terça-feira, 1 de junho de 2021

Sobre descobertas (capítulo 1)

Trajada toda de negro ela imergiu no meio da multidão. era sexta feira e a festa não estava muito animada. Na verdade, as festas no centro da cidade não são tão animadas assim. Embaladas com sons estranhos, e pessoas que de tão brancas reluzem a colonização do nosso pais, o centro da cidade se confirma como algo que sempre é, podre, mas como de costume, ao se chegar numa cidade nova é preciso explorar.

Naquele dia eu acordei sem muitas pretensões, e como o mês ainda estava na metade, o dinheiro não era tão farto; na verdade nunca foi.

Ela não parecia também conhecer o local, seu olhar tão perdido como o meu, vagava em meio as pessoas, como que analisasse o ambiente, tentando validar de alguma forma sua presença. O cheiro de maconha era forte, então resolvi ficar numa área mais aberta, mesmo que também fumasse, não queria estar no meio da multidão. 

Depois de quase meia hora ela veio na direção que eu estava, um copo de cerveja na mão e um cigarro inteiro na outra, era fácil perceber que ela também se sentia deslocada naquele lugar, mas de certa maneira, isso me confortava, talvez por saber que essa situação poderia gerar alguma conversa. 

Ela tentou acender o cigarro uma ou duas vezes, mas como se fosse algo divinamente providencial, não conseguiu. Ofereci meu isqueiro, um Bic vermelho, nada muito interessante, ela aceitou e ficou parada ali como se esperasse por alguma coisa. Naquela noite eu já tinha tomado uma ou duas latas de uma cerveja qualquer, sempre escolhia a opção mais barata, vislumbrando a possibilidade de me embebedar com o menor custo possível.

"festa estranha com gente esquisita", esse trecho da música do Renato nunca tinha feito tanto sentido, resolvi falar essa frase como se esperasse uma resposta complementar, ela acenou com a cabeça e estendeu a mão falando seu nome, nos apresentamos e ficamos alguns segundo em silêncio, resolvi acender outro cigarro, afinal, as semelhanças naquela situação ajudariam a desenvolver algum raciocínio.

Perguntei de onde ela era, ela respondeu e perguntou de onde eu vinha, comentou algo que eu não escutei, mas acabei sorrindo em resposta. 

-Perdido por aqui?- Ela perguntou

Acenei com a cabeça, dando um trago mais fundo no cigarro. 

Seus olhos eram negros e vazios, e aquilo me trazia uma sensação estranha, talvez de identificação, mas nada além disso.

-Tu conhece algum lugar aqui perto com a cerveja mais barata?- perguntei.

-Sei sim, quer ir lá?

Concordei com a ideia, e saímos andando pra fora da festa. Ainda era cedo, mas aquele lugar não prometia muita coisa.

Começamos a andar um ao lado do outro e falar sobre qualquer assunto, falei que achava estranha as festas em Brasília, sempre pareciam iguais pra mim. Ela riu e acendeu outro cigarro. Deu dois tragos profundos e me ofereceu. Eu aceitei.

-As vezes não sei porque venho pra esses lugares, sempre arrependo no final, mas tem dias que ficar em casa é foda.

Não tinha como discordar. Tudo naquele lugar seguia um roteiro escrito as pressas que se resumiam em beber, fumar e terminar a noite com alguém que não vai levar a lugar nenhum.

Chegamos num barzinho numa rua estreita, não tinha música, mas o litrão era realmente barato, e supreendentemente gelado. Tomamos o primeiro copo quase que em um único gole, e depois seguimos conversando.

A noite ficava cada vez mais fria, mas o álcool era suficiente para aquecer o corpo. 

Ela perguntou o que eu fazia, e eu respondi que era professor. Era visível que o olhar dela achava toda aquela situação diferente, quase que uma novidade. Resolvemos pedir batata frita. Acho que a batata frita é o petisco universal para situações como essas, não pela simplicidade, mas pelo preço.

Falamos de política, decepções amorosas, da vida em outras cidades e como esses encontros acabavam na maioria das vezes.

Seus braços fortes gesticulavam pelo ar, dando ênfase as suas palavras. Vez ou outra ela prendia e soltava o cabelo, que parecia ter sido cortado por ela mesma, mas que não tinha ficado ruim.

Depois da terceira garrafa ela olhou no relógio e perguntou se eu queria continuar bebendo na casa dela, com a promessa de haver bebida em casa, e que a gente poderia fazer alguma coisa pra comer, aceitei sem pensar.

Andamos cerca de meia hora, falando sem parar. Antes de sair do bar compramos cada um um latão de cerveja pra garantir que que ficaríamos salvos da sobriedade. O apartamento não era perto, mas ignorei esse fato.

Chegamos. Ela morava no terceiro andar de um prédio antigo, a sacada com luzes natalinas, se destacava em meio as outras varandas. Entrei, tirei minha bota, ela entrou na cozinha e voltou com um copo cheio de água e uma garrafa de rum, que já não estava tão cheia assim.

Olhei em volta, e assim como o prédio, tudo era antigo.

Fomos pra varanda e continuamos a conversa. Ela falou que a casa era de uma tia que faleceu a um tempo atrás, e que deixou pra ela, já que não tinha filhos. Ficamos em silêncio.

Já passava da uma da manhã e eu tentava medir a minha sobriedade, pensava que talvez fosse melhor eu parar de beber.

Ela entrou na cozinha e colocou uma pizza congelada no forno elétrico, era possível ver uma tatuagem na nuca, mas que não consegui identificar o que era. Levantei e fui ao banheiro, molhei o rosto e fiz um gargarejo, como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa. Quando saí ela estava ligando um aparelho de som antigo, colocou um CD do ABBA e deu uma gargalhada, eu não entendi, mas achei aquela situação engraçada.

Paramos de fumar e ficamos sentados no sofá, cada um em um canto, mantendo uma distância confortável entre nós.

O papo rolou até umas quatro da manhã. Estávamos visivelmente bêbados, mas não estávamos cansados. 

Ela veio até minha direção e me beijou. 

Obviamente que eu esperava que aquilo fosse acontecer, mas lá pelas duas da manhã já havia deixado de acreditar nessa possibilidade.

Fomos para o quarto, e entre beijos e carícias acabamos dormindo.

Lá pelas onze da manhã ela me acorda, me beija novamente e me chama pra tomar café. levanto meio perdido, tomo um copo de água e meço os possíveis estragos da ressaca.

Antes do café resolvo tomar um banho. O álcool que transpira por cada poro do meu corpo aos poucos evapora na água quente.

Me enxugo, coloco minha roupa, e vou até a cozinha pra tomar meu café. 

Ainda não deu meio dia, mas já estou apaixonado outra vez. 

 


3 comentários:

  1. Antes do meio dia , não e uma boa hora pra se apaixonar. Depois, sim! Com estômago cheio, a ilusão passa! Hehe Texto massa!

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  2. Que maravilha te ler e saber de ti 🌹👏 adorei o texto!

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