmo com as risadas de minha parte, Carol se mantinha séria dizendo: "esfrega bem a mão", ou "eu ainda não vi você lavar direito o rosto". Era a primeira vez que tomava banho no quintal.

Depois de um banho reforçado, e Carol constatar que eu realmente estava limpo, é que ganhei um abraço apertado. Naquele abraço morava muita preocupação, mas acima disso, morava o cuidado que só existe quando se ama alguém. Eram tempos sombrios, e não sabíamos quando tudo melhoraria.

Em maio, tudo piorou ainda mais. Em nossa cidade o Lockdonw foi instaurado,e todas nossas esperanças ficaram diminutas. As perdas eram cada vez maiores, e nosso coração ia ficando pequeno, não conseguíamos suportar tanta dor. Paulo foi o primeiro de nosso grupo a trazer notícias ruins. Seus pais, já bem idosos, foram internados as pressas, e pouco tempo depois eles partiram. Paulo nos contou que a diferença na hora da morte foram apenas quinze minutos. O casal que vivia juntos em vida, escolhera partir juntos também, era claro para nós que um não viveria sem o outro.

Por conta das novas regras, não pudemos ir ao enterro, que ocorreu rapidamente. Mesmo com a distância nosso grupo permaneceu se comunicando diariamente pelo computador. Depois desse episódio, fazíamos chamadas de vídeos por horas, principalmente na hora do trabalho. Se éramos unidos antes disso tudo acontecer, continuaríamos mais unidos ainda naquele momento.

Na empresa, algumas perdas também foram acontecendo, principalmente entre os mais velhos. Toda semana era um choque diferente, uma internação que não acabava mais, e por fim, mais mortes. Durante esse processo, eu e Bia subimos de cargo. Foi necessário muita dedicação, e ajuda constante um do outro para conseguirmos dar conta de tanto trabalho. Mesmo recebendo mais, não conseguimos ficar felizes com a situação.

No meio da semana, o susto. Teresa foi internada as pressas no hospital. A falta de ar e as constantes dores no peito evoluíram rapidamente, e nosso grupo ficou extremamente abalado. Paulo se prontificou a ajudar, indo diariamente ao hospital, e se apresentando como namorado dela. Durante os próximos quinze dias, os boletins eram constates, e cada vez que o telefone vibrava, nosso coração só faltava sair pela boca.

Foi lá pela madrugada que recebi a ligação de Paulo. O telefone vibrando forte, acabou acordando Carol, que me chamou para atender. Minha mão tremia gelada, e o nó na garganta se formava.

-Oi Paulo. O que aconteceu?

- Oi feioso, eu tô viva!

Dei um pulo de alegria. Teresa estava bem e já já ia sair do hospital. Paulo contou que fez amizade com um enfermeiro, que estava dando notícias constantes sobre nossa amiga. Quando melhorou levou o telefone escondido pra poder me ligar. Aquilo foi um sinal de esperança, que dizia que nem tudo estava perdido.

Paulo ia cuidar dela dali pra frente, e poderíamos ficar mais tranquilos com os dois morando, temporariamente na mesma casa.

Mesmo relutante, Carol foi comigo em uma reunião clandestina com os amigos. Nos reunímos na casa de Ronaldo. Era possível ver os olhos marejados de todos. Ronaldo organizou tudo, colocando cadeiras no pátio de sua casa, divididas em duplas, uma bem longe da outra. Eu e Carol, Ronaldo e Bia e Paulo e Teresa, sendo os dois últimos os únicos que não formavam um casal. 

Conversamos durante a tarde inteira, e lá pelo começo da noite voltamos para casa. Era bom demais saber que todos estávamos vivos.


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