sexta-feira, 18 de abril de 2025

Capítulo 11 (Teresa)

Estava no trabalho, e não tinha muita intimidade com as pessoas ainda. Era quase hora de fechar quando aquela garota entrou no escritório com uma pasta debaixo do braço. Tinha mais ou menos a minha altura, mas parecia mais alta, devido ao penteado volumoso, que dava a ela um ar moderno. Sua roupa larga escondia o corpo magro, e seu sorriso cativante chamou minha atenção. Era a primeira vez que via aquela pessoa por ali.

Ela veio na minha direção, e perguntou se eu sabia se estavam precisando de alguém pra trabalhar, falei que não sabia, mas que podia deixar o currículo comigo, que eu iria ajudar. Ela sorriu, entregando um papel com poucas informações. Agradeceu e partiu. Olhei no papel o seu nome, Teresa Maués.

Fui até o escritório de Alba, para colocar o papel encima da mesa. Assim que me virei ela entrou na sua sala, pegando o currículo e me perguntando:

-Indicação sua?

-É!- eu nem sei porque eu tinha respondido que era. Mas não podia voltar com a minha palavra- Morava perto da minha casa, uma pessoa bem calada e tranquila. 

Alba olhou pra mim e sorriu. 

Na semana seguinte estava arquivando um material, quando senti um abraço por trás.

-Obrigada. Obrigada. Obrigada. Obrigada!- Teresa estava usando uma roupa mais formal.- A senhora que me contratou me falou que você tinha me indicado, que era vizinha sua. Tua mentira me ajudou muito, ô te devendo uma. Inclusive, se quiser tomar uma cerveja, eu pago. Não hoje, porque eu ainda não recebi, mas se quiser pagar eu te devolvo depois. você que sabe.

Aquela garota não era nem um pouco calada, muito menos tranquila. Falava pelos cotovelos, me deixando perdido na maior parte do tempo. As vezes eu até queria falar alguma coisa, mas Teresa não deixava. Pra completar, Alba havia me designado pra ensinar um pouco de tudo que sabia, pois ela me ajudaria nas funções. Acho que era o ânimo que eu precisava, já que eu não parava de achar graça de ouvir suas histórias malucas, e nas confusões que ela se metia.

Depois do primeiro mês de trabalho, fomos eu, Teresa e Bia tomar uma cerveja. Bia tinha começado a namorar, e só falava deste bendito homem, eu e Teresa só balançávamos a cabeça. Depois da segunda cerveja, o namorado de Bia passou para levar ela dali, mal nos cumprimentou.

-Essa nossa amiga é até legal, mas esse escrotinho aí que ela arrumou, é de lascar.- Tinha que concordar, já que dividia da mesma opinião. Algumas cervejas depois, Teresa foi se abrindo mais, contando histórias mais intimas, falando do seu passado. Tudo aquilo ainda é fresco na minha memória, já que ao mesmo tempo que senti a dor que ela sentia, podia me alegrar com a forma como ela via a vida.

Teresa era a filha mais velha de quatro irmãos, e a única mulher. Ela cresceu na periferia da cidade, com sua mãe e seu pai, ambos usuários de drogas. Mesmo naquela situação muito difícil, ela falava que até os sete anos, as coisas não pareciam tão ruins como realmente eram. Na escola Teresa tinha facilidade em aprender, e sempre se destacava por ser a mais inteligente da turma. Quando foi chegando quase com dez anos, um professor mobilizou toda a escola, conseguindo roupas, tênis, alimento, e inúmeras besteiras que criaças gostam de comer. Nesse dia a diretora levou Teresa pra casa, e vendo a situação que ela vivia pensou em não entregar a criança, mas não teve outra opção.

Os olhos dos irmão de Teresa brilhavam com tantas coisas novas, mas foi só o carro partir que os pais decidiram que tudo aquilo ia ter outro destino. Falavam que aquilo ia dar um bom dinheiro, e que só iam ficar com o "grosso", o resto iam dar um jeito. Teresa falou que aquilo era dela, e que eles não poderiam fazer aquilo. O apelo foi em vão, e com a insistência de Teresa, pedindo para ficar com as coisas novas, seu pai lhe deu uma surra. Ela contava que chegou um momento que não sentia mais dor, e parecia que não estava mais ali.

Eu estava chocado com tamanha brutalidade. Mesmo apanhando inúmeras vezes na minha infância, e por motivos tão bobos, não conseguia imaginar aquela pessoa de sorriso tão largo e feliz ter passado por toda aquela situação.

Teresa parou de ir pra escola, demorando quase duas semanas para conseguir parar de sentir dor. Com seu desaparecimento repentino, a escola entrou em contato com o conselho tutelar e a polícia, que foram até o local e constataram a situação precária daquela família, com o agravante das drogas. A família teve que entregar as crianças, que foram levadas juntas para um abrigo.

Teresa falava como se aquilo não pertencesse mais a ela. Falava que de tudo que tinha em casa, ela só havia guardado uma única coisa que significava muito pra ela.

Ainda ficamos falando sobre o assunto, mas logo depois ela mudou de assunto repentinamente. No seu sorriso, havia muitas lembranças que ia descobrir aos poucos.







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