terça-feira, 8 de abril de 2025

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 Estava saindo do trabalho com meus amigos, senti o telefone vibrando no bolso esquerdo da calça, mas antes que pudesse achar que era uma ligação ele parou. Olhei por alto a mensagem, era do meu irmão. Com toda certeza era um favor que ele ia pedir, afinal, nossa relação não era das melhores, ele odiava a família, e raramente entrava em contato.

A estranheza entre nossa família começou com a constante ausência do meu pai, que nunca foi um pai, na verdade estava mais pra alguém que não queria nada com nada, e foi deixando a vida lhe levar. Não sei ao certo quando os sonhos dele morreu, mas levou os nossos juntos; pelo menos era isso que eu pensava na Adolescência .

Na mensagem, como esperado, ele pedia um favor; "vou passar um tempo fora da cidade, ta chegando uma amiga minha pra fazer uma pesquisa pro doutorado dela, me faz esse favor e recebe ela, deixei a chave com a vizinha que gosta de você, boa sorte".

Achei estranho no começo, meu irmão já havia me pedido vários favores, mas quase sempre tinha relação com dinheiro, que eu nunca via a cor novamente, mas dessa vez era diferente, ele realmente tinha me dado algo diferente, era realmente meu irmão pedindo um favor, precisando de mim. Fiquei pensando por alguns minutos antes de responder, milhões de pensamentos invadiam minha cabeça e me deixava a impressão que deveria negar, mas não foi isso que aconteceu. Aceitei a missão e respondi um singelo "ok".

Liguei o carro. Acendi um cigarro. Minha amiga estava no celular gritando com o namorado dela, falando baixarias enquanto o restante sentava pro banco de trás. “liga o som Ivan”, meu amigo pedia enquanto se apertava entre os outros dois. “coração ligado, beat acelerado”.... o rádio tocava uma canção que fazia tempo que eu não ouvia. aumentei o volume, dei a partida. Saímos pelas docas, janela aberta, e coração livre.

Chegamos no copo sujo. Se aquele bar pudesse contar histórias, falaria sobre brigas, traição, sexo em seu banheiro, filhos falidos, e falaria sobre nós, os cinco cavaleiros do apocalipse. Bia havia terminado e recomeçado o namoro milhões de vezes, todos sabíamos que seu namorado não valia nada, mas ainda assim repetíamos os mesmos conselhos de sempre; nada parecia que ia mudar, então, com o tempo, nos resumíamos em dizer "é foda", ou "isso é complicado". Para Bia o mais importante era o status de relacionamento, afinal, era melhor ter um relacionamento ruim, do que ficar sozinha (palavras dela, não minhas).

Paulo era nosso salvador da pátria, sem família, filhos ou mulheres, sua dedicação era nos manter unidos, uma espécie de mártir da amizade, mesmo quando havia brigas internas, ele manobrava as dificuldades, organizava um reencontro e resolvia as situações. Ninguém entendia porque ele não arrumava ninguém, perguntávamos muito isso no começo, mas depois de cinco anos de amizade, ninguém mais queria saber. Afinal, quando todo mundo estava liso no final do mês, era ele que aparecia com duas grades de cerveja e uma porção de frango a passarinho. 

Ronaldo era o mais boa pinta de nós, voz grave, sedutora, olhar galante cor de mel acinzentado, não havia mulher que não resistisse aos seus encantos. Mas como nem tudo que reluz é ouro, ele era o mais enrolado de nós. houve uma época que achávamos que ele ia casar, mas depois descobrimos que a mulher já era casada, e que ele se passava por professor de música para enganar o marido. A farsa não durou muito tempo, já que em seis meses de "aulas" o marido deu um violão para a esposa, que não sabia nem segurar ele divertido. Tivemos que o esconder várias vezes, para não apanhar de algum marido, namorado, ou pai. foram tantas as histórias que muitas vezes a gente só aceitava, sem perguntar nada mais.

Teresa era nossa humorista, não havia tempo ruim com ela. Ela era a que mais bebia da galera, e quase sempre tinha que carregar ela pra minha casa, chegou uma época que tive que trocar de sofá; comprei um sofá cama confortável, pra poder alocar ela em casa. Teresa pagou metade, achou mais que justo depois de tantas noites dormidas em casa. Era dela a frase "só se chega ao céu errando, pois sem erro não há do que se arrepender". uma figura! Ao mesmo tempo que ela contava suas histórias, escondia de nós o seu passado, uma vez chegou a comentar por alto sua infância sofrida e toda desgraça que tinha acometido a família dela, foi de encher os olhos d’água, foi a primeira e ultima vez que tocou no assunto.

Eu, bem... acho que a desimportância da minha vida me levou a ir deixando a vida me levar. Estudei a vida inteira em escola particular, minha mãe fazia questão de pagar pra poder jogar na cara, sempre que eu fazia algo que lhe desagradasse. -Gastei uma fortuna com esse ai-, perdi a conta de quantas vezes escutei isso. Saí de casa antes do meu irmão, não aguentava mais as brigas familiares. Tive sorte no trabalho, minha chefe nunca teve filho e viu em mim a oportunidade de passar todos os seus conhecimentos de vida. Foram anos trabalhando lado a lado. Certo dia chegou com uma ruma de papeis para eu assinar, falou que estava resolvendo umas coisas da empresa, assinei como qualquer documento e esqueci. Ela morreu um tempo depois. Câncer. Ia todos os dias visitar. Na ultima visita ela me chamou, já tinha aceitado a morte, falou que na primeira gaveta dela tinha duas pastas e um molho de chave, pediu que eu resolvesse tudo sobre a morte dela e que depois procurasse um vizinho dela. Depois da morte, fiz tudo como foi combinado. No Enterro estavam amigos do trabalho e da vida, e entre todos era eu quem mais chorava e sentia sua falta. 

Passaram algumas semanas, e o luto já havia amenizado. Procurei o vizinho dela, expliquei toda a situação; ele me convidou pra entrar e conversar:

- A Alba era uma mulher incrível, falava muito de você.

- Realmente ela era. Era... Estranho né, falar dela no passado.

- A morte vem pra todo mundo. Quem não morre de novo, de velho não escapa.

-Realmente. O senhor falou que tinha uma coisa pra me dar, o que é?

Seu Afrânio levantou lentamente e trouxe uma mala de couro marrom. A mala parecia nova e velha ao mesmo tempo, como se tivesse sido bem cuidada durante anos e anos. Peguei com cuidado e abri. Dentro dela havia um álbum de fotos, três livros, uma maquina de fotografar bem antiga e uma pasta transparente cheia de papeis. Seu Afrânio pediu que eu olhasse tudo com cuidado, e que eu abrisse a pasta na casa de Alba. O molho de chaves que havia pegado no escritório eram de vários lugares, salas, mesas, e outras maiores, que logo descobriria que eram da casa de Alba. Subi. O apartamento ficava no décimo terceiro andar. Ao abrir a porta, o cheiro de perfume de rosas, e a poeira levemente acumulada tomou conta do meu nariz, parecia que ela iria vir a qualquer momento me abraçar.

A sala era mediana, um sofá de couro marrom, com penas de madeira escura tomava a parede de fundo, sendo uma das primeiras coisas ao se observar. Atrás havia um quadro imenso, que tomava quase toda a parede, numa moldura retangular estranhamente estreita, na pintura um nú masculino; um homem negro deitado, com seu pênis sobre a coxa. Aquela imagem me deixou hipnotizado por alguns segundos, não sei explicar se pela beleza, ou pelo realismo que a pintura retratava.

Em cada lado do sofá uma mesa de madeira clara e um abajour amarelo. O meio da sala um tapete branco, extremamente peludo. e sobra ele uma mesa de centro oval, toda de madeira. 

Entrei tirando o sapato e sentando no tapete. Aquela maciez acariciando meu pé foi libertador. Era uma sensação engraçada, apesar de termos uma relação intima, havia estado alí apenas uma vez antes disso, mas foi tão rápido que nem pude reparar em nada. Abri novamente a mala e me pus a ler os papeis que estavam la. De cara notei minha assinatura em um dos papeis, o que me levou a ter um breve entendimento do que seriam aqueles documentos. Sim. Alba havia deixado tudo pra mim. Casa, carro, alguns milhares de rais dentro de um cofre no quarto, toda uma vida. Fui tomado por um mix de incertezas, medo, ansiedade, felicidade, tristeza, mas principalmente saudades.


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