terça-feira, 8 de abril de 2025

Capítulo 1

 

Foram duas semanas puxadas, depois que recebi a herança de minha mãe de coração. Houveram ainda alguns trâmites legais, mas no final da primeira semana havia resolvido tudo, ou praticamente tudo, ainda faltava a mudança, e nesse lá e cá surgiu a dúvida do que fazer com as coisas que eu já tinha comprado para minha casa; não queria ter dois de cada, achava que já tinha coisas demais na casa que nem utilizaria, imagina colocar mais móveis e eletrodomésticos naquele lugar, não faria o menor sentido.

Chamei meus amigos para ajudar na escolha do que ficaria, e o que teria que partir. Alba tinha bom gosto para quase tudo, ficava fácil escolher a mobilha da casa, porém era preciso deixar com a minha cara também, não queria me desfazer de tudo, mas eu também tinha minha personalidade. Acho que a única coisa que não pensei duas vezes na hora de doar foi o quadro; não tinha uma vez que passasse pela sala que aquela visão não me tomasse o juízo. Teresa ficou empolgada em levar o quadro pra casa, segundo ela aquele quadro necessitava ser apreciado por mais pessoas, e minha nova casa era escondida demais.

Bia ficou com a maioria das roupas e sapatos, pareciam ter sido feitos sob medida pra ela, e apesar de Teresa ter ficado com o quadro, ela achava que usar roupa de gente morta trazia a energia da pessoa. Eu achava aquilo engraçado, mas não queria me meter nos assuntos espirituais dos outros, até porque vez ou outra eu tinha a impressão de ver alguém entrando e saindo do quarto. Tentava não pensar muito no assunto, mas era difícil. 

Estava saindo do apartamento com algumas coisas e me deparei com um brechó, quase na esquina da rua, nele haviam vários objetos, além de roupas e peças de decoração.

-Oi, queria falar com a dona- perguntei a esmo, pois não havia ninguém no local. Olhei em volta, e já ia quase saindo quando ouvi o barulho da descarga, e alguém chamando minha atenção.

-oi! oi! Posso ajudar?- Saiu do banheiro uma mulher baixinha, aparentava ter minha idade Cabelos ondulados, pele levemente bronzeada, olhos castanhos (entre o claro e o escuro). Fiquei sorrindo sem falar nada, mas ela falou novamente:

-Tudo bom, posso ajudar com alguma coisa?

-Oi, to procurando a dona. É você?

-Sou sim, ta procurando algo específico pra você?

-Na verdade, eu to de mudança pra um apê aqui na esquina, e a dona me deixou várias coisas que não vou usar, queria saber se você teria interesse.

A conversa foi fluindo daí pra frente. Levei ela no apartamento pra dar uma olhada no que eu iria me desfazer. Ela olhou tudo com calma, separou algumas coisas, olhou com cuidado outras. Na verdade eu nem reparei direito no preço que ela ofereceu pelos objetos, só queria ficar olhando ela se movimentando pela sala, indo de um lado para o outro, como se fosse num desfile. Fechamos um acordo, e eu ajudei a levar as coisas pro brechó. No caminho ela foi me falando sobre sua vida, falou que era fotógrafa e que esse bazar era pra ajudar a tia, mas depois de um tempo acabou melhorando a curadoria do material que estava lá e se tornou a nova dona do lugar. Falou que sua família se resumia a ela e sua tia, e que gostava da nova vida. Tinha tempo pra ler, fotografar paisagens aos finais de semana, e que ficar ali fazia ela pensar na vida, e como depois de tantas escolhas ela tinha parado justamente naquele lugar.

Fiquei tão entretido que acabei esquecendo completamente da mudança. Podia ficar por horas e horas escutando ela falar, mas tinha que voltar. Estava quase me despedindo quando ouvi Teresa gritando meu nome. Ela trazia duas caixas de cerveja nas mão, e o cigarro pendurado na boca. Bia vinha com uma sacola de algo que parecia comida, e me chamava a plenos pulmões.

-Acho que chegou minha hora, quer subir pra beber com a gente?

-Hoje não, tenho que organizar umas coisas em casa. Mas faz o seguinte- Ela anotou meu número no telefone dela e me mandou uma mensagem. Dei um sorriso quando senti o celular vibrando.

Paulo vinha dobrando a Esquina com Ronaldo, vinham trazendo mais cervejas. Pensei que aquilo ali significava o fim da mudança, e o início do chá de casa nova.

Gal Costa no som, cerveja gelada, amigos ao redor. A conversa fluía na mesma velocidade que as coisas iam tomando forma pela casa. Agora tudo havia se resolvido, o que ia ficar e o que ia partir. Paulo havia chamado um colega que estava passando por necessidade, ele havia oferecido as coisas, e tão rápida quanto a resposta positiva, foi sua chegada para buscar tudo. Mal tomou uma cerveja enquanto colocávamos tudo dentro do carro, e partiu.

A noite foi se alongando. Teresa já havia marcado seu lugar no sofá, trabalhara o dia inteiro e já não resistia ao sono que chegava. Ronaldo e Bia saíram mais cedo, tinham que ir resolver alguma coisa. Apesar de eles terem dado desculpas diferentes, todo mundo sabia que eles se pegavam escondidos, e que depois de algumas caixas de cerveja, o compromisso entre eles era claro e direto.

Paulo ficou até a última cerveja, chamou o uber, e foi pra casa. Falou que ia voltar no outro dia pra me ajudar com a limpeza, mas decidi livrar ele dessa. Falei que Teresa ia enrolar por ali e com  certeza não ia pra casa tão cedo. Fumamos um cigarro na sacada, aguardando o carro chegar, e logo depois nos despedimos.

Arrumei tudo que estava ao meu alcance, e fui tomar um banho. Não sei quanto tempo demorei naquela água quente. Pensava na vida que tinha levado até ali, nos amigos que tinha feito, no lugar que agora era meu lar. Tudo parecia estar em paz.

Tinha levado algumas mudas de roupa, coloquei uma e fui para o quarto. Senti o telefone vibrando, e quando vi a mensagem, não pude evitar sorrir de orelha a orelha. Era Carol, do bazar. Na mensagem dizia: Ta acordado?


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